Opinião A Água Perrier na Belle Époque manauara: Memórias e o preço da...

A Água Perrier na Belle Époque manauara: Memórias e o preço da qualidade

Por José Rocha

A Manaus da belle époque consumia tudo do bom e do melhor que era sucesso na Europa; dentre eles, poderemos citar o consumo, pela elite, da água gaseificada natural de origem francesa, a mundialmente conhecida ‘Água Perrier’.

Por que era famosa? Por ser uma água mineral mundialmente conhecida, com engarrafamento realizado em Vergèze, no sul da França, reforçada com gás natural da fonte, apresentando um paladar singular, com bastantes bolhas, o que dava uma característica única. No final do século dezenove, essas terras foram arrendadas ao médico Dr. Louis Perrier, que começou a vendê-la com o seu ‘Perrier’.

As garrafas eram de vidro de cor verde vibrante e translúcido, bojudas na base, que afunila ao gargalo, lembrando uma gota de água, o que se tornou a sua identidade visual, com tamanhos de 200, 330 e 750 ml. Muitos anos depois, a marca introduziu as versões de plástico PET e latas de alumínio.

Como a cidade de Manaus era cosmopolita e rica, a elite consumia tudo do bom e do melhor que existia na Europa, tanto que, nos jornais antigos, aparece a chegada a Manaus de carregamentos de caixas de água Perrier por vapores ingleses.

Com a derrocada do preço da borracha no mercado exterior, muitas empresas faliram e os estrangeiros começaram a fazer as suas malas para voltarem aos seus países de origem. Em decorrência disto, a partir de 1911, começaram a aparecer vários leilões pela cidade com uma afinidade de produtos importados levados a hasta pública, incluindo caixas de água Perrier.

A cidade, mesmo em estado de decadência econômica, a elite que aqui ficou ainda gostava de consumir produtos de qualidade, como ainda prevalece até os dias atuais. Existiam alguns anúncios de vendas por parte das seguintes firmas: Armazéns Andressen, Castelo de Bronze, Casa Guerra, Álvaro Monteiro & Cia., Pereira Santos etc.

Consumir água mineral importada não era apenas uma preferência de paladar, mas uma demarcação de classe social extrema. Enquanto a população local sofria com as constantes epidemias ligadas à falta de saneamento básico e à água de qualidade duvidosa, os ricos ostentavam caixas de Perrier em banquetes ou nos cafés luxuosos da cidade.

A elite de Manaus gastava fortunas importando a Perrier justamente por ser sinônimo de pureza absoluta, saúde e proteção contra as contaminações hídricas locais. A água europeia era vista como um escudo de civilidade biológica.

No meu primeiro emprego, na Central de Ferragens, o dono era um português; ele gostava de beber esta água. Certa vez, tive a oportunidade de provar, mas não gostei nem um pouco, pois não estava acostumado com água gaseificada.

Em 1990, a Perrier viveu a maior crise de sua história ao enfrentar um recall global massivo provocado pela contaminação por benzeno, uma substância química cancerígena. O episódio abalou gravemente a reputação de pureza da marca e mudou os rumos da empresa para sempre.

Fragilizada financeiramente e com a imagem arranhada, a Perrier acabou perdendo sua independência e foi adquirida pela gigante suíça Nestlé em 1992. Hoje, a Perrier continua pertencendo à Nestlé e, no Brasil, é detida pela Minalba Brasil, do grupo Edson Queiroz.

A Perrier ainda é vendida e pode ser consumida em Manaus, especialmente em estabelecimentos voltados para o público gourmet e restaurantes de alta gastronomia. Como se trata de um produto importado e de categoria premium, ela não costuma ser encontrada em mercadinhos comuns de bairro, mas está presente nos seguintes locais na cidade: Felicori Gastronomia, Coco Bambu, Pátio Gourmet e nas Redes Carrefour.

Como podem observar, a Água Perrier destina-se ao público de classe média alta; isto vem desde a belle époque manauara até os dias atuais. Pensando bem: qualidade tem o seu preço, e paga e consome somente quem pode; quem não pode, como é o meu caso, apenas escreve a sua história.

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