Famosos Um bate-papo exclusivo no “DuduCast” com o poeta e músico Celdo Braga

Um bate-papo exclusivo no “DuduCast” com o poeta e músico Celdo Braga

Celdo Braga - Foto: Reprodução

A riqueza cultural e sonora do Norte ganhou destaque em um encontro marcante exibido no programa “DuduCast”. O apresentador Dudu Monteiro recebeu o poeta, escritor e músico Celdo Braga para uma conversa profunda sobre trajetória artística, preservação ambiental e a criação de bioinstrumentos que levam os sons da floresta para o mundo inteiro.

Com décadas de dedicação à cultura regional e sendo um dos fundadores do renomado grupo “Raízes Caboclas”, Celdo Braga compartilhou memórias da infância no interior, revelou bastidores de suas criações e declamou poesias que retratam a vida cabocla com sensibilidade e autenticidade.

Do improviso aos bioinstrumentos

A paixão por retirar música da natureza começou ainda na juventude em Benjamin Constant. Celdo relembrou que os primeiros instrumentos do grupo surgiram do improviso e da criatividade popular.

Um atabaque furado ganhou couro de gato maracajá, um chocalho indígena foi presenteado em uma festa tradicional e gomos de taboca viraram percussão.

Com o passar dos anos e a parceria de músicos como Eliberto Barroncas e João Paulo, essa busca evoluiu para a criação de quase setenta bioinstrumentos.

Utilizando sementes, cascas de frutos como cupuaçu e fava, palhas e cuias, o artista conseguiu reproduzir o cantar dos pássaros, o coachar dos sapos e o barulho da chuva nas folhas.

Essa sonoridade única chamou a atenção internacional e foi gravada por uma produtora de Los Angeles, dando origem ao projeto “The Amazonic”, a primeira biblioteca digital de sons amazônicos no mundo.

As quatro estações amazônicas

Durante o bate-papo, Celdo Braga desmistificou a ideia de que a região não possui estações do ano definidas. Com base em pesquisas realizadas no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o poeta explicou o conceito da fenologia e declamou versos do seu livro intitulado “Estações”.

A obra mostra como a flora e a fauna reagem às mudanças no clima, no nível dos rios e na floração de árvores como o ipê, o açaí e a samaúma.

O apresentador Dudu Monteiro destacou como a cidade de Manaus muitas vezes se distancia da sua própria natureza circundante.

Celdo relembrou quando criticou publicamente o plantio de palmeiras imperiais em uma grande avenida, ressaltando que a valorização de espécies nativas como o ipê branco traz mais sombra, beleza e identidade para o ambiente urbano.

A busca pela identidade

Outro ponto marcante da entrevista foi a reflexão sobre o sentimento de pertencer à terra. Ao declamar o poema “Ausências”, Celdo lamentou o fato de muitos moradores viverem de costas para os rios e trocarem os costumes regionais por referências externas.

O artista enfatizou que o crescimento populacional impulsionado pela criação da Zona Franca de Manaus (ZFM) atraiu pessoas de diversas partes do país, gerando uma grande mistura cultural.

“A primeira identidade de um povo é a sua forma de falar”, destacou o poeta Celdo ao explicar que a capital amazonense acabou perdendo sotaques e expressões típicas ao longo das últimas décadas em virtude desse caldeamento social.

O resgate da cuia

No encerramento da conversa, o músico demonstrou a sonoridade de diversos instrumentos artesanais e reforçou o valor de transformar materiais descartados em objetos de arte e música. A cuia, antiga companheira dos ribeirinhos que acabou caindo em desuso com a chegada do plástico e do alumínio, virou a grande protagonista do seu trabalho.

“A cuia que era uma simples vasilha passa a ser agora um instrumento musical com uma sonoridade ímpar”, afirmou Celdo Braga ao mostrar como o fruto se transforma em tambores, maracás e apitos.

O trabalho do artista segue como um símbolo de resistência e celebração da vida na floresta, mostrando que a verdadeira arte amazônica continua viva, pulsante e conquistando novos horizontes.

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