
Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)
No Beiradão amazonense, a perda do poder não tem velório, tem zoeira. E a sentença é uma só, peguem o batelão rumo ao balatal.
O batelão não é lancha rápida, nem iate com ar-condicionado. É carga pesada. Lento, fede a diesel, leva porco, farinha e gente amontoada em rede. É o Uber da derrota. Mandar alguém para o batelão é cassar-lhe a fidalguia.
O balatal é ainda pior que seringal. É o centro do centro, onde se extrai a balata, onde o pium cega e a malária abraça. É o fim do mundo. Como diz o prático de Parintins, “Balatal não é lugar aonde se vai; é lugar para onde se é mandado”.
É aí que se entende a queda do doutor. No cargo, ele e seus agregados têm trânsito livre em Manaus, vestem camisa de grife e têm microfone cativo na rádio. Fora do cargo, o doutor de capivara volta a ser o que sempre foi.
Com ele, vai o agregado de pirarucu de cativeiro, que engorda à sombra do patrão e some na primeira vazante. Vai o puxa-saco de remo curto, que rema pouco, mas faz muito barulho com seu “meu chefe” para cá e “meu líder” para lá, e que, no dia seguinte, já está na outra margem. E vai também a viúva de palanque, que chora a derrota no Facebook, mas, por baixo da mesa, já negocia o passe.
Todos eles acham que o povo é leso. E o povo, sentado à beira do rio, só ri e devolve, “Abestado, tá pensando que o caboco é leso? Olha lá, vai de batelão!”.
É a lei mais antiga, ai dos vencidos, vae victis. Aqui não há dó. Perdeu, foi para a zoeira. O vencedor ainda nem retirou o lacre da diplomação, e o vencido já comprou passagem no batelão do esquecimento.
E, logo em seguida, vem a outra lei, que fecha o caixão, rei morto, rei posto. O rio nunca fica vazio. O curral que ontem era de um coronel, amanhã já tem outro dono com o mesmo chapéu.
Por isso a zoeira é pedagogia. Ela ensina que o poder, no Amazonas, é como a cheia do rio, sobe bonito, leva tudo e, depois, baixa, deixando apenas o balseiro boiando.
E quem pensa que tem cadeira cativa que se cuide, porque Maria do Carmo vem aí, fazendo o banzeiro virar pororoca. E quando o banzeiro vira pororoca, não há batelão que segure, nem coronel que fique em pé.
No fim, o rio leva tudo. E o caboclo fica, rindo.
(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.






