Nico Valente MANAUS, 357 ANOS: Urgência de construir uma cidade melhor para todos

MANAUS, 357 ANOS: Urgência de construir uma cidade melhor para todos

Por Nico Valente

Manaus chega aos seus 357 anos neste sábado, 24 de outubro, carregando uma história marcada pela resistência, pela diversidade cultural, pela capacidade de reinvenção e por uma extraordinária importância para a Amazônia e para o Brasil.

É uma cidade que desperta orgulho em seus habitantes, impressiona pela exuberância de sua natureza e se destaca como um dos principais centros industriais e econômicos da Região Norte.

No entanto, o aniversário da capital amazonense também convida a uma reflexão necessária: que Manaus estamos construindo para as próximas gerações?

Mais do que celebrar suas conquistas, os 357 anos representam uma oportunidade para discutir as grandes demandas urbanas que se acumulam e que exigem soluções urgentes, planejamento de longo prazo e compromisso permanente dos poderes públicos.

Manaus não pode ser vista apenas pela grandiosidade de sua história, pela imponência do Teatro Amazonas, pela força da Zona Franca ou pela beleza do encontro das águas dos rios Negro e Solimões.

É preciso olhar, sobretudo, para a realidade cotidiana de quem enfrenta congestionamentos, sofre com alagamentos, convive com a precariedade do saneamento e espera por serviços públicos de melhor qualidade.

A cidade cresceu, expandiu suas fronteiras urbanas e multiplicou suas necessidades. Agora, precisa fazer com que sua infraestrutura, seus serviços e suas oportunidades acompanhem esse crescimento.

Metrópole precisa crescer

Com população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em aproximadamente 2,33 milhões de habitantes em 2026, Manaus é a maior cidade da Região Norte e uma das maiores capitais brasileiras.

Seu crescimento, impulsionado especialmente pela implantação da Zona Franca de Manaus, transformou profundamente a configuração urbana da capital.

O Polo Industrial de Manaus tornou-se um importante instrumento de geração de empregos, renda e arrecadação, consolidando a cidade como centro estratégico da economia amazônica.

Entretanto, a expansão populacional e territorial não foi acompanhada, em todos os momentos, por investimentos suficientes em infraestrutura, ordenamento urbano e serviços essenciais.

O resultado aparece nas desigualdades entre bairros, na ocupação de áreas ambientalmente vulneráveis e na dificuldade de oferecer condições adequadas de moradia, transporte e saneamento a toda a população.

Um relatório do Serviço Geológico do Brasil, publicado em 2025, relaciona a expansão urbana desordenada à ocupação de encostas e margens de igarapés, aumentando a exposição de moradores a deslizamentos, erosões e inundações.

Mobilidade urbana

Foto: Carlos Oliveira/Semcom

Entre os problemas que mais afetam a rotina dos manauaras está a mobilidade urbana.

O crescimento da frota de veículos, a concentração de atividades econômicas em determinados corredores e as limitações do transporte coletivo tornam os deslocamentos diários cansativos e demorados.

A cidade necessita de uma política de mobilidade que vá além de intervenções pontuais no sistema viário.

É indispensável modernizar o transporte público, ampliar a eficiência dos corredores de ônibus, melhorar a qualidade da frota, investir em acessibilidade e desenvolver alternativas seguras para pedestres e ciclistas.

Também é necessário discutir a integração dos diferentes modais de transporte, inclusive considerando o potencial hidroviário de uma cidade cuja identidade e localização estão profundamente ligadas aos rios.

Uma Manaus mais moderna não será aquela que tiver mais viadutos ou avenidas, mas aquela em que o cidadão consiga chegar ao trabalho, à escola e aos serviços essenciais com segurança, conforto e menor tempo de deslocamento.

Saneamento básico

Poucos desafios são tão importantes para o futuro de Manaus quanto a universalização do saneamento básico.

Apesar dos avanços na cobertura do abastecimento de água, a coleta e o tratamento de esgoto ainda representam um problema estrutural.

Segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), referentes a 2024, aproximadamente 97,1% da população tinha acesso aos serviços públicos de abastecimento de água, enquanto apenas 32,4% era atendida por serviços públicos de esgotamento sanitário.

Essa diferença demonstra a dimensão dos investimentos ainda necessários. A ampliação das redes de esgoto, a construção de infraestrutura de tratamento e a recuperação dos igarapés devem integrar uma estratégia permanente de desenvolvimento urbano.

Não é aceitável que uma cidade localizada no coração da maior bacia hidrográfica do planeta continue convivendo com cursos d’água degradados pelo lançamento de resíduos e esgoto.

A recuperação ambiental dos igarapés precisa ser compreendida como uma questão de saúde pública, dignidade humana e valorização urbana.

Alagamentos e outros problemas

Outro desafio histórico de Manaus é enfrentar os impactos das chuvas intensas sobre bairros e comunidades vulneráveis.

A impermeabilização do solo, a ocupação desordenada, a deficiência de drenagem e o descarte inadequado de resíduos contribuem para agravar alagamentos e outros problemas.

De acordo com levantamento do Serviço Geológico do Brasil, a Defesa Civil municipal registrou 1.230 ocorrências relacionadas a riscos hidrológicos e geológicos entre 2021 e 2024.

A resposta a esse quadro exige investimentos em macrodrenagem, manutenção preventiva, contenção de encostas e recuperação de áreas ambientalmente sensíveis.

Mas isso exige também uma política habitacional consistente. Milhares de famílias precisam de oportunidades reais de acesso à moradia digna, em áreas dotadas de infraestrutura, transporte, escolas e unidades de saúde.

Remover famílias de locais perigosos sem assegurar alternativas habitacionais adequadas não resolve definitivamente o problema.

O planejamento urbano deve priorizar a prevenção, reduzindo a necessidade de intervenções emergenciais que, além de custosas, frequentemente chegam quando os danos já ocorreram.

Qualidade dos serviços públicos

O desenvolvimento de Manaus também depende de uma rede de serviços públicos capaz de responder às necessidades de uma população numerosa e distribuída por um território urbano extenso.

Na saúde, é fundamental fortalecer a atenção básica, melhorar a estrutura das unidades, ampliar a capacidade de atendimento e assegurar maior eficiência na marcação de consultas, exames e procedimentos.

O crescimento das zonas Norte e Leste, assim como de outras áreas densamente povoadas, exige especial atenção à distribuição territorial dos serviços.

Na educação, o desafio envolve ampliar a oferta de vagas, investir na qualidade do ensino, valorizar os profissionais e melhorar a infraestrutura escolar.

Creches e escolas de tempo integral, formação tecnológica e qualificação profissional são instrumentos importantes para ampliar oportunidades e reduzir desigualdades.

A segurança pública também merece atenção, com políticas que combinem prevenção da violência, inteligência, policiamento, iluminação urbana e iniciativas sociais voltadas especialmente à juventude.

Mudanças climáticas

Os 357 anos de Manaus chegam em um momento particularmente preocupante do ponto de vista ambiental.

A fumaça das queimadas que atingiu a capital nos últimos dias levou a Prefeitura a cancelar a programação comemorativa, incluindo o tradicional Boi Manaus e outros eventos previstos para o aniversário.

Segundo a Agência Brasil, a rede municipal de saúde registrou aumento de 10,5% nos atendimentos por sintomas respiratórios entre agosto e setembro.

O episódio evidencia uma realidade incontornável: Manaus precisa se preparar para os efeitos cada vez mais severos das alterações climáticas, das estiagens, das queimadas e dos eventos extremos.

A cidade necessita ampliar sua arborização, preservar áreas verdes, proteger nascentes e igarapés e desenvolver mecanismos de monitoramento ambiental e prevenção de desastres.

Também é necessário fortalecer a cooperação entre município, Estado e União, uma vez que parte significativa dos problemas ambientais ultrapassa os limites territoriais da capital.

Centro, cultura e turismo

Manaus possui um patrimônio histórico e cultural de extraordinário valor.

O Teatro Amazonas, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, o Palácio Rio Negro, o Porto de Manaus e tantos outros espaços representam capítulos fundamentais da história da cidade.

Entretanto, a valorização desse patrimônio exige ações permanentes de conservação, requalificação urbana, segurança, limpeza e estímulo às atividades culturais e econômicas.

O Centro Histórico precisa voltar a ocupar uma posição de destaque na vida cotidiana da cidade, combinando preservação arquitetônica, moradia, comércio, turismo e espaços de convivência.

Manaus reúne condições para ampliar sua presença no turismo cultural, gastronômico, ecológico e de negócios. Para isso, necessita investir em infraestrutura, qualificação profissional, mobilidade, promoção turística e recuperação de espaços públicos.

Transformar riqueza em bem-estar

A Zona Franca de Manaus continua sendo um dos principais pilares da economia amazonense. Sua importância vai além da geração de empregos industriais, alcançando o comércio, os serviços, a arrecadação tributária e a dinâmica econômica regional.

Mas o futuro de Manaus exige que a força desse modelo seja acompanhada por políticas de inovação, diversificação produtiva, desenvolvimento tecnológico e formação de mão de obra.

A bioeconomia, a pesquisa científica, a tecnologia da informação, a logística e as atividades sustentáveis representam possibilidades que merecem planejamento e investimentos.

Ao mesmo tempo, é fundamental que a riqueza produzida na cidade contribua cada vez mais para melhorar as condições de vida de seus habitantes.

O crescimento econômico é indispensável, mas não pode ser considerado um fim em si mesmo. Seu verdadeiro significado está na capacidade de gerar oportunidades, reduzir desigualdades e assegurar dignidade à população.

Planejamento e investimentos

A superação dos grandes problemas urbanos de Manaus exige mais do que iniciativas isoladas ou obras de impacto imediato. A cidade precisa de planejamento estratégico e uma agenda de investimentos que ultrapasse os ciclos eleitorais.

É necessário fortalecer os instrumentos de planejamento urbano, atualizar diagnósticos, estabelecer prioridades territoriais e ampliar a participação da sociedade nas decisões.

Também é indispensável melhorar a articulação entre Prefeitura, Governo do Amazonas, Governo Federal, iniciativa privada, universidades e organizações da sociedade civil.

As responsabilidades são distintas, mas os desafios frequentemente são compartilhados.

A população tem o direito de acompanhar não apenas anúncios de obras e programas, mas também os resultados efetivamente alcançados.

Transparência, fiscalização, metas verificáveis e avaliação de desempenho devem fazer parte de uma cultura de gestão pública comprometida com resultados duradouros.

Cuidar de sua gente

Aos 357 anos, Manaus tem muitos motivos para celebrar. Sua história é marcada pela contribuição dos povos indígenas, pela diversidade de sua formação social, pela riqueza de suas manifestações culturais e pela capacidade de enfrentar transformações econômicas e desafios históricos.

Mas, celebrar Manaus também significa reconhecer que ainda existem distâncias profundas entre a cidade que se projeta para o mundo e aquela vivida cotidianamente por parte de sua população.

O aniversário deve ser um momento de união em torno de prioridades comuns, sem ignorar as responsabilidades dos governantes e sem transformar os problemas urbanos em disputas políticas estéreis.

A administração municipal tem papel central nesse processo, mas o Estado, a União, o setor produtivo e a própria sociedade também precisam contribuir para soluções sustentáveis.

Manaus precisa avançar da lógica de administrar urgências para a capacidade de planejar seu futuro.

Precisa ser uma cidade onde o desenvolvimento econômico caminhe ao lado da justiça social; onde a floresta seja preservada sem que isso signifique abrir mão do progresso; onde os bairros periféricos recebam a mesma atenção dispensada às áreas centrais; e onde a população tenha acesso a serviços públicos compatíveis com a importância da capital.

Manaus merece ser celebrada por sua história, mas precisa ser reconhecida, sobretudo, pela qualidade de vida que oferece à sua gente. E esse é o grande desafio que seus 357 anos colocam diante de todos nós.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.