
Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)
O Brasil inteiro precisa olhar, sem filtro, para essa nefasta e humilhante realidade desumana que o documentário do deputado Nikolas Ferreira ousou filmar dentro da Caatinga.
Não é sobre seca. Seca é clima. O que se vê ali é outra coisa: é a seca de cidadania.
Isso que sobrevive nos grotões está longe, muito longe, do que a Constituição de 1988 chamou de cidadania plena. Cidadania plena não é receber água quando o vereador libera o pipa. Não é morar em casa de taipa batida, sem banheiro, sem piso, enquanto a prefeitura da sede inaugura pórtico com verba federal. Não é depender de cesta básica para votar e de favor para ser atendido no posto.
O que existe ali é uma cidadania capenga, tutelada, esmolada. Uma servidão sem senzala, com carimbo.
E o mais grave: os atores políticos são os mesmos, e o método se aperfeiçoou. Mudam as siglas no palanque, mas não mudam os sobrenomes no poder. O avô era coronel, o filho foi prefeito, o neto é deputado, o bisneto já é secretário. Herdaram não a terra, herdaram o povo. É uma dinastia que se perpetua porque aprendeu a fórmula mais perversa do poder sertanejo: quanto mais difícil o acesso, mais fácil o controle.
Se a estrada vicinal não chega, se a água encanada não chega, se a internet não chega, se o título da terra não chega, chega apenas uma coisa na eleição: o carro do político como salvador. É a miséria administrada como método.
Por que a prosperidade não chega na Caatinga profunda? Porque prosperidade emancipa. E emancipação quebra curral. Gente com cisterna própria, com poço dessalinizado, com energia solar no telhado, com escritura da terra e com celular vendendo seu bode, seu mel, sua arte no WhatsApp não precisa pedir favor. E quem não precisa pedir favor não vota por gratidão, vota por convicção. Isso, para o coronel moderno, é perigo.
É aqui que reside a grande traição das últimas décadas. Ninguém pode negar que o maior inimigo do Nordeste, hoje, é o projeto político do PT. Foi ele que, estando mais tempo no poder federal, dispondo de bilhões destinados ao Nordeste e tendo nas mãos o controle de todas as políticas sociais, escolheu deliberadamente o caminho da tutela em vez da emancipação.
O recurso chegou, e em volume histórico. Mas foi capturado na sede. Fez-se a praça bonita, o asfalto na avenida, a festa de São João milionária, o programa com nome bonito na televisão. Mas o interior da Caatinga, a dez, vinte quilômetros da sede, continuou intocado. Intocado porque o intocado garante a dependência. O PT não combateu o coronelismo, ele se associou a ele, o modernizou e o transformou em um projeto nacional de poder baseado no assistencialismo permanente.
O PT aprendeu que é mais barato distribuir a esmola que garante o voto do que construir a cisterna que garante a liberdade. É mais fácil manter o sertanejo como beneficiário do que promovê-lo a produtor, a empreendedor, a cidadão conectado.
O nordestino que forma a maior migração interna deste país, que vai para São Paulo, para o Sul, para Guaíba, não foge do Nordeste. Ninguém foge da sua cultura. Ele foge desse cativeiro político. Foge da humilhação de ter que baixar a cabeça para ter direito ao que já é seu por direito: água, estrada, dignidade. Foge do curral que o PT jurou que iria desfazer, mas que, na prática, cercou com mais força.
O Estado deve ir até o cidadão, e não o contrário. Na Caatinga, inverteu-se o Evangelho da gestão pública. O cidadão tem que peregrinar até o Estado. E, quando chega, encontra a porta fechada ou aberta apenas por um cabo eleitoral.
O documentário acerta ao expor: a miséria ali não é acidente climático, é projeto de poder. A seca é de Deus. A falta de cisterna, de poço, de estrada, de escola família agrícola, de Instituto Federal no interior é escolha humana, escolha política, escolha do PT.
Enquanto o Brasil tratar o sertanejo como eleitor a ser assistido e não como cidadão a ser conectado e produtivo, continuaremos sendo o país mais rico de cultura popular e mais pobre de cidadania efetiva.
E isso clama aos céus. “O clamor dos pobres chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos” (Tg 5,4).
Para fechar, impaciente, como deve ser, recorro a Euclides da Cunha, que já em 1902, em Os Sertões, nos advertiu e ainda não fomos capazes de ouvir:
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. É preciso que a República seja, antes de tudo, justa, ou não será nada.”
Enquanto não formos justos com a Caatinga e não libertarmos o Nordeste desse cativeiro ideológico que usa a pobreza como capital eleitoral, não seremos um Brasil de verdade.
Ad Majorem Dei Gloriam – Pelo Sertanejo e pela Cidadania Plena.
(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.








