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Lula acaba com as bets e pode ferir de morte o futebol brasileiro

Foto: Divulgação

Por Nico Valente

O futebol brasileiro entrou em uma nova e delicada etapa de sua história econômica. A Medida Provisória nº 1.394, assinada pelo presidente Lula em 25 de setembro, proibiu no território nacional a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das loterias de apostas de quota fixa, abrangendo tanto as apostas esportivas quanto os jogos on-line.

Como é sabido, a medida também alcança publicidade, marketing e patrocínios ligados ao setor.

Para os clubes, a consequência é imediata e horrível: desaparece do mercado uma indústria que se transformou, em poucos anos, em uma das maiores financiadoras da publicidade esportiva brasileira.

Em 2025, as casas de apostas desembolsaram aproximadamente R$ 1,03 bilhão em patrocínios para os clubes da Série A. O montante representou cerca de um terço de todo o dinheiro arrecadado pelos 20 clubes da elite com patrocínios comerciais, que somaram R$ 3,069 bilhões.

É uma cifra suficientemente grande para provocar uma pergunta inevitável: quem vai colocar esse R$ 1 bilhão no futebol brasileiro?

Como preencher o buraco?

O futebol brasileiro tem razão para se preocupar com a velocidade da mudança.

O dinheiro das bets não surgiu como uma pequena receita complementar. Em 2024, os clubes da Série A receberam cerca de R$ 618 milhões das empresas de apostas. Em apenas um ano, o volume chegou a R$ 1,03 bilhão, crescimento de aproximadamente 66%.

Ao mesmo tempo, a participação das apostas no mercado de patrocínio tornou-se extraordinariamente elevada.

Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A tinham uma casa de apostas como patrocinadora máster. Em 2026, esse número caiu para 13, indicando que o próprio mercado já vinha passando por uma concentração antes da nova ofensiva do governo.

Isso revela uma realidade importante: o futebol brasileiro não apenas recebeu dinheiro das bets. Ele passou a estruturar parte de sua estratégia comercial em torno delas.

Manifesto duro

Os clubes chegaram a divulgar manifesto afirmando que uma eventual proibição representaria “o fim do futebol brasileiro”. O documento argumentou que a ruptura poderia comprometer investimentos, contratos, categorias de base, futebol feminino e outras estruturas do esporte.

O argumento merece ser levado a sério, principalmente pelo impacto financeiro imediato. Mas os próprios números recomendam cautela.

Os R$ 1,03 bilhão provenientes das bets representaram 7,2% das receitas totais dos clubes da Série A em 2025, que alcançaram aproximadamente R$ 14,3 bilhões. Portanto, o futebol brasileiro não perderia 7% de sua existência. Perderia uma parcela relevante de suas receitas, particularmente das receitas comerciais.

Por um lado, diz-se que o futebol não acaba sem as bets. Mas vários clubes poderão enfrentar uma forte crise de caixa se não encontrarem rapidamente outras fontes de receita.

O impacto também não será igual para todos. Clubes com contratos muito elevados terão um problema maior para substituir os valores imediatamente. Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Atlético-MG, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Vasco e Santos estão entre os exemplos de equipes que construíram contratos relevantes com o setor.

No Flamengo, por exemplo, o acordo com a Betano foi anunciado com valor fixo de R$ 250 milhões anuais, podendo chegar a R$ 268 milhões com metas, segundo os números divulgados pela imprensa.

Para um clube desse tamanho, existe maior capacidade de buscar novas fontes de financiamento. Para equipes menores, a situação pode ser diferente.

O próprio manifesto dos clubes chamou atenção para agremiações do interior e para competições com menor exposição comercial, nas quais a substituição imediata desse dinheiro pode ser muito mais difícil.

Então, a discussão deixa de ser apenas sobre Flamengo, Corinthians, Palmeiras ou São Paulo. Ela passa a envolver a sobrevivência financeira de uma cadeia inteira do futebol brasileiro.

E há outro efeito que pouca gente está discutindo. O dinheiro das bets não chega ao futebol apenas através do patrocínio das camisas.

As casas de apostas também compram publicidade em televisão, internet, rádio, placas de estádio, transmissões e outros espaços relacionados ao esporte.

Os próprios clubes argumentaram que a retirada das bets pode produzir efeitos indiretos sobre as receitas das empresas que compram direitos de transmissão, justamente porque essas empresas também monetizam a publicidade do setor.

Aposta perigosa

Portanto, a conta final pode ser maior do que os R$ 1,03 bilhão de patrocínio direto.

Existe uma cadeia econômica construída ao redor das apostas. E essa cadeia agora terá de ser reorganizada.

Contudo, existe uma questão que os próprios dirigentes precisam enfrentar. Por que o futebol brasileiro se tornou tão dependente das bets?

A entrada maciça desse dinheiro foi extremamente conveniente para os clubes. As empresas de apostas encontraram no futebol o veículo perfeito para alcançar milhões de consumidores; os clubes encontraram nas bets uma fonte de dinheiro disposta a pagar valores que outros setores talvez não estivessem preparados para desembolsar.

Foi uma relação comercial vantajosa para os dois lados. Mas criou dependência. E dependência financeira sempre traz um risco: quando a fonte desaparece, o problema não está apenas no dinheiro que deixa de entrar. Está na falta de alternativas preparadas para substituí-lo.

O governo Lula, por sua vez, parece enfrentar outra questão. O argumento oficial não se limita ao futebol.

A ofensiva contra as bets está relacionada à preocupação do governo com os efeitos sociais das apostas, incluindo vício e endividamento. A MP, em pleno período eleitoral, estabelece uma proibição ampla sobre exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa.

Portanto, o debate não pode ser reduzido à pergunta sobre quanto Flamengo, Palmeiras ou qualquer outro clube perderá.

Existe uma questão de política pública por trás da decisão de Lula: quanto o país está disposto a tolerar um mercado de apostas em troca das receitas, empregos, impostos e investimentos que ele produz?

E existe a pergunta inversa: como substituir os efeitos econômicos desse mercado sem permitir que o futebol, a televisão e outros setores sejam atingidos por uma ruptura financeira?

São questões diferentes, e ambas precisam ser respondidas.

O desafio de agora

A proibição de Lula coloca o futebol brasileiro diante de uma situação inédita.

Durante anos, os clubes aumentaram suas receitas comerciais apoiados em um setor que cresceu rapidamente. De 2021 a 2025, as receitas comerciais da Série A saltaram de R$ 1,3 bilhão para mais de R$ 3 bilhões, enquanto as bets passaram a ocupar parcela significativa desse mercado.

Agora, o futebol terá de descobrir se consegue manter essa trajetória sem a principal indústria que vinha ocupando seus espaços publicitários. E talvez essa seja a parte mais importante da história.

O problema do futebol brasileiro não é apenas perder as bets. É descobrir se ele construiu um modelo comercial suficientemente forte para sobreviver sem elas.

Se conseguir atrair bancos, empresas de tecnologia, varejistas, companhias aéreas, montadoras, indústrias, plataformas digitais e outros grandes anunciantes, a crise poderá ser administrada.

Se não conseguir, a perda dos patrocínios poderá produzir redução de folha salarial, menor investimento em categorias de base, dificuldades para financiar futebol feminino e modalidades olímpicas e maior pressão sobre clubes já endividados.

A crise que fica

O governo Lula tomou uma decisão que muda profundamente o mercado brasileiro de apostas. Bagunçou tudo.

Os clubes agora terão de enfrentar a consequência econômica dessa decisão. E o torcedor, que não participa das negociações milionárias entre dirigentes e patrocinadores, fica no meio dessa disputa.

Por isso, a pergunta que deve acompanhar o futebol brasileiro daqui para frente não é simplesmente se “o futebol acaba sem as bets”. Os números não sustentam essa afirmação literalmente.

A pergunta realmente importante é outra: sem os R$ 1,03 bilhão das apostas, quem estará disposto a pagar a conta do futebol brasileiro?

É essa resposta que poderá determinar o tamanho da crise, e também a capacidade de reinvenção, do futebol nacional.

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