Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho De vermelho a canarinho: a mentira pode vestir amarelo, mas continua sendo...

De vermelho a canarinho: a mentira pode vestir amarelo, mas continua sendo mentira

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)

A dinâmica das cores, dos símbolos e das linguagens na política constitui tema central da ciência política, da sociologia e do marketing eleitoral. O fenômeno de partidos ou candidatos que adotam identidades visuais e discursos associados a outros espectros — o chamado mimetismo político ou camuflagem — é recorrentemente debatido pela crítica especializada e pela opinião pública, suscitando questões sobre autenticidade e pragmatismo estratégico.

É por isso que se impõe uma análise ampla, contextualizada e sem maquiagem sobre o papel dos símbolos, dos jargões partidários e do impacto das estratégias de imagem na percepção do eleitorado.

Historicamente, as cores funcionam como atalhos cognitivos. Permitem ao eleitor identificar ideologias sem a necessidade de ler extensos manifestos — afinal, quem dispõe de tempo para examinar planos de governo? Nesse semáforo ideológico, o vermelho permaneceu associado à esquerda, ao socialismo, ao trabalhismo, à mobilização popular e aos sindicatos. É aquela cor que, para alguns marqueteiros em pânico quando a pesquisa aperta, precisa ser escondida no fundo do armário.

Em contrapartida, o amarelo e o verde tornaram-se o novo preto da política. Patenteados pelo patriotismo, foram convertidos em uniforme oficial de quem descobriu que vestir a bandeira nacional rende votos. É o amarelo-canarinho do discurso de “sou do povo”, ainda que o ninho seja bem dourado. Como lembra Murray Edelman, em A Construção do Espetáculo Político, os símbolos condensam emoções e lealdades. Em tradução livre e levemente irreverente: a cor funciona porque pensar cansa.

Dessa lógica cromática passamos, quase naturalmente, à arte do camaleão ansioso. A mudança de cores ou a moderação do discurso costuma decorrer do Teorema do Eleitor Mediano, de Duncan Black e Anthony Downs. Em bom português, para vencer eleições majoritárias, quem está nos extremos precisa simular pertencimento ao centro, a ponto de a própria base não reconhecer o candidato.

Assim, quando um partido historicamente vermelho se pinta de amarelo, não se trata de milagre, mas de planilha e de grupo focal. Detratores classificam o movimento como oportunismo, os marqueteiros o denominam, com elegância, reposicionamento estratégico, e o eleitor, em sua sabedoria direta, o define com outros termos que o decoro desaconselha publicar. Norberto Bobbio, em Esquerda e Direita, já alertava: apagar as diferenças não elimina as matrizes ideológicas, apenas deixa o eleitor com miopia. Os hipócritas vivem na inautenticidade, porque precisam negar, todos os dias, aquilo que realmente são.

Se a cor pode ser trocada com facilidade, a linguagem é a dimensão que o figurino não consegue ocultar. Cada espectro possui dialeto próprio, sotaque inconfundível. Como diz o ditado, o rato se esconde, mas deixa o rabo de fora.

De um lado, a linguagem de esquerda prioriza justiça social, igualdade, diversidade, coletividade e inclusão — tudo no plural, vistoso em apresentação de PowerPoint. De outro, a linguagem de direita centraliza liberdade individual, meritocracia, pátria, família, ordem e livre mercado — tudo no singular, com posicionamentos claros e historicamente coerentes, como a oposição ao aborto, à ideologia de gênero e às facções criminosas.

Por isso, ainda que a identidade visual se altere, o uso involuntário desses jargões permite que o eleitor identifique a real matriz ideológica. É o que George Lakoff denomina frames morais: a linguagem revela o enquadramento de mundo do emissor. Pode-se trocar a camisa, mas, na primeira frase sem teleprompter, o candidato retorna ao seu berço ideológico. A boca fala daquilo que o manual de marketing tentou calar.

Consequentemente, a percepção de falta de autenticidade pode ser altamente prejudicial. Quando percebe discrepância excessiva entre o histórico e a imagem atual, o efeito é inverso ao pretendido.

Primeiro, há a perda de credibilidade. Quem tenta enganar ambos os lados acaba não sendo confiável para nenhum.

Depois, há a desmobilização da base. Os militantes históricos, que carregaram bandeira na chuva, sentem-se trocados por um eleitor de última hora que sequer conhece a sigla.

Por fim, instaura-se o ceticismo generalizado. Mudanças bruscas soam como maquiagem em velório: todos percebem, poucos comentam por educação, mas ninguém acredita. Como observa Dominique Maingueneau, todo discurso político é inseparável de seu ethos. Sem coerência entre trajetória, símbolo e verbo, a comunicação se esvazia e se converte em um carnaval fora de época, com muita cor e pouca verdade.

Em síntese, cores podem ser trocadas e palanques repintados. Contudo, a memória política e afetiva do eleitorado costuma ser mais duradoura que a tinta de campanha.

(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.

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