Juscelino Taketomi Amazônia, crime organizado e responsabilidade política

Amazônia, crime organizado e responsabilidade política

Foto: Divulgação/ ASCOM

Por Juscelino Taketomi

Li com atenção, no site O ECO, o artigo de Lucas Ferrante, intitulado “Bolsonaro abriu caminho para o crime organizado dominar territórios da Amazônia”.

Considero necessário o debate proposto pelo pesquisador, sobretudo quando trata da expansão do desmatamento ilegal, da grilagem de terras públicas, das invasões de territórios indígenas e da violência que ameaça comunidades inteiras na Amazônia.

Não tenho dificuldade em reconhecer a gravidade desses problemas, tampouco em admitir que decisões tomadas pelo governo de Jair Bolsonaro merecem críticas, especialmente no campo da política ambiental.

Minha discordância está na abrangência de determinadas conclusões políticas do artigo, que, a meu ver, precisam ser examinadas com maior cautela.

A discussão sobre o crime organizado na Amazônia deve ser conduzida com seriedade, fundamentação científica e independência de pensamento. Não me parece adequado transformar evidências relevantes sobre determinados problemas em uma condenação generalizada de um governo, ao mesmo tempo que se corre o risco de atribuir ao governo seguinte méritos que precisam ser avaliados em todas as suas dimensões.

Os problemas ambientais

Lucas Ferrante apresenta pesquisas sobre a região da BR-319 e descreve uma dinâmica preocupante: abertura de ramais clandestinos, extração ilegal de madeira, ocupação irregular de terras públicas, desmatamento, expansão da pecuária e conflitos fundiários. Também relaciona essas atividades à circulação de armas e à atuação de grupos criminosos.

São questões graves, que merecem investigação, fiscalização e resposta efetiva do poder público. Claro que sim.

Os dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) confirmam que o desmatamento na Amazônia aumentou sob o governo Bolsonaro e atingiu níveis elevados naquele período. Não vejo razão para negar esse fato ou minimizar os efeitos de políticas que tenham contribuído para enfraquecer a fiscalização ambiental.

Também acho legítimo questionar a flexibilização das regras de acesso a armas, a capacidade operacional dos órgãos ambientais e as decisões que possam ter facilitado a ocupação ilegal de áreas protegidas.

Contudo, reconhecer esses problemas não significa aceitar automaticamente todas as interpretações políticas formuladas a partir deles.

Uma coisa é demonstrar que determinadas políticas contribuíram para criar condições favoráveis a atividades ilegais. Outra, mais abrangente, é concluir que um governo foi tolerante com o crime organizado como um todo ou que entregou territórios amazônicos ao domínio de facções criminosas.

Essa segunda afirmação exige uma análise mais ampla, que não se limite à política ambiental.

Conexões que exigem precisão

Não se pode ignorar que organizações criminosas podem atuar em diferentes frentes, conectando o tráfico de drogas, a exploração ilegal de madeira, o garimpo clandestino, a grilagem de terras, a lavagem de dinheiro e a corrupção.

Tais atividades podem se alimentar mutuamente, ainda mais em regiões onde a presença do Estado é insuficiente e as distâncias dificultam a fiscalização. A Amazônia conhece essa realidade, e o Amazonas, em particular, não pode se dar ao luxo de tratar o problema com superficialidade.

Mas é por reconhecer a complexidade dessa situação que é necessário distinguir os diferentes níveis de responsabilidade.

O aumento do desmatamento não é, isoladamente, uma medida da expansão do tráfico de drogas. A flexibilização das regras de aquisição de armas pode produzir riscos relevantes para a segurança pública, mas a dimensão de seus efeitos sobre as facções precisa ser demonstrada por dados consistentes.

Da mesma forma, a existência de organizações criminosas em áreas de fronteira não comprova, por si só, que determinado governo tenha deliberadamente permitido seu avanço.

Não estou afirmando que essas conexões não existam. Estou defendendo que sejam demonstradas com precisão, respeitando os limites das pesquisas e a diferença entre correlação, contribuição causal e responsabilidade política.

A ciência tem um papel indispensável nesse debate. Seu valor, porém, não dispensa o exame crítico das conclusões que extrapolam o objeto específico de uma investigação.

Uma simplificação política?

Não pretendo aqui fazer uma defesa incondicional de Jair Bolsonaro. Governos devem ser avaliados por suas decisões, seus resultados e suas omissões, independentemente de preferências partidárias.

O período de 2019 a 2022 precisa ser examinado à luz do aumento do desmatamento, das mudanças na política ambiental, das decisões relativas à fiscalização e dos efeitos das medidas adotadas para o acesso a armas. São questões que não podem ser afastadas por conveniência política.

No entanto, também entendo ser correto avaliar o conjunto das ações de segurança pública daquele governo, incluindo operações policiais, apreensões, investigações e medidas de combate ao tráfico de drogas e às organizações criminosas.

Não seria honesto concluir, sem esse exame, que todas as iniciativas de combate ao crime foram inexistentes ou que o Estado brasileiro deixou de atuar em todas as frentes. Tampouco seria correto usar eventuais operações policiais para desconsiderar falhas ambientais ou institucionais.

Responsabilização política não deve ser confundida com condenação genérica. Se uma decisão governamental favoreceu atividades criminosas, é preciso demonstrar de que maneira isso ocorreu, quais foram seus efeitos e qual a extensão de sua responsabilidade.

Esse rigor não beneficia Bolsonaro nem prejudica seus críticos. Apenas qualifica o debate público.

Além do discurso

O mesmo critério deve ser aplicado ao governo Luiz Inácio Lula da Silva. É justo reconhecer a redução expressiva do desmatamento registrada nos últimos anos.

Os dados divulgados pelo INPE em 16 de outubro de 2026 mostram que a área desmatada na Amazônia Legal caiu de 5.731 quilômetros quadrados, no período de agosto de 2024 a julho de 2025, para 3.335 quilômetros quadrados, entre agosto de 2025 e julho de 2026. A queda foi de 41,8%, alcançando o menor índice da série histórica iniciada em 1988.

O resultado merece reconhecimento, assim como merecem ser examinadas as medidas de fiscalização e proteção ambiental que contribuíram para alcançá-lo.

Porém, seria um equívoco transformar o desempenho ambiental em certificado geral de eficiência no combate ao crime organizado.

A redução do desmatamento é um indicador importante, mas não responde, sozinha, a perguntas fundamentais: as facções perderam capacidade de controlar territórios? O tráfico de drogas e armas foi efetivamente enfraquecido? As redes de lavagem de dinheiro estão sendo desarticuladas? A corrupção que facilita atividades criminosas está sendo combatida com a intensidade necessária? As populações que vivem sob ameaça sentem-se mais protegidas?

As perguntas precisam ser respondidas com dados específicos, investigações consistentes e resultados verificáveis.

Concordo que o governo Lula tem apresentado operações e iniciativas de enfrentamento às organizações criminosas.

Em junho de 2026, por exemplo, o Ministério da Justiça divulgou um balanço inicial do programa Brasil Contra o Crime Organizado, com ações integradas entre diferentes forças de segurança. Isso mostra mobilização institucional, mas não encerra a avaliação sobre a eficácia da política nacional de segurança pública.

O que me preocupa é a possibilidade de se estabelecer um padrão de julgamento desigual: quando os resultados são desfavoráveis a Bolsonaro, atribui-se a responsabilidade ao governo. Quando são favoráveis a Lula, reconhecem-se os méritos da administração. A análise séria exige que os dois sejam submetidos aos mesmos critérios.

Não basta anunciar operações, divulgar apreensões ou apresentar números isolados. É preciso verificar a continuidade dos resultados, o impacto sobre a estrutura financeira das facções, a redução da violência e a recuperação efetiva dos territórios submetidos ao poder criminoso.

Estado na berlinda

O problema central da Amazônia não cabe inteiramente na disputa política entre bolsonaristas e lulistas.

A região necessita de fiscalização ambiental permanente, presença policial efetiva, inteligência integrada, investigação financeira, controle de fronteiras e combate à corrupção. Precisa, igualmente, de proteção aos povos indígenas e às comunidades tradicionais, de segurança para quem denuncia crimes e de alternativas econômicas legais para as populações que vivem em áreas vulneráveis.

A BR-319 é um exemplo de como infraestrutura, ordenamento territorial e proteção ambiental precisam ser tratados com responsabilidade.

O debate sobre a rodovia não pode ignorar os riscos de expansão desordenada da ocupação, mas também deve ser conduzido com transparência, rigor técnico e respeito às necessidades legítimas das populações amazonenses carentes de desenvolvimento econômico.

A solução não está em escolher entre desenvolvimento e preservação, como se fossem necessariamente incompatíveis. Está em impedir que projetos públicos e privados sejam capturados por interesses ilegais, assegurando que decisões sobre o território respeitem a legislação e produzam benefícios reais para a sociedade.

E isso demanda continuidade de políticas públicas, não apenas mudanças de orientação a cada eleição.

Rigor precisa valer para todos

O artigo de Lucas Ferrante merece ser debatido, inclusive por trazer ao conhecimento público pesquisas sobre uma região de enorme importância ambiental e estratégica para o Brasil. Não acho produtivo rejeitar suas observações simplesmente porque elas atingem um governo com o qual determinados leitores possam simpatizar.

Mas também não considero adequado aceitar, sem exame crítico, a conclusão de que Bolsonaro abriu caminho para o domínio do crime organizado na Amazônia, como se essa formulação, por si só, explicasse toda a dinâmica criminal da região e dispensasse uma avaliação mais abrangente de seu governo.

Igualmente, a queda do desmatamento sob Lula deve ser reconhecida sem que isso impeça questionamentos sobre a atuação federal diante das facções, do tráfico, da lavagem de dinheiro e da violência que persiste em diferentes partes do país.

Não se trata de distribuir culpas em partes iguais, nem de construir uma falsa equivalência entre governos. Trata-se de reconhecer que cada afirmação deve ser sustentada pelas evidências correspondentes, e que conclusões diferentes podem exigir critérios e indicadores diferentes.

Minha preocupação é com a qualidade do debate público. Quando a ciência é utilizada para iluminar problemas concretos, ela contribui para o aperfeiçoamento das políticas públicas. Quando conclusões científicas são ampliadas para sustentar veredictos políticos que vão além das evidências apresentadas, corremos o risco de substituir a investigação pelo discurso.

A Amazônia não pode ser reduzida a instrumento de disputa eleitoral. Tampouco o combate ao crime organizado pode ser tratado como patrimônio exclusivo de qualquer partido ou governo.

Meu compromisso é com os fatos, não com a absolvição antecipada de Bolsonaro nem com a aprovação automática de Lula. Quero ver os responsáveis por crimes ambientais e outras atividades ilícitas investigados e punidos, os territórios recuperados, as comunidades protegidas e as organizações criminosas efetivamente enfraquecidas e destruídas.

O que deve importar não é qual governo consegue construir a narrativa política mais conveniente, mas qual conjunto de políticas públicas produz resultados duradouros para a segurança dos brasileiros e para a preservação da Amazônia.

É esse o debate necessário, um debate sem negacionismo, sem complacência e sem dois pesos e duas medidas.

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