
Por Juscelino Taketomi
A política amazonense já produziu de quase tudo. Já vimos alianças que pareciam casamentos de conveniência, rompimentos dignos de novela mexicana, promessas que evaporaram antes da primeira chuva e discursos capazes de fazer até o boto-cor-de-rosa pedir transferência para outro rio.
Mas, sinceramente, transformar uma capivara em personagem de peleja eleitoral é uma novidade que merece entrar para o folclore político regional.
A confusão começou quando o vereador e deputado federal eleito Sargento Salazar, do PL, resolveu comparar a aparência do senador Omar Aziz a uma capivara.
A intenção era evidente: provocar, ridicularizar, arrancar risadas e, quem sabe, marcar alguns pontinhos no campeonato da baixaria eleitoral.
Só que o senador, sarcástico, em vez de vestir a carapuça e devolver o insulto no mesmo tom, fez algo muito mais desconcertante para os adversários: entrou na brincadeira, virou o jogo e ainda convocou o simpático roedor para a campanha.
“Você pode votar no Omar 55 ou na Capivara 55, que eu não vou ficar chateado”, disparou Omar, nesta segunda-feira (12/10), durante entrevista ao consórcio G6.
Pronto! Foi o suficiente para a capivara, até então ocupada com seus afazeres naturais, ganhar título de cidadania eleitoral, lugar no debate público e, provavelmente, convite para o próximo comício. Só falta providenciar o santinho, o jingle e um bom lance no Tik Tok.
Salazar mexeu com o bicho errado. Não porque a capivara seja agressiva, mas porque Omar percebeu que, em política, às vezes o melhor antídoto contra uma provocação é desmontá-la com humor e inteligência.
O apelido que pretendia constranger acabou convertido em peça de comunicação. E a capivara, sem precisar gastar um tostão do fundo eleitoral, ganhou notoriedade.
Fauna política
Mas há uma questão mais importante escondida debaixo dessa pelagem eleitoral. A Amazônia é dona de uma biodiversidade extraordinária, com espécies que sobrevivem apesar da destruição dos habitats, da caça ilegal, do tráfico de animais silvestres e de outras agressões ambientais.
Os bichos amazônicos não precisam de autorização de partido para existir, nem merecem virar alvo de uma guerra de ofensas travestida de entretenimento político.
A capivara é um animal tranquilo, adaptável e perfeitamente capaz de viver sem saber quem é Salazar, quem é Omar ou quem pretende ocupar o Palácio do Governo. Não tem culpa se os humanos, às vezes, parecem disputar uma olimpíada de grosserias.
Cabe uma pergunta aos especialistas em marketing do insulto: se a moda pegar, qual será o próximo homenageado involuntário? O jacaré vai virar cabo eleitoral? O macaco-de-cheiro será convocado para atacar adversários? A onça-pintada ganhará número de urna? E o pobre sauim-de-coleira, espécie ameaçada de extinção, terá de assistir a um debate eleitoral antes de conseguir um pedaço de floresta para chamar de seu? Será que Salazar tem a resposta?
Pelo andar da carruagem, ou da canoa, daqui a pouco teremos uma coligação formada pelo Boto, pela Arara, pelo Tatu e pela Capivara. Talvez apresentassem um programa ambiental mais consistente do que muito candidato que só se lembra da floresta quando aparece uma câmera de televisão.
Deboche perdeu a mira
Omar Aziz também aproveitou o episódio para fazer uma observação pertinente sobre a maturidade. Disse que, quando era adolescente, também apelidava colegas, mas que esse comportamento já não combina com a posição que ocupa.
“Quando a gente cresce, amadurece, a gente deixa de ser imbecil e não faz mais isso”, destacou.
É uma resposta que merece ser considerada para além da disputa eleitoral. A liberdade de fazer humor não transforma qualquer ofensa em argumento político, assim como o direito de criticar um homem público não exige que se faça da aparência física o centro do debate.
Candidatos devem ser confrontados por suas ideias, suas decisões, seus resultados e suas contradições. Há material de sobra para uma oposição vigorosa sem que seja necessário convocar a anatomia para o palanque.
Afinal, quando falta argumento, sobra apelido. Quando falta proposta, aparece a caricatura. E, quando a criatividade entra em férias, até os animais acabam recrutados.
A ironia é que Omar, ao absorver a comparação, retirou boa parte da munição da provocação. Em vez de demonstrar irritação, apropriou-se do apelido e o transformou em brincadeira eleitoral. Se a intenção era deixá-lo desconfortável, o resultado público foi outro: a capivara ganhou espaço, e a discussão passou a girar em torno da reação do senador.
Maria do Carmo, também do PL, entrou na história ao publicar um vídeo com uma capivara de pelúcia, identificada como “a capivara da Madá”. Foi risível, como um teatro de beira de igarapé.
Depois, Maria retirou a gravação e publicou outra, desta vez com uma cadelinha chamada Madá. A sequência acrescentou mais um capítulo à novela zoológico-eleitoral, embora não seja possível afirmar, apenas pelos vídeos, qual foi a intenção por trás da mudança.
O episódio, de todo modo, revela uma campanha em que imagens, apelidos e vídeos curtos disputam a atenção do eleitor. Na política das redes sociais, um segundo de deboche pode render milhares de visualizações e uma resposta bem-humorada pode valer mais do que um discurso inteiro.
Respeito a capivara
Trocando em miúdos, a capivara saiu dessa história com uma vantagem que poucos políticos conseguem ostentar: continua sendo capivara, não precisa explicar alianças, não promete obras que jamais serão concluídas e não muda de opinião conforme o vento das pesquisas. Come, descansa, circula por seu ambiente e segue a vida. Uma serenidade invejável.
Já a fauna amazônica de verdade enfrenta problemas que não se resolvem com vídeos de oito segundos, bichos de pelúcia ou disputas de vaidade. Precisa de proteção dos habitats, fiscalização contra a caça e o tráfico de animais, políticas ambientais sérias e compromisso permanente com a conservação da floresta.
Que Omar aproveite a oportunidade para transformar a brincadeira em uma mensagem concreta de respeito à natureza. E que Salazar, assim como os demais personagens dessa comédia eleitoral, descubra que o Amazonas já tem folclore de sobra sem precisar converter cada animal silvestre em munição partidária.
A Amazônia não é um zoológico a serviço das campanhas. É um patrimônio natural que precisa ser defendido por todos, inclusive por aqueles que só se lembram de seus bichos quando a política lhes oferece uma piada desconcertante.
Se a capivara pudesse votar, talvez escolhesse um candidato que lhe garantisse água limpa, margens preservadas e sossego para pastar. Sem ataques pessoais, sem vídeos constrangedores e, principalmente, sem políticos fazendo de sua cara um programa de governo.
Quanto ao debate que virá neste segundo turno da batalha de votos no Amazonas, fica a sugestão: menos mordida entre os candidatos e mais proteção aos bichos. Afinal, na política amazônica, já tem muito animal querendo aparecer. O que não falta, porém, é eleitor esperando que os humanos finalmente se comportem como gente.










