
Chamar a Zona Franca de Manaus de “irracionalidade atroz” pode render aplauso em palanque, mas não substitui uma conta bem feita.
O presidenciável Renan Santos (Missão) quer cortar os incentivos de um modelo que reúne mais de 550 indústrias, cerca de 131 mil empregos diretos e faturou R$ 121,76 bilhões somente no primeiro semestre de 2026.
Se isso é uma “bolha”, é uma bolha que paga salários, movimenta fornecedores e arrecada em várias partes do país.
“Logística leve”. O que é isso?
Mais curioso é Renan propor “logística leve” e um polo petroquímico como alternativas à ZFM, sem apresentar estudo de viabilidade, financiamento, prazo ou quantidade de empregos. Para ele, desmonta-se primeiro a economia que existe e, depois, procura-se uma que talvez venha a existir.
A ZFM pode e deve ser aperfeiçoada, reconhecem especialistas. Mas há uma diferença enorme entre discutir eficiência dos incentivos e tratar quase seis décadas de industrialização como se fossem um erro de planilha.
O Amazonas já ouviu muitas promessas de alternativas econômicas. O que ainda não viu foi uma que substituísse, de fato, a escala da Zona Franca.
Mapa também tem floresta
Renan Santos parece ter descoberto uma peculiaridade geográfica incômoda: Manaus fica no meio da Amazônia.
A indústria, portanto, não recebeu incentivos por capricho ou caridade, mas porque produzir no coração da floresta custa diferente de produzir perto dos grandes mercados consumidores e dos grandes corredores logísticos do país.
O dragão chinês já chegou

Enquanto alguns candidatos discutem se a Zona Franca de Manaus deveria existir, os chineses parecem mais interessados em saber como ocupar espaço dentro dela.
Em poucas semanas, a Suframa recebeu representantes de grandes montadoras como BYD, GWM, Chery e Geely.
A Haier avalia uma fábrica própria em Manaus. Novas delegações chegam discutindo tecnologia, fornecedores, componentes e investimentos. E, fora do chão de fábrica, o capital chinês já avançou sobre a mineração da Taboca, em Pitinga.
Enquanto em Manaus se pergunta se a ZFM é “irracional”, lá fora alguém parece enxergar racionalidade suficiente para estudar investimento, transferência de tecnologia e cadeia produtiva.
Valor estratégico
A questão chinesa para o Amazonas deixou de ser apenas atrair dinheiro oriental. É evitar que o chinês venha buscar minério de um lado e montar produto de outro, deixando por aqui apenas a etapa de menor valor agregado.
Se o dragão já está batendo à porta, o Estado precisa decidir se vai entregar apenas matéria-prima e incentivos ou exigir tecnologia, fornecedores locais, pesquisa e empregos qualificados.
“Eu sou BR-319”

Eduardo Braga resolveu simplificar a campanha: se a BR-319 tem dono político, ele quer colocar o nome na escritura. “Eu sou Amazonas. Eu sou BR-319”, proclamou o senador nas redes sociais, transformando a rodovia em sobrenome eleitoral.
O detalhe é que a estrada é obra do governo federal, comandado por Lula, seu aliado. Mas na propaganda o presidente aparece discretamente, enquanto Braga ocupa o primeiro plano. É como aquele amigo que ajuda a pagar a conta, mas deixa o outro escolher a mesa, pedir o prato e ainda levar o crédito pelo jantar.
Braga tem, sim, participação política na mudança legislativa que ajudou a destravar a recuperação da rodovia. Mas transformar uma obra federal em patrimônio eleitoral pessoal parece ser outro departamento.
Quem castra primeiro?

A propaganda eleitoral resolveu transformar a castração química em campeonato. De um lado, Wilson Lima promete levar a bandeira para o Senado Federal. Do outro, Alberto Neto avisa que já estava nessa briga antes e, portanto, reivindica a medalha de ouro.
Faltou só o narrador esportivo: “Senhoras e senhores, começa agora a disputa pela autoria da castração química no Amazonas!”
Wilson entrou com a promessa. Alberto entrou com o currículo. Um diz “eu vou lutar”. O outro responde: “eu já estou lutando”. E o eleitor, que deveria estar avaliando propostas, acaba assistindo a uma curiosa disputa para saber quem consegue ser mais duro no horário eleitoral.
Tratamento químico-hormonal
Há uma diferença importante: o texto relatado por Alberto na Câmara dos Deputados não estabelece simplesmente uma castração química automática. Prevê tratamento químico-hormonal aceito voluntariamente como condição para progressão de regime ou livramento condicional.
No fim, a disputa parece menos sobre quem descobriu o tema e mais sobre quem consegue gritar primeiro que é o candidato mais linha-dura. A castração virou bandeira. Agora falta resolver com quem fica a autoria.









