
Por Juscelino Taketomi
Gente querida, o Brasil é um país tão extraordinário que conseguiu inventar uma modalidade de neutralidade política que só funciona quando o candidato é o preferido da casa. É a imparcialidade de ocasião. Uma espécie de virgindade ideológica que se perde na primeira pesquisa e se recupera milagrosamente na entrevista coletiva seguinte.
Nos Estados Unidos, um jornal pode declarar apoio a um candidato sem precisar entrar para o programa de proteção à testemunha. Assume sua preferência, explica suas razões e segue a vida. Aqui, não. Por estas bandas, há quem queira fazer campanha com cara de missa, pedir voto com voz de locutor de aeroporto e vender preferência política como se fosse resultado de exame de laboratório.
É a velha história da raposa que se apresenta como fiscal do galinheiro. E ainda exige respeito das galinhas.
Veja-se a discussão em torno do Datafolha. O instituto, que deveria ser lembrado exclusivamente pela qualidade de suas pesquisas, tornou-se personagem recorrente de uma guerra de desconfianças. Agora, circulam denúncias no Google envolvendo supostos pesquisadores e entrevistas realizadas nas proximidades de uma estrutura petista em Campo Grande, no Rio de Janeiro.
A acusação é séria. Fala-se até em exclusão de eleitores bolsonaristas. Mas uma coisa é o que se denuncia, outra é o que se consegue provar. Até porque acusação sem prova é como pesquisa sem metodologia. Serve para fazer barulho, não para estabelecer a verdade.
O Datafolha deve explicações convincentes sobre o episódio. Quem escolheu o local? Quem realizou as entrevistas? Como foram selecionados os entrevistados? Houve fiscalização? O instituto confirma ou desmente a participação de seus profissionais?
Perguntar não ofende. O que ofende é imaginar que a sociedade deva engolir tudo sem perguntar. O brasileiro já paga imposto demais para ainda ter de pagar pedágio intelectual a quem se considera proprietário da verdade.
E há outra coisa engraçadíssima nessa ópera bufa. Quando a pesquisa favorece o candidato de estimação, aparece uma multidão de sacerdotes da estatística explicando a margem de erro, o intervalo de confiança e a santidade do questionário. Quando o resultado desagrada, os mesmos especialistas descobrem que a amostra tem defeito, o eleitor mentiu, a lua estava minguante e Mercúrio entrou em greve.
A estatística, coitada, não tem culpa. É uma senhora respeitável que anda sendo arrastada para cada pagode que faria Pitágoras pedir transferência para outro planeta.
Sou um fã incondicional e radical de Fernando Veríssimo e imagino o que diria o Analista de Bagé diante desse espetáculo. Provavelmente ajeitaria as bombachas, olharia para o sujeito que confunde pesquisa com torcida e recomendaria um tratamento intensivo de vergonha na cara. Sem anestesia e sem direito a segunda consulta.
Stanislaw Ponte Preta, por sua vez, certamente encontraria nesse cenário matéria-prima para atualizar o seu imortal Festival de Besteira que Assola o País. E talvez concluísse que o problema brasileiro deixou de ser a falta de informação. Passou a ser o excesso de gente querendo administrar a informação alheia.
Mas não se enganem os leitores. Não estou defendendo que o Datafolha, a Folha de S.Paulo, o Estadão ou qualquer outro veículo sejam proibidos de ter preferências políticas. Muito pelo contrário. Tenham as preferências que quiserem. Apoiem Lula, Flávio Bolsonaro ou o candidato a síndico do edifício. A democracia permite.
O que não se pode admitir é confundir opinião com notícia, preferência com evidência e propaganda com pesquisa científica. Também não se deve condenar um instituto por boatos ou vídeos sem verificação. A cobrança precisa ser rigorosa para não reproduzir o comportamento que se pretende denunciar.
A imprensa livre é indispensável à democracia. Mas imprensa livre não significa imprensa acima de perguntas. Instituto respeitado não significa instituto dispensado de prestar contas. Quem exige transparência dos políticos deve ser o primeiro a praticá-la.
O cidadão não quer saber se o pesquisador acordou de bom humor, se torce pelo Flamengo ou se guarda uma fotografia de Lula ou de Bolsonaro na carteira. Quer saber se sua opinião será registrada corretamente.
O cidadão quer saber se o resultado divulgado corresponde ao que foi efetivamente pesquisado. Quer ter a certeza de que ninguém está tentando escolher o eleitor que melhor combina com o resultado desejado.
Se tudo foi feito corretamente, que se mostrem os procedimentos e se esclareçam as dúvidas. Se houve irregularidade, que seja apurada e corrigida.
O resto é conversa para boi dormir. E o boi brasileiro, depois de tanto tempo ouvindo conversa, já está começando a sofrer de insônia. No domingo (25), votem com consciência, com altivez de rouxinol.










