
A saúde dos rins continua fora da rotina preventiva da maior parte da população. O tema é frequentemente negligenciado devido ao medo, à falta de informação e a sérios obstáculos estruturais.
É o que revela um estudo nacional encomendado pela Vantive Brasil e realizado de forma online pela Brazil Panels em março de 2026. Ouvindo 2.000 entrevistados de várias faixas etárias e classes sociais, a pesquisa apresenta uma margem de erro de 2,2 pontos percentuais e um nível de confiança de 95%.
O diagnóstico do levantamento é preocupante. O maior desafio do país reside na enorme dificuldade de transformar a informação disponível em hábitos práticos de cuidado.
O perigo
O panorama nacional revela um cenário de risco consolidado por comportamentos e diagnósticos que afetam diretamente o funcionamento do corpo. A pesquisa detalha os principais hábitos identificados entre os participantes:
- Exames de rotina: 67,7% dos brasileiros admitem que adiam a realização de procedimentos preventivos.
- Sedentarismo: 39,1% da população nacional se declara inativa fisicamente.
- Desidratação: 57,3% reconhecem que não bebem a quantidade de água necessária para manter o corpo saudável.
- Hipertensão arterial: 26,5% dos entrevistados relatam sofrer com a pressão alta.
- Infecção urinária: 25,3% das pessoas na base consultada já enfrentaram essa complicação.
- Doença renal: 7,7% convivem com problemas crônicos ou outras patologias nos rins.
O fator genético e o histórico familiar também acendem um forte sinal de alerta. A pesquisa aponta que 54,9% dos entrevistados possuem parentes com hipertensão, enquanto 15,7% registram casos de problemas renais na família.
“Os dados revelam que o brasileiro não está completamente desconectado do tema saúde, mas muitas vezes posterga o cuidado”, explica a Dra. Arcângela Valle, gerente médica sênior da Vantive Latam.
“Na saúde renal, isso é especialmente preocupante porque as doenças dos rins podem evoluir de forma silenciosa. O desafio é transformar medo em ação, informação em decisão e prevenção em hábito”, complementa a médica.
A ilusão
Na Região Norte do país, o comportamento em relação à hidratação revela uma armadilha cultural provocada pelo clima quente. O estudo mostra que 46,1% dos nortistas bebem água com alta frequência, consumindo de 5 a 8 copos diários, o que equivale a um volume entre 1 e 1,6 litro.
O índice fica bem acima da média nacional de consumo frequente, que é de 35,6%. No entanto, por tomarem pequenas quantidades de forma automática para saciar a sede imediata, o volume total ingerido continua inadequado nas cidades.
Apenas 35,6% dos moradores do Norte alcançam os 2 litros recomendados por dia. Isso deixa uma maioria de 62,8% abaixo do ideal, uma taxa 5 pontos percentuais maior do que a média brasileira de 57,3%.
Essa falta de cuidado adequado potencializa os riscos associados ao sedentarismo e a distúrbios metabólicos. O levantamento cruzou os dados e comprovou que a incidência de doenças nos rins é de 8,8% entre os sedentários, caindo para 5,4% entre as pessoas físicas ativas, uma diferença de 3,4 pontos percentuais.
No grupo que não pratica exercícios, os índices de outras doenças crônicas também são elevados. A pesquisa registrou 30% de hipertensão contra 19,7% dos ativos, 17,1% de diabetes contra 13,3%, e 11,3% de problemas de circulação contra 7,5%.
Mesmo cercados por esses fatores, a percepção de risco dos brasileiros é baixa. Cerca de 37,2% avaliam que possuem probabilidade baixa ou muito baixa de adoecer, somente 15,4% enxergam um risco alto ou muito alto, e 20,3% não sabem opinar.
O cenário contrasta com um estudo internacional publicado na revista científica The Lancet em novembro de 2025 por pesquisadores da Universidade de Nova York, da Universidade de Glasgow e da Universidade de Washington. O texto indica que cerca de 14% dos adultos no mundo têm algum grau de Doença Renal Crônica (DRC), com crescimento constante nas últimas décadas.
As barreiras
Mapear o que impede o brasileiro de realizar um check-up renal expõe uma combinação de barreiras financeiras, psicológicas e de infraestrutura. Quando questionados sobre os principais motivos para evitar os exames, os entrevistados apontaram justificativas claras:
- Custo: a falta de dinheiro atinge 31,9% da média nacional, tornando-se mais grave com o avanço da idade, já que o problema afeta 43% das pessoas entre 55 e 64 anos e chega a 56,3% entre os idosos com mais de 65 anos.
- Tempo: a rotina corrida e a falta de horários são citadas por 28,3% da população.
- Percepção: o hábito de não achar necessário por acreditar que está saudável afeta 14,4% dos respondentes.
O aspecto psicológico também atua como um forte bloqueador. O medo de descobrir uma doença grave lidera os receios com 60,6%, superando o medo de não ter dinheiro para pagar o tratamento (50,5%) e o temor de perder a independência física (30,9%).
Na Região Norte, a desigualdade social e estrutural agrava o isolamento sanitário. A dificuldade de acesso a clínicas e laboratórios atinge 20,8% dos nortistas, um abismo comparado à média nacional de 6,6%.
Em termos de cobertura, apenas 22,8% da população do Norte possui um plano de saúde privado, enquanto a média do país é de 30,3%. Isso eleva a dependência do Sistema Único de Saúde (SUS) na região para 39,4% contra 36,5% no cenário nacional.
Além disso, 37,8% dos moradores do Norte estão completamente desprotegidos e sem nenhum tipo de assistência médica. O índice supera a média brasileira de 33,2% e evidencia um grave risco regional.
O tratamento
A falta de conhecimento se estende também às formas de tratamento para os casos mais avançados. Embora 93,4% dos brasileiros conheçam a hemodiálise, a maioria de 59,5% nunca ouviu falar sobre a diálise peritoneal, e somente 9,8% afirmam dominar o assunto.
Diante da necessidade de passar por diálise, os principais temores da população envolvem o impacto na qualidade de vida (57,5%), a dificuldade de acesso ao tratamento adequado (38,8%), os custos financeiros (38,6%) e a dependência direta de máquinas e profissionais (37,2%).
De acordo com os dados do Censo Brasileiro de Diálise 2024, o Brasil conta com mais de 172 mil pacientes renais crônicos em tratamento dialítico, sendo que aproximadamente 79% dependem exclusivamente do SUS. A evolução da enfermidade é dividida em duas abordagens principais quando os rins perdem suas funções:
- Hemodiálise: o método mais comum no país é feito em clínicas, exigindo que o paciente fique conectado a uma máquina por quatro horas, três vezes por semana, apresentando riscos potenciais de infecção, impactos cardiovasculares e a síndrome pós-diálise, que gera fadiga e fraqueza.
- Peritoneal: a técnica utiliza o peritônio como filtro natural e é realizada na residência do paciente, geralmente durante o sono com uma máquina cicladora, eliminando deslocamentos e ajudando a manter as rotinas de trabalho e familiares de forma custo-efetiva.
“A diálise peritoneal pode oferecer mais flexibilidade e autonomia para alguns pacientes, permitindo que mantenham suas atividades de trabalho e vida social”, afirma o nefrologista Paulo Lins, gerente médico da Vantive Brasil.
“Garantir que pacientes e médicos possam avaliar todas as modalidades apropriadas, apoiados por educação e vias de acesso adequadas às necessidades locais, é parte importante das discussões sobre cuidados renais”, conclui o médico.
O debate reforça que a mudança desse panorama exige descentralizar o acesso médico e vencer o preconceito clínico para salvar vidas antes da falência total dos órgãos.
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ASCOM: Camile Freitas | Claudia Alves










