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Entre promessas e crateras, a realidade da AM-010 volta a indignar motoristas no Amazonas

Foto: Reprodução/vídeo padre James Batista

A rodovia AM-010 voltou ao centro do debate público após a divulgação de um vídeo gravado pelo padre James Batista, da Arquidiocese de Manaus. Nas imagens registradas, motoristas aparecem reduzindo drasticamente a velocidade para desviar de buracos e crateras no trecho que liga Manaus a Rio Preto da Eva.

A gravação rapidamente repercutiu nas redes sociais e reacendeu uma insatisfação antiga. Mais do que uma denúncia isolada, o vídeo retrata a percepção de milhares de amazonenses que dependem diariamente da principal ligação terrestre entre Manaus, Rio Preto da Eva (Km 79) e Itacoatiara (Km 263).

A situação também recoloca em discussão a execução de uma das maiores obras rodoviárias já anunciadas pelo Governo do Amazonas.

Estrada essencial

Com aproximadamente 263 quilômetros de extensão, a AM-010 exerce papel estratégico para a economia amazonense. A rodovia conecta municípios importantes, fortalece o comércio regional, facilita o escoamento da produção agrícola e garante a circulação de pessoas entre cidades fundamentais para o desenvolvimento do estado.

Em 2021, o governo estadual iniciou um amplo projeto de reconstrução da via. O investimento inicial anunciado foi de cerca de R$ 366 milhões para recuperar mais de 250 quilômetros da estrada.

A previsão oficial apontava para a conclusão dos serviços ainda no primeiro semestre de 2023. Três anos depois, a obra segue sem conclusão integral.

Conta elevada

Além dos atrasos, os números relacionados ao empreendimento passaram a chamar atenção da população e de especialistas.

Dados divulgados durante a execução indicam que os investimentos ultrapassaram R$ 540 milhões, representando um aumento próximo de 48% em relação ao valor inicialmente previsto, sem considerar futuros reajustes e repactuações contratuais.

Em projetos de grande porte, revisões orçamentárias podem ocorrer. No entanto, quando o aumento de custos acontece simultaneamente à permanência de problemas estruturais, cresce a cobrança por explicações mais detalhadas.

Foi justamente esse sentimento que levou o padre James Batista a manifestar publicamente sua indignação.

Ao comentar a situação da rodovia, o religioso afirmou que a população continua convivendo com problemas antigos apesar das sucessivas promessas de recuperação feitas ao longo dos últimos anos, e criticou o palanque eleitoral em que se transformou a reconstrução da AM-010:

“A estrada é só buraco. Está chegando a campanha eleitoral e os mesmos mentirosos continuarão mentindo, dizendo que vão fazer melhorias”

Obra desigual

Um dos aspectos mais observados pelos usuários da AM- 010 é a diferença entre os trechos já entregues e aqueles que ainda enfrentam dificuldades.

Em novembro de 2025, o governo concluiu a recuperação de aproximadamente 142 quilômetros entre Rio Preto da Eva e Itacoatiara. Nesse segmento foram realizados serviços de drenagem, ampliação da pista e aplicação de novas camadas de revestimento asfáltico. Ainda faltam, contudo, em algumas dessas frentes de obras, a aplicação final de CBUQ e a conclusão das sinalizações horizontal e vertical.

O resultado trouxe melhorias significativas para quem trafega pela parte final da rodovia.

Por outro lado, os maiores problemas continuam concentrados justamente no trecho entre Manaus e Rio Preto da Eva, considerado um dos mais movimentados de toda a estrada.

A diferença entre as condições dos dois segmentos reforça a percepção de que a parte mais próxima da capital permanece como o principal desafio da obra.

Alertas técnicos

Durante a vistoria na AM-010 em 2025, o engenheiro Afonso Lins da ABENC-AM aponta para as severas patologias e buracos no pavimento, evidenciando a urgência de reparos na rodovia – Foto: Divulgação

As reclamações dos motoristas ganharam respaldo técnico após vistorias realizadas por profissionais da área de infraestrutura.

Em outubro de 2025, a Associação Brasileira de Engenheiros Civis do Amazonas (ABENC-AM) identificou uma série de problemas em diferentes frentes de trabalho.

Entre os apontamentos estavam a presença de buracos em trechos já recuperados, ausência da camada final de revestimento asfáltico, falta de sinalização horizontal e vertical e deficiência em sistemas de drenagem.

Os registros ampliaram as preocupações sobre a qualidade dos serviços executados e sobre a segurança dos usuários da rodovia.

Perguntas abertas

Entre os especialistas que acompanham a situação da AM-010 está o advogado e engenheiro civil, professor Marcos Maurício.

Segundo ele, o debate sobre a rodovia precisa avançar para além dos anúncios políticos e apresentar informações técnicas capazes de esclarecer o estágio real da obra.

O professor tem defendido que o governo estadual apresente respostas objetivas para questionamentos considerados fundamentais pela população.

Entre as perguntas levantadas pelo especialista estão:

  • De que forma o governo estadual planeja finalizar a reconstrução do segmento rodoviário entre Manaus e Rio Preto da Eva até setembro deste ano?
  • Qual é a previsão real de entrega para as sinalizações horizontais e verticais de todos os subtrechos e frentes de obras?
  • Existe um plano para a concessão da rodovia AM-010 e se os estudos para a definição da quantidade de praças de pedágio, valores de tarifas e uso do sistema de livre fluxo já foram finalizados?

Para Marcos Maurício, a transparência dessas informações é indispensável para que a sociedade acompanhe a aplicação dos recursos públicos e possa avaliar os resultados efetivamente alcançados.Além disso, outro ponto sensível é a provável transferência da AM-010 para a iniciativa privada.

O Governo do Estado precisa esclarecer se pretende entregar a gestão da AM-010 para o setor privado, por meio de concessões públicas, e iniciar a cobrança de pedágios após a conclusão das obras, situação esta que também preocupa os usuários da rodovia, sobretudo produtores rurais.

Confiança abalada

Recentemente, o governador Roberto Cidade divulgou um vídeo afirmando que a reconstrução da AM-010 deverá ser concluída até o final de setembro.

A declaração foi recebida com expectativa pelos usuários da rodovia. Entretanto, a ausência de um cronograma técnico detalhado continua alimentando dúvidas entre especialistas, empresários, produtores rurais e moradores dos municípios atendidos pela estrada.

Nas redes sociais, são frequentes os relatos de acidentes, danos mecânicos e dificuldades enfrentadas diariamente por motoristas e motociclistas.

A sensação predominante entre muitos usuários é de que a conclusão da obra ainda depende de respostas concretas e de resultados visíveis no asfalto.

Desafio amazonense

A situação da AM-010 vai além da discussão sobre uma única obra pública. Ela simboliza um desafio histórico da infraestrutura amazonense.

Investimentos elevados só alcançam seu objetivo quando são acompanhados por planejamento eficiente, fiscalização rigorosa, transparência e qualidade na execução dos serviços.

Nenhuma rodovia é avaliada apenas pelo valor investido em sua construção. O verdadeiro resultado aparece quando a população consegue trafegar com segurança, rapidez e confiança.

Enquanto a conclusão definitiva da AM-010 não acontece, a estrada permanece como símbolo de uma cobrança legítima dos amazonenses por obras que saiam das promessas e se transformem em benefícios concretos para quem vive, trabalha e produz no interior do estado.

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