
A mobilidade urbana em Manaus enfrenta desafios históricos que vão muito além do trânsito lento ou da frota de veículos. Para idosos e pessoas com deficiência (PcDs), o verdadeiro obstáculo reside na falta de preparo e empatia durante o embarque. Uma iniciativa recente busca transformar essa realidade por meio da vivência prática dos próprios rodoviários.
Nesta terça-feira, 19 de maio, o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) reuniu mais de 40 motoristas e cobradores da empresa Integração Transportes. A ação integra o programa “Escola de Transporte Inclusivo”, um esforço para humanizar o atendimento diário nas linhas da capital amazonense.
A proposta central do treinamento é tirar os profissionais da zona de conforto da teoria e inseri-los nas barreiras diárias enfrentadas pelos passageiros vulneráveis. Durante as atividades, os trabalhadores simularam limitações físicas reais ao utilizarem vendas nos olhos, bengalas e cadeiras de rodas em trajetos urbanos.
Choque de realidade
A eficácia de programas de capacitação depende diretamente da capacidade de gerar um choque de realidade nos participantes. Sentir na pele a instabilidade de uma plataforma elevatória ou a escuridão completa ao tentar achar um assento muda a perspectiva de quem opera o sistema de transporte.
“Sentir na pele esses desafios faz a gente perceber como pequenos atos de atenção podem transformar a viagem de alguém”, afirma o motorista Antônio Alves, que passou pela simulação e relatou o impacto da experiência na sua rotina de trabalho.
A iniciativa ganha relevância em um cenário onde a frota de ônibus e a infraestrutura das paradas de Manaus frequentemente recebem críticas por falta de acessibilidade adequada. Treinar o fator humano ajuda a mitigar falhas estruturais crônicas que o município ainda precisa resolver.

Prática do treinamento
O treinamento focou em atitudes que devem ser adotadas imediatamente no cotidiano das linhas de ônibus.
As diretrizes repassadas aos funcionários incluíram os seguintes tópicos:
- Comunicação correta, segura e respeitosa com idosos e PcDs.
- Auxílio técnico no manuseio de equipamentos de acessibilidade dos veículos.
- Simulação de limitações visuais e motoras para compreensão das dificuldades do usuário.
- Gerenciamento de tempo de embarque e desembarque com foco na segurança antes da partida.
“Nosso compromisso é ensinar com cuidado e atenção, mostrando que cada gesto faz diferença na vida de quem depende do transporte público. Nós queremos que cada profissional entenda que respeito e empatia não são apenas conceitos, mas atitudes práticas que devem ser aplicadas dentro do ônibus”, afirma o chefe da Divisão de Atendimento Social do IMMU, Gilson Araújo.
Futuro do sistema
A inclusão social no transporte coletivo não se consolida apenas com um dia de dinâmicas. O avanço real depende da expansão desse projeto para todas as demais empresas que operam no sistema manauara e de uma fiscalização rígida para garantir que o aprendizado seja mantido na pressão do trânsito diário.
Representantes de movimentos sociais locais enxergam a medida como um passo necessário para a construção de um ambiente urbano menos hostil.
“Ver os profissionais vivenciando nossas dificuldades mostra que a prefeitura está realmente comprometida com um transporte inclusivo e humanizado. Isso muda a percepção e cria mais empatia no dia a dia”, afirma a presidente do Instituto Borboletas Azuis e membro do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, Fabiana Nascimento.
O programa sinaliza um caminho correto ao humanizar o atendimento. Contudo, o sucesso definitivo dessa política pública será medido nas paradas de ônibus, quando o próximo passageiro com mobilidade reduzida sinalizar para o coletivo e receber o respeito que tem direito.
ASCOM: Naira Nascimento/IMMU










