Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho A força para recomeçar

A força para recomeçar

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)

Há horas em que a vida não pede um conserto. Pede um recomeço. E a força para recomeçar não aparece de repente, como um estalo da vontade. Ela nasce devagar, quando três caminhos se encontram: a psicoteologia, a psicanálise e a psicoterapia. São três linguagens diferentes que, juntas, ajudam a pessoa a se tornar inteira de novo.

Quando tudo desaba, quando há perda ou quando é preciso mudar de rota, cada uma traz uma ajuda. A psicanálise desce ao porão da alma, ao inconsciente, e dá nome ao que nos prende por dentro: lutos que não foram vividos, histórias que se repetem sem percebermos. A psicoterapia traz isso para o dia a dia, organizando o que sentimos, como agimos e como nos relacionamos, um gesto de cada vez, com uma escuta séria, sem julgamento, feita com ética e cuidado. E a psicoteologia levanta de novo o nosso olhar e nos lembra que não somos só cérebro e reações. Somos sopro, somos desejo de sentido. Quando esses três olhares se entrelaçam, a virada pode acontecer.

Mas o alicerce que não se move nessa reconstrução não é técnico. É teológico. Cristo está em Deus Pai, e nós estamos em Cristo, sustentados pelo Espírito Santo, que vem do Pai e do Filho. Isso não é um detalhe de doutrina. É o chão firme onde pisamos. Se estamos ligados a Cristo, e Cristo está no Pai, nosso recomeço não fica solto ao sabor do vento deste mundo. Fica guardado na estabilidade do próprio Deus. E nessa corrente de amor, o Espírito Santo é o Consolador que fica ao nosso lado na dor e nos dá força para continuar, para que a queda não seja o fim.

Nesse caminho, precisamos de discernimento. Discernir é aprender a separar ruído e voz. O ruído é psicológico: culpas que colocaram dentro de nós, medos antigos, histórias que ouvimos a vida toda e que parecem verdades absolutas. A voz é diferente. É a voz espiritual e existencial, a certeza quieta de que somos filhos de Deus, mesmo quando tudo parece ruir. Sem discernimento, confundimos o que sentimos com quem somos. Com discernimento, aprendemos a olhar para o que sentimos sem sermos dominados por tudo o que sentimos.

Por isso, três atitudes são essenciais, como três paradas de um mesmo caminho. Primeiro, coragem de olhar para dentro, buscando um acompanhamento clínico sério, contínuo e ético, sem atalhos mágicos. Segundo, humildade de olhar para cima, com oração silenciosa e leitura da Palavra que organiza o desejo e acalma a pressa. Terceiro, disciplina de olhar para frente, com passos pequenos e possíveis, com gente por perto que nos apoie e uma rotina que sustente a nova decisão. Recomeçar, afinal, não é apagar o que vivemos. É reescrever a história a partir de um centro mais firme.

Assim, a mente cuidada traz clareza, a fé traz direção e o Espírito, que vem do Pai e do Filho, traz firmeza para permanecer. Quando clareza, direção e permanência se juntam, o recomeço deixa de ser desespero e vira resposta madura.

E se este texto encontra você em solidão, em depressão ou com medo do amanhã, receba estas palavras como cuidado, não como cobrança. Para a psicoteologia, essas três dores tocam lugares diferentes do nosso ser. A solidão machuca o vínculo. A depressão machuca a energia e o senso de valor. O medo do futuro machuca a confiança, porque a mente passa a imaginar sempre o pior. Isso não é falta de fé, nem fraqueza. São dores humanas profundas que precisam de escuta profissional, de amparo espiritual e de uma comunidade segura.

Por isso, saiba: você não está só em sua solidão. O salmista já orou assim: “Volta-te para mim e tem misericórdia de mim, porque estou só e aflito” (Sl 25,16). Deus não julga a sua dor. Ele a acolhe. Ser visto por Deus vem antes de ser visto pelas pessoas. Você pertence, porque Cristo colocou você nele.

A depressão também não tira a sua dignidade. Elias, depois de uma grande vitória, pediu para morrer (1Rs 19,4). E Deus não respondeu com um sermão, mas com pão, água, descanso e uma presença mansa. A mente precisa de tratamento. O corpo precisa de cuidado. A alma precisa de sentido. Procure ajuda profissional sem culpa. Fé e terapia não brigam entre si. Elas caminham juntas. Está escrito: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado” (Sl 34,18).

E o medo do futuro perde força quando o futuro deixa de ser uma ameaça e volta a ser cuidado de Deus. Jesus disse: “Basta a cada dia o seu mal” (Mt 6,34). A psicoterapia ajuda a trazer a mente para o hoje, que é possível de cuidar. A psicoteologia lembra que o amanhã já está habitado por Deus. Se Cristo está no Pai e você está em Cristo, seu amanhã não está vazio. Está guardado.

Para hoje, tente três gestos simples: diga para si mesmo o que está sentindo, com palavras simples, sem se condenar — por exemplo: “estou triste”, “estou com medo”, “estou cansado”; converse com alguém de confiança; e ore por cinco minutos em silêncio, apenas respirando e repetindo baixinho: “Tu estás comigo”. Se a dor for muito forte, se durar muito tempo ou se vier com vontade de desistir da vida, procure agora mesmo ajuda profissional presencial, um serviço de saúde mental e alguém de sua confiança. Você não precisa atravessar isso sozinho.

Lembre-se, por fim: recomeçar não é voltar ao zero. É recomeçar a partir de Cristo, onde você já está.

(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.