Juscelino Taketomi O rádio eternamente no ar

O rádio eternamente no ar

Por Juscelino Taketomi

Depois de tantos anos na estrada da comunicação, constato que o rádio é uma profissão que ficou dentro de mim para sempre, mesmo quando a vida me levou por outros caminhos.

Talvez porque o rádio tenha essa força misteriosa de entrar em nossa casa sem pedir licença. Mas não apenas em nossa casa. Ele atravessa paredes, percorre distâncias, acompanha o café da manhã, o trabalho, a viagem e até aqueles momentos silenciosos em que ficamos olhando a chuva pela janela.

Uma voz desconhecida pode, de repente, tornar-se uma velha companhia.

Hoje, 21 de setembro, quando a tradição do rádio brasileiro celebra o Dia do Radialista, volto no tempo. Volto àquele começo dos anos 70, quando entrei pela primeira vez na Rádio Difusora do Amazonas (RDA) e descobri que trabalhar com a palavra era também aprender a ouvir.

Eu era um menino, cheio da curiosidade de quem começava a descobrir o mundo. Naqueles estúdios, porém, o mundo já estava ali. Estava nas vozes, nas notícias, nas músicas, no telefone, no papel, no microfone e naquela permanente expectativa de que alguma coisa acontecesse do outro lado da cidade ou, quem sabe, do outro lado dos rios Negro, Amazonas ou Solimões.

Na RDA, convivi com profissionais que ajudaram a construir a história do rádio amazonense. Gente como J. Nunes, Paulo Guerra, José Almeida, o Pequeno Valente, Carlos Carvalho, Eduardo Silva, Edson Melo, Airton Brito, Nicolau Libório, Valdir Correia, O Garotinho, e tantos outros. Cada um, à sua maneira, deixou uma lição.

Alguns ensinavam pela palavra. Outros ensinavam pela experiência. Havia os que sabiam conduzir uma notícia com precisão e os que tinham o dom de transformar uma conversa simples em companhia para milhares de ouvintes. E havia, sobretudo, aquela geração que fazia rádio com uma espécie de devoção. Tenho por todos eles respeito e carinho.

O rádio daquele tempo tinha uma intimidade que é difícil explicar a quem nasceu na era das telas. Não havia imagem para disputar a atenção. Havia a voz. E a voz precisava criar tudo.

Uma rua. Uma partida de futebol. Uma notícia triste. Uma festa. Um temporal. Um cantor. Uma entrevista. Tudo nascia no imaginário de quem estava ouvindo.

No Amazonas, isso tinha um significado ainda maior. Aqui, onde os rios são estradas e as distâncias parecem inventadas para testar a paciência dos homens, o rádio nunca foi apenas entretenimento. Foi companhia. Foi serviço. Foi notícia. Foi recado. Foi ponte.

Durante muito tempo, um simples aviso transmitido por uma emissora podia significar muito mais do que algumas palavras lançadas no ar.

Era a notícia de que um parente estava doente. O aviso de que determinada mercadoria havia chegado. A confirmação de uma viagem. Uma informação sobre alguém que morava longe, muito longe, onde o silêncio da floresta parecia separar as pessoas do restante do mundo. E então o rádio fazia aquilo que os grandes inventos às vezes conseguem fazer. Diminuía a distância.

A história do rádio brasileiro começou oficialmente em 1922, em meio às comemorações do Centenário da Independência. Pouco depois, Roquette-Pinto ajudaria a transformar aquela novidade em instrumento de educação, cultura e comunicação.

No Amazonas, o rádio também encontrou seu próprio caminho. Vieram a Voz de Manaós, a Voz da Baré, a Rádio Baré, a Rádio Rio Mar e tantas outras emissoras que foram compondo, ao longo das décadas, a paisagem sonora de Manaus e do interior. Entre essas vozes estava a Rádio Difusora do Amazonas. E foi ali que começou a minha caminhada profissional.

Depois vieram as redações dos jornais. Vieram outros desafios, outras mesas, outras máquinas de escrever e, mais tarde, outros tempos e outras tecnologias. Minha trajetória também se cruzou com as atividades na Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM), onde continuo até hoje.

Mas a verdade é que há começos que não desaparecem. O primeiro microfone permanece. A primeira voz permanece. A emoção de saber que, do outro lado, alguém está ouvindo permanece.

Tantos anos depois, quando chega o Dia do Radialista, não penso apenas na profissão. Penso nas pessoas. Penso nos companheiros de uma época em que fazer rádio exigia presença, ouvido atento, responsabilidade e, acima de tudo, respeito por quem estava do outro lado.

Penso nos amigos que o tempo levou. Penso nos que continuam caminhando, como Augusto Pantoja, com quem tenho a alegria de conviver na ALEAM. Penso também naqueles que, mesmo sem perceber, deixaram um pouco de sua voz na minha memória.

Sei que há vozes que o tempo não apaga. Elas ficam guardadas em algum lugar da lembrança e reaparecem quando ouvimos uma música antiga, quando passamos diante de uma velha emissora, quando sentimos o cheiro do papel de uma redação ou quando alguém simplesmente pergunta: “Você se lembra daquele tempo?” Sim, eu lembro. E lembro com gratidão.

Antes de conhecer as redações, antes das muitas páginas escritas, antes dos anos de trabalho e das responsabilidades que a vida foi colocando pelo caminho, houve um microfone. Houve a Rádio Difusora do Amazonas. Houve uma juventude diante de um mundo que começava a ser contado por palavras. E houve a descoberta de que uma voz, quando é verdadeira, pode ir além do tempo.

Hoje, no Dia do Radialista, deixo meu abraço a todos aqueles que fizeram e fazem o rádio brasileiro e, especialmente, o rádio amazonense.

Aos velhos companheiros da RDA. Aos profissionais que vieram depois. Aos que ainda acordam cedo para falar com quem está no interior. Aos que levam informação, música, serviço e companhia a quem muitas vezes encontra no rádio a única janela para o mundo, registro minha admiração e o meu respeito.

O rádio mudou. Nós mudamos. O mundo mudou. Mas existe alguma coisa que permanece.

Quando uma voz chega pelo ar e alguém, do outro lado, para ao escutá-la, acontece novamente aquele pequeno milagre. A distância desaparece. Por alguns minutos, somos todos vizinhos.

Digo que esse é o segredo do rádio. Ele nunca esteve apenas no ar. Ele sempre esteve dentro de nós. Viva o rádio!

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