Opinião O novo efeito Jefferson Péres na disputa pelo Senado no Amazonas

O novo efeito Jefferson Péres na disputa pelo Senado no Amazonas

Jefferson Peres e Plínio Valério – Foto José Cruz e Divulgação

Por Nico Valente

A disputa pelas duas vagas do Amazonas no Senado começa a entrar em uma fase em que menos importa saber quem está simplesmente na frente e mais importa compreender de onde poderá vir o voto que decidirá a segunda cadeira.

É nesse ponto que a visita de Flávio Bolsonaro a Manaus, na próxima sexta-feira, e os desdobramentos do processo judicial envolvendo Wilson Lima no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ) podem produzir consequências relevantes para o desenho da eleição.

Flávio Bolsonaro estará em Manaus na sexta, 11 de setembro, em uma agenda que foi antecipada e que deverá reunir candidatos e lideranças do Partido Liberal (PL) no Amazonas. A visita acontece quando a campanha começa a entrar em uma etapa de maior intensidade e quando o eleitor de direita passa a ser disputado de maneira mais explícita.

Naturalmente, o efeito mais imediato tenderia a favorecer o Capitão Alberto Neto, pela identidade partidária e pela associação direta com o projeto nacional do PL. Uma presença presidencial forte costuma funcionar como um catalisador para candidaturas que compartilham a mesma marca política.

Alberto, é claro, tem uma oportunidade evidente de transformar a visita de Flávio em combustível eleitoral, principalmente em Manaus e entre os segmentos mais ideologicamente identificados com o bolsonarismo no Estado.

Mas seria um erro imaginar que a onda Flávio necessariamente terá apenas um beneficiário. De repente, Plínio Valério pode encontrar uma oportunidade extraordinária nesse cenário.

Oposição ao governo

O senador do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) construiu, ao longo dos últimos anos, uma identidade política muito clara à direita e uma atuação de oposição ao Governo Federal que lhe permitiu ocupar um espaço próprio dentro do eleitorado conservador amazonense.

Plínio não depende exclusivamente da estrutura do PL para conversar com o eleitor que detesta, por exemplo, a ministra Marina Silva por causa da BR-319. A vantagem potencial de Plínio está em poder receber o voto de um eleitor conservador que gosta de Flávio Bolsonaro, mas não necessariamente considera Alberto Neto a única alternativa possível para o Senado.

As pesquisas recentes ajudam a explicar por que essa hipótese não deve ser descartada. O levantamento Paraná Pesquisas divulgado em 5 de setembro colocou Eduardo Braga com 50%, Alberto Neto com 39,3%, Plínio Valério com 28,9% e Wilson Lima com 25,6% das intenções de voto.

Como cada eleitor pode votar em dois candidatos ao Senado, os números não representam uma corrida tradicional de primeiro colocado contra segundo colocado. Eles revelam, sobretudo, a existência de um grande espaço de combinação de votos.

Na pesquisa Quaest divulgada no fim de agosto, Eduardo Braga aparecia isolado na liderança, enquanto Alberto Neto, Plínio Valério e Wilson Lima estavam tecnicamente empatados na disputa pela segunda vaga.

Eleição aberta

Isso quer dizer que a eleição continua aberta em um aspecto decisivo. O eleitorado já demonstra preferência por determinados nomes, mas uma grande parcela ainda pode combinar seu primeiro e seu segundo voto de maneira diferente conforme a campanha avançar. É nesse terreno que Plínio pode crescer.

A eventual perda de força de Wilson Lima, por razões eleitorais ou jurídicas, abriria um espaço particularmente interessante. O ex-governador continua oficialmente entre os candidatos ao Senado pelo União Brasil, mas a questão judicial que envolve a “Ação Penal 993” do STJ permanece como um elemento político de grande peso.

Neste início de setembro, a Corte Especial está analisando recursos relacionados ao andamento do processo. A ministra Nancy Andrighi, ao que tudo indica, permanecerá responsável pela condução da ação, inclusive, tendo em vista, de acordo com o sistema de acompanhamento do STJ, a manifestação de nove votos contrários aos recursos impetrados por WL.

Politicamente, porém, o simples fato de o processo continuar no centro da atenção pública já produz efeitos sobre a candidatura do ex-governador.

Se Wilson Lima conseguir atravessar essa fase preservando sua candidatura e sua capacidade de mobilização, a disputa continuará fragmentada e a segunda vaga poderá permanecer dividida entre ele, Alberto Neto e Plínio Valério.

Se, ao contrário, Wilson perder espaço político de maneira mais acentuada, o problema deixará de ser apenas quem ocupa o terceiro ou quarto lugar nas pesquisas. A questão passará a ser quem terá capacidade de absorver o eleitorado que estava reservado a Wilson.

Eis o possível vácuo em que Plínio pode crescer de maneira mais consistente. Existe ainda um componente que não aparece integralmente nas pesquisas. É a política municipal e interiorana.

Rede de apoio

Deputados, vereadores e prefeitos formam uma rede de apoio que muitas vezes demora a aparecer nas pesquisas, mas que pode ser decisiva na reta final de uma eleição majoritária. Parte desse grupo político atualmente alinhado a Wilson Lima pode não migrar em bloco para Alberto Neto. Há lideranças do União Brasil que possuem relações políticas com Plínio Valério e que podem enxergar no senador uma alternativa mais conveniente, mais próxima ou mais segura para uma eventual composição eleitoral. Esse seria um fator de peso no interior.

Com o apoio já declarado do prefeito de Manaus, Renato Júnior (Avante), Plínio precisa transformar sua presença política em Manaus em capilaridade estadual. Se conseguir ampliar sua votação na capital e, simultaneamente, construir uma segunda onda no interior, poderá deixar de ser apenas o candidato que disputa a segunda vaga e passar a ser o candidato que recebe o segundo voto de parcelas diferentes do eleitorado.

Essa é uma característica fundamental de uma eleição para o Senado. O eleitor não precisa escolher apenas um candidato. Ele pode montar uma dupla. E a segunda escolha pode ser tão importante quanto a primeira. É nesse ponto que aparece aquilo que pode ser chamado de efeito Jefferson Péres.

Jefferson Péres não construiu sua trajetória política apenas pela capacidade de mobilização de massas. Antes de chegar ao Senado, havia exercido dois mandatos como vereador de Manaus e acumulado uma imagem pública associada à ética, à coerência e à independência. Em 2002, foi eleito senador pelo Amazonas com 543.158 votos, ficando atrás apenas de Arthur Virgílio Neto.

Sua votação ensinou uma lição que continua atual. Nem sempre o candidato que produz mais barulho é aquele que possui o voto mais sólido.

O eleitor em silêncio

Há um eleitor que não participa de carreata, não publica declaração política todos os dias, não aparece em vídeos de campanha e não transforma sua preferência eleitoral em identidade pública. É um eleitor silencioso. Ele acompanha, compara e decide. Muitas vezes, esse eleitor chega à urna sem ter participado da militância de nenhum candidato, mas com uma convicção bastante clara sobre quem merece seu voto.

Esse eleitor pode ser decisivo em uma eleição com duas vagas. Plínio Valério tem condições de tentar ocupar esse espaço. Não como o candidato mais popular de todos, nem como aquele que dominará as redes sociais, mas como uma opção de direita com identidade própria, conhecida pelo eleitor amazonense e capaz de receber um segundo voto de quem já escolheu outro nome para a primeira vaga.

É aqui que a visita de Flávio Bolsonaro a Manaus pode produzir um efeito aparentemente contraditório.

Quanto mais o presidenciável do PL conseguir mobilizar o eleitorado de direita, maior será o tamanho do eleitorado conservador disponível para Alberto Neto. Mas também poderá aumentar o universo de eleitores que precisam escolher uma segunda opção para o Senado. Se Plínio conseguir se apresentar como essa segunda opção, poderá crescer junto com a própria onda conservadora, em vez de ser atropelado por ela.

Alberto Neto, evidentemente, continuará sendo um dos grandes favoritos para ocupar essa faixa. Sua identificação com o PL e sua proximidade com o bolsonarismo nacional lhe conferem uma vantagem que não pode ser ignorada. A presença de Flávio em Manaus pode inclusive ampliar essa vantagem.

Mas a pergunta central não é quem será beneficiado pela onda bolsonarista. É quem conseguirá converter essa onda em dois votos.

Eduardo Braga parece ter uma posição относительно consolidada e continua sendo o nome mais forte da disputa segundo os levantamentos recentes. Alberto Neto possui uma conexão nacional que tende a ganhar força com a presença de Flávio. Wilson Lima ainda dispõe de estrutura política e de vínculos construídos durante os anos em que governou o Estado. E Plínio Valério tem diante de si a possibilidade de ocupar o espaço intermediário entre a militância ideológica e o voto silencioso.

Se Wilson perder força, se Alberto concentrar o voto mais militante da direita e se Braga preservar sua liderança, poderá surgir uma situação bastante favorável a Plínio. O senador poderá se transformar no nome escolhido por eleitores que desejam dois candidatos de direita, mas que não desejam entregar os dois votos ao PL.

Repetir Jefferson

Nesse cenário, Plínio poderia repetir, em versão contemporânea, o efeito Jefferson Péres.

Não porque seja possível reproduzir a história, nem porque as duas trajetórias sejam iguais. São personagens de épocas, partidos e circunstâncias completamente diferentes. A semelhança estaria na lógica eleitoral. Um candidato conhecido, com identidade política consolidada, relativamente resistente fora de seu núcleo mais fiel e capaz de ser escolhido como segunda opção pode crescer muito mais do que sua presença ostensiva nas ruas faz parecer.

As redes sociais, nesse sentido, podem enganar. Curtidas não são votos. Visualizações não são votos. Grupos de WhatsApp não são urnas. Militâncias muito organizadas podem criar a sensação de que uma candidatura domina o eleitorado quando, na realidade, dominam apenas o ambiente político mais barulhento.

A eleição do Senado é muito propícia a esse tipo de surpresa porque o eleitor pode escolher dois nomes. Um candidato pode ser o primeiro voto de uma parcela expressiva e, ao mesmo tempo, ser o segundo voto de outra parcela ainda maior.

É nesse segundo grupo que Plínio Valério deve apostar suas fichas. Se conseguir crescer em Manaus, avançar no interior, atrair lideranças que eventualmente se afastem de Wilson Lima e apresentar-se como uma alternativa confiável para o eleitor conservador que não votará duas vezes no PL, o senador poderá transformar uma candidatura hoje competitiva em uma candidatura realmente ameaçadora para Alberto Neto e Wilson Lima.

A próxima etapa da campanha será, portanto, menos sobre quem consegue fazer mais barulho e mais sobre quem consegue construir a combinação certa de votos.

Flávio Bolsonaro pode mudar o tamanho e a intensidade do eleitorado de direita no Amazonas. O desdobramento do caso Wilson Lima pode alterar a distribuição das forças políticas que hoje sustentam a disputa. Mas o resultado final dependerá de quem conseguir transformar esses movimentos em votos efetivos.

Nesse tabuleiro, Plínio Valério talvez tenha descoberto a posição mais interessante de todas. A posição do candidato que não precisa ser o primeiro voto de todo mundo. Precisa apenas ser o segundo voto de gente suficiente.

Se isso acontecer, o Amazonas poderá assistir a uma repetição, em novas circunstâncias, de uma velha lição de Jefferson Péres. A de que determinadas candidaturas não crescem rigorosamente onde existe mais barulho. Crescem onde existe confiança.

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