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Rio Branco revela potencial para se tornar novo polo de inovação sustentável na Amazônia

Foto: Divulgação/ ASCOM

Historicamente conhecida por ser o berço da resistência extrativista da borracha no século passado, a cidade de Rio Branco, no Acre, passa por um processo de transição para se consolidar como um polo de inovação sustentável na Amazônia. O mapeamento “Bioeconomia e Territórios da Amazônia” identificou a existência de 27 cadeias produtivas no local, contemplando setores como biojoias, borracha natural, resinas e sementes amazônicas.

A pesquisa, realizada pelo programa de fomento “EcoAm”, mostra que Rio Branco possui hoje 15% de seu território voltado para a agropecuária, englobando cadeias de frango, peixe e grãos. Enquanto isso, os outros 85% continuam sob a lógica da floresta em pé, mantendo a capacidade de transformar o conhecimento tradicional em oportunidades concretas e inovação.

Mosaico da floresta

Segundo o levantamento, o ponto central da bioeconomia na capital acreana reside na falta de conexão entre os empreendimentos. Nas reservas extrativistas, cooperativas encabeçadas por mulheres e jovens reanimam o trabalho coletivo. Na divisa entre a área urbana e a zona rural, famílias investem na horticultura, piscicultura e criação de animais. Já no coração da cidade, marcas de sabonetes, cosméticos naturais e alimentos produzidos com itens locais florescem.

Todas essas iniciativas contam com o apoio, ainda disperso, de redes formadas por acadêmicos e por instituições voltadas ao desenvolvimento empresarial, a exemplo do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), da Federação das Indústrias do Estado do Acre (FIEAC), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Acre (FAPAC) e da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

“A bioeconomia acreana é, portanto, um mosaico, feita de redes, não de hierarquias; de histórias entrelaçadas mais do que de setores isolados. E é nesse mosaico que o território se reconhece”, aponta a pesquisa.

Gargalos da produção

Apesar do imenso potencial e da energia social abundante, o mapeamento revela que o ecossistema de Rio Branco ainda funciona de forma fragmentada. O presidente do Instituto de Educação e Desenvolvimento da Amazônia (IEDA), Pedro Silva, evidenciou a necessidade de uma articulação mais profunda para fazer o crescimento sustentável chegar diretamente aos produtores.

“Não são as instituições que têm que mudar, são as pessoas que estão nas instituições que precisam mudar. A instituição não tem coração, tem CNPJ”, disse o presidente do IEDA, Pedro Silva.

A pesquisa detectou um conjunto de gargalos que travam o avanço da região:

  • Infraestrutura precária, que encarece o beneficiamento dos produtos e prejudica a logística de escoamento.
  • Burocracia excessiva para a formalização de novos negócios.
  • Falta de certificações e laudos técnicos, restringindo a venda de itens como óleos e castanhas aos mercados locais.
  • Fuga de jovens talentos pela falta de oportunidades, levando muitos a optarem pelo agronegócio exploratório.
  • Vulnerabilidade enfrentada pelas lideranças femininas à frente das cooperativas.

Outro ponto crítico está na desigualdade da distribuição dos valores gerados. A gerente técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), Márcia Cristina Freire, ressaltou a ausência de espaço para quem trabalha no campo.

“Muitas vezes, quem nunca é ouvido são os próprios produtores rurais, porque as necessidades também são muitas e, muitas vezes, eles ficam sem representatividade”, afirmou a gerente técnica do SENAR, Márcia Cristina Freire.

O problema mostrado pelo estudo revela que os trabalhadores que possuem assistência técnica ou apoio institucional conseguem avançar, enquanto os negócios que dependem exclusivamente do esforço coletivo e comunitário acabam ficando para trás.

O gerente do programa “EcoAm”, Washington Silva, enfatizou a importância de garantir investimentos e conectar as tecnologias locais com o mercado global.

“Rio Branco pode se tornar o próximo centro de inovação e tecnologias para gerar bionegócios. O que há de pesquisas e insumos no território é incrível e hoje já existe uma estrutura básica para o desenvolvimento desses negócios, como incubadora e assistência técnica. O que falta é continuidade. Estudar um insumo e aprová-lo para comercialização leva tempo e recursos. Queremos contribuir aí, contando as tecnologias desenvolvidas no Acre com investidores de todo o mundo”, explicou o gerente do programa “EcoAm”, Washington Silva.

Inovação em expansão

Mesmo diante de diversos desafios, Rio Branco vive uma expansão de novos empreendimentos voltados para o setor sustentável. Somente com o suporte do SEBRAE, 81 startups do segmento entraram em atividade, transformando o conhecimento tradicional em produtos como plásticos biodegradáveis, cosméticos naturais, biopesticidas e soluções digitais.

O levantamento destaca marcas urbanas como Pajecó, Made in Acre e Amadeu Sustentável, que despontam ao lado de organizações consolidadas como a Rede Cooperacre, entidade que reúne 60 cooperativas de agricultura familiar e sociobiodiversidade em todo o estado do Acre.

“No artesanato e no turismo de base comunitária, mulheres e povos indígenas seguem protagonizando a conexão entre cultura, economia e floresta. Mais do que produtos, são identidade. As indicações geográficas Castanha do Acre, Cacau do Baixo Acre, Óleos da Floresta do Purus, Borracha Chico Mendes, Artesanato da Resex, podem consolidar esse pertencimento e transformar a economia em marca de território”, avalia a pesquisa.

Alcance do programa

O relatório “Bioeconomia e Territórios da Amazônia” é uma iniciativa desenvolvida pelo programa “EcoAm”, em atividade desde 2024 e executado pelo Impact Hub Manaus em parceria com o BID Lab, que é o laboratório de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do programa “Amazônia Sempre”, do Instituto Meraki, do Fundo Vale e do Sebrae Amazonas.

A iniciativa escolheu os territórios de Ji-Paraná, em Rondônia, Rio Branco, no Acre, e Tefé, no Amazonas, com expansão para os municípios de Tabatinga, no Amazonas, e Marabá, no Pará, para a realização de seu projeto piloto.

A ação já apoiou 17 negócios da bioeconomia na Amazônia e destinou R$ 1 milhão em investimentos por meio de duas edições do programa de aceleração “Lab de Impacto”. O material completo do estudo está disponível para acesso gratuito na plataforma oficial do programa.

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