
Por Nico Valente
A eleição de 2026 consolidou no Amazonas uma transformação que já vinha sendo percebida nas campanhas anteriores: a política está deixando progressivamente de depender da ocupação física das ruas para disputar espaço no ambiente digital.
Em Manaus, a percepção foi visível durante a campanha. Menos bandeiras, menos material espalhado pelas avenidas, menor presença ostensiva de cabos eleitorais e uma cidade aparentemente mais limpa de propaganda contrastaram com o volume de conteúdo político que chegava diariamente aos celulares dos eleitores.
Contudo, a campanha não desapareceu. Ela mudou de endereço. Saiu parcialmente dos postes, muros, carros de som e grandes concentrações e passou a disputar atenção no Instagram, TikTok, Facebook, YouTube, WhatsApp e outras plataformas.
Os números da eleição amazonense ajudam a dimensionar essa mudança. O primeiro turno, realizado em 4 de outubro, mobilizou 2,8 milhões de eleitores aptos no Estado. Na Câmara dos Deputados, Sargento Salazar (PL) foi o mais votado, com 212.948 votos. Na Assembleia Legislativa, Zé Ricardo (PT) liderou com 72.518 votos.
Para o Governo do Amazonas, Omar Aziz terminou a primeira etapa com 841.846 votos, seguido por Professora Maria do Carmo, com 507.335, levando a disputa para o segundo turno.
Mas há uma ressalva fundamental: não é possível atribuir automaticamente esses resultados ao desempenho nas redes sociais.
O que os dados permitem afirmar é que as plataformas digitais se tornaram uma parte central das estratégias eleitorais e que diferentes candidatos construíram comunidades, produziram conteúdo e investiram em publicidade para disputar a preferência do eleitor.
Celular é o novo palanque
Por longas décadas, a campanha eleitoral amazonense teve uma geografia muito própria.
Comícios, carreatas, caminhadas, bandeiras, santinhos, adesivos, carros de som e cabos eleitorais eram elementos praticamente obrigatórios para quem pretendia alcançar grandes contingentes de eleitores.
A eleição de 2026 mostrou que essa lógica não desapareceu, mas deixou de ser suficiente. O eleitor passou a receber a campanha diretamente em sua rotina digital.
Um vídeo publicado pela manhã pode alcançar milhares de pessoas antes do almoço. Uma declaração de um candidato pode ser transformada em corte de poucos segundos. Um episódio ocorrido durante uma caminhada pode virar conteúdo em minutos. Uma proposta pode ser apresentada diretamente ao celular de determinado segmento do eleitorado.
O resultado é uma campanha permanente e personalizada, na qual o candidato não precisa esperar o próximo comício para falar com o eleitor.
Estratégias no mesmo feed
A disputa pelo Governo do Amazonas oferece um dos melhores exemplos dessa transformação.
Levantamento da Fanpage Karma, divulgado durante a campanha e realizado entre janeiro e julho, acompanhou David Almeida (Avante), Omar Aziz (PSD), Maria do Carmo (PL) e Roberto Cidade (União Progressista) em diferentes plataformas.
Os números mostravam comunidades digitais de tamanhos distintos e níveis diferentes de interação.
David Almeida aparecia com cerca de 593 mil seguidores e 3,7 milhões de interações, além de 105,6 milhões de visualizações de vídeos. Omar Aziz reunia aproximadamente 561 mil seguidores e 1,4 milhão de interações. Maria do Carmo tinha cerca de 226 mil seguidores e 2,6 milhões de interações, enquanto Roberto Cidade registrava aproximadamente 212 mil seguidores, 1,8 milhão de interações e 58,9 milhões de visualizações de vídeos.
O próprio levantamento alertava que seguidores, curtidas e visualizações não equivalem automaticamente a votos. A diferença é importante. Ter uma audiência grande não significa possuir a mesma quantidade de eleitores dispostos a votar naquele candidato. Da mesma forma, uma comunidade menor pode apresentar alto grau de interação e mobilização.
Quatro linguagens
O monitoramento também identificou características diferentes na comunicação dos principais candidatos.
David Almeida utilizava conteúdos relacionados à vida pessoal, família, fé e emoção, enquanto Omar Aziz concentrava parte importante da comunicação em obras, fiscalização, atuação política e interior.
Maria do Carmo construiu uma presença mais associada ao confronto político e à comunicação direta, enquanto Roberto Cidade explorava prestação de contas, entregas e ações administrativas.
Não se tratava de uma única fórmula de comunicação. Eram diferentes maneiras de ocupar o mesmo território: o feed.
Uma indústria eleitoral
Outro indicador importante está no dinheiro destinado à publicidade nas plataformas.
Dados reunidos pela Vipima a partir da biblioteca de anúncios da Meta e do repositório europeu do Digital Services Act apontaram, até 3 de outubro, milhões de reais investidos por candidatos amazonenses em publicidade digital.
Na disputa pelo Governo do Amazonas, o levantamento registrava cerca de R$ 2,5 milhões em publicidade reportada, considerando os candidatos anunciantes.
Roberto Cidade respondia por 39% desse volume. David Almeida, por 29%. Omar Aziz, por 17%, e Professora Maria do Carmo, por 16%.
Os números demonstram que a disputa pelo eleitor passou também a envolver uma dimensão empresarial e tecnológica: produzir conteúdo, segmentar audiência, comprar alcance, testar mensagens e acompanhar o desempenho das campanhas.
Mas novamente aparece uma diferença essencial: dinheiro investido não é sinônimo de voto.
Salazar e a audiência própria

Na disputa proporcional, um dos casos mais expressivos é o de Sargento Salazar (PL).
O candidato terminou o primeiro turno com 212.948 votos, a maior votação individual entre os candidatos a deputado federal no Amazonas.
A trajetória de Salazar apresenta uma característica particularmente importante para compreender a nova política digital: a existência de uma audiência construída antes da eleição.
Seu conteúdo político já circulava nas redes antes do período eleitoral, permitindo que a campanha partisse de uma comunidade digital previamente formada.
Na publicidade da Meta, dados reunidos pela Vipima registravam, até 3 de outubro, 69 anúncios, aproximadamente R$ 429,5 mil em investimento e cerca de 19,8 milhões de impressões.
É um caso que permite observar uma combinação de elementos: audiência própria + produção contínua de conteúdo + publicidade paga + presença eleitoral.
Ainda assim, esses dados não permitem afirmar que determinado percentual de seus votos tenha sido produzido pelas redes. A votação é resultado de múltiplos fatores.

Amom, Joana e a política de conteúdo
Amom Mandel (Republicanos) também construiu uma presença digital expressiva.
Monitoramentos de redes apontaram uma audiência agregada superior a 700 mil seguidores nas plataformas consideradas. Na Meta, o candidato teve centenas de anúncios e milhões de impressões na campanha. Na eleição, recebeu 119.480 votos e garantiu a reeleição.
Joana Darc, por sua vez, apareceu em levantamentos digitais com uma audiência agregada próxima de 870 mil seguidores, somando diferentes plataformas.
Na publicidade da Meta, foram registrados centenas de anúncios, cerca de R$ 112,9 mil em investimento e em torno de 17,5 milhões de impressões.
Na urna, Joana recebeu 85.461 votos e conquistou uma cadeira na Câmara.
Esses casos ajudam a desmontar uma ideia simplista: não existe uma relação matemática direta entre número de seguidores e número de votos.
ALEAM na lógica do feed
Na disputa pela Assembleia Legislativa do Amazonas, a presença digital igualmente ganhou importância.
Débora Menezes (PL), Mário César Filho (União Brasil), Mayra Dias (PSD), Capitão Carpê (PL) e outros candidatos chegaram à eleição com comunidades digitais expressivas.
Também houve campanhas com investimentos consideráveis em publicidade.
Dados da Vipima registraram, por exemplo, mais de R$ 566 mil em anúncios para Débora Menezes, aproximadamente R$ 288 mil para Delegado Péricles, R$ 167 mil para Ednailson Rozenha e R$ 109,9 mil para Mário César Filho, entre outros candidatos monitorados.
O número de impressões também alcançou dezenas de milhões em determinados casos. Eurico Tavares, por exemplo, aparecia com cerca de 115 milhões de impressões e R$ 621 mil em publicidade reportada.
Isso demonstra a dimensão que a propaganda digital alcançou na campanha proporcional. Mas a urna novamente produziu uma informação importante. O petista Zé Ricardo foi o deputado estadual mais votado, com 72.518 votos, sem aparecer entre os maiores anunciantes da Meta no levantamento citado.
A informação mostra que uma campanha pode construir força eleitoral por diferentes caminhos.

O feed não é tudo
Aqui a análise precisa fugir dos extremos. A eleição de 2026 não demonstrou que a política de rua morreu. Também não demonstrou que o candidato com maior número de seguidores será o mais votado.
O que ela mostrou é que a campanha digital passou a ocupar uma posição que antes pertencia quase exclusivamente aos instrumentos tradicionais de comunicação eleitoral.
A rua continua importante. A televisão, também, o mesmo acontecendo com o rádio, a estrutura partidária e o contato pessoal.
Mas todos esses elementos passaram a conviver com uma nova realidade: o eleitor também acompanha o candidato sem sair de casa.
O caso do Governo é a melhor prova. O resultado do primeiro turno oferece uma fotografia interessante. Omar Aziz terminou com 841.846 votos, equivalentes a 40,63% dos votos válidos.
Professora Maria do Carmo teve 507.335 votos, ou 24,49%. Roberto Cidade recebeu 453.896 votos, enquanto David Almeida terminou com 218.490. Omar e Maria avançaram ao segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Esses números não podem ser explicados só pela performance digital. Mas podem ser analisados em conjunto com os dados das redes para compreender como diferentes campanhas disputaram atenção, construíram narrativas e procuraram manter o eleitorado permanentemente conectado às suas candidaturas.
Transformação nacional
O que ocorreu no Amazonas não é um fenômeno isolado. A eleição de 2026 confirmou nacionalmente a ascensão de candidatos que transformaram produção de conteúdo em parte central de suas atividades políticas.
No Amazonas, porém, o fenômeno ganhou características próprias. A dimensão territorial do Estado torna particularmente importante a comunicação digital.
São 62 municípios, grandes distâncias, dificuldades logísticas e uma população concentrada em Manaus, mas distribuída também por um território gigantesco.
Uma mensagem digital pode atravessar em segundos uma distância que, fisicamente, exigiria horas ou dias. É uma mudança particularmente relevante para um Estado com as características do Amazonas.
A campanha agora acontece no bolso do eleitor. A imagem talvez mais simbólica da eleição de 2026 seja esta: o candidato não precisa mais esperar que o eleitor vá ao comício. O conteúdo vai até o eleitor.
O telefone celular passou a funcionar simultaneamente como palanque, santinho, televisão, rádio, canal de prestação de contas, instrumento de mobilização, espaço de confronto e mecanismo de distribuição de publicidade. E, diferentemente do palanque tradicional, o feed funciona 24 horas por dia. O candidato pode falar de manhã, responder a uma crítica à tarde e publicar um vídeo à noite. No dia seguinte, tudo recomeça.

Seguidor não é voto
Os números da eleição amazonense deixam uma advertência importante para candidatos, partidos e analistas.
Não existe conversão automática de audiência em voto. Um candidato pode ter milhões de visualizações e não transformar todo esse alcance em votos. Outro pode ter uma audiência menor e apresentar forte votação.
Há ainda quem invista pesadamente em publicidade e obtenha resultado eleitoral diferente daquele sugerido pelo volume de anúncios. Por isso, a verdadeira disputa não é simplesmente pela quantidade de seguidores. É pela capacidade de transformar atenção em vínculo, vínculo em confiança e confiança em voto.
Essa conversão não pode ser medida apenas pelas plataformas. A política amazonense mudou de cenário. A eleição de 2026 deixa uma constatação objetiva A campanha eleitoral amazonense não desapareceu das ruas.
A campanha ganhou uma segunda rua: a rua digital. É nela que candidatos encontram eleitores, respondem a adversários, apresentam propostas, mostram realizações, constroem personagens políticos e tentam manter suas comunidades mobilizadas.
A cidade pode amanhecer sem uma bandeira em cada esquina. Mas milhões de telas podem estar carregadas de mensagens políticas. Essa talvez seja a grande mudança observada no Amazonas em 2026. O eleitor continua sendo disputado. O que mudou foi o lugar onde essa disputa acontece. E, cada vez mais, esse lugar cabe na palma da mão.










