Trocando em Miúdos Candidatos trocam ideias e propostas por baixarias nas eleições do Amazonas

Candidatos trocam ideias e propostas por baixarias nas eleições do Amazonas

Com exceção de David Almeida, na base do “paz e amor”, colando sua imagem à do postulante do Avante à Presidência da República Augusto Cury, a campanha para o Governo do Amazonas avança com as ideias e propostas andando bem mais devagar que os ataques pessoais entre os candidatos.

É muita troca de farpas, provocação, acusação e disputa pelo holofote. O problema é que, enquanto os candidatos se escorraçam, há um Amazonas que espera respostas para problemas bem mais sérios.

Segundo dados do IBGE, cerca de 330 mil amazonenses, aproximadamente 8% da população do Estado, vivem em situação de insegurança alimentar grave. É gente que não está discutindo quem ofende quem na internet. Está, concretamente, passando fome.

Sem comida e no abandono

O quadro da fome no Amazonas é mais preocupante nas áreas rurais: a insegurança alimentar alcança 31,3% dos domicílios, contra 23,2% nas áreas urbanas. Na situação mais grave, são 4,6% dos domicílios rurais contra 3% nas sedes municipais.

Para uma parte considerável do Estado, a grande preocupação não é saber quem deu a melhor resposta ao achincalhe do outro nas redes sociais. É saber de onde virá a próxima refeição e se preparar para responder com indignação nas urnas de outubro.

Motociata em Manaus

Foto: Hercules Andrade

Sexta-feira tem visita importante em Manaus. Flávio Bolsonaro (PL), chega ao Amazonas para fazer campanha presidencial ao lado de Maria do Carmo e Alberto Neto.

Claro que, a propósito, não poderia faltar aquilo que virou marca registrada do bolsonarismo: a motociata.

Alberto Neto já confirmou a chamada “Motociata da Direita”, que deve colocar motociclistas, candidatos, lideranças e apoiadores nas ruas da capital.

Faltam os detalhes mais prosaicos: horário, ponto de concentração, percurso e programação completa.

Flávio está na frente no Amazonas

Flávio Bolsonaro – Foto: Divulgação

Se eleição fosse corrida de motocicleta, Flávio Bolsonaro já teria colocado o capacete e largado na frente no Amazonas.

Pesquisa AtlasIntel divulgada na sexta-feira passada mostra o candidato do PL com 41,3% das intenções de voto no cenário estimulado de primeiro turno, contra 39,2% de Lula. Augusto Cury aparece com 10% e Renan Santos com 5,8%.

A vantagem de Flávio, entretanto, está dentro de uma margem de erro de três pontos percentuais. Portanto, nada de cantar vitória antes da bandeirada. Pesquisa é fotografia, não certidão de eleição.

No segundo turno testado entre Flávio e Lula, a distância aumenta: 48% a 41,3% nos votos totais. Considerados apenas os votos válidos, o placar vai a 53,7% para Flávio contra 46,3% para Lula.

Foram ouvidos 1.185 eleitores do Amazonas entre 29 de agosto e 3 de setembro, com nível de confiança de 95%.

Meio milhão na Copa Evangélica

No Amazonas, até a bola que rola em campeonato evangélico está precisando de uma ajudinha celestial ou, mais precisamente, R$ 500 mil dos cofres públicos.

A Sedel, sob forte influência política do deputado estadual João Luiz (Republicanos), firmou patrocínio de meio milhão de reais para a realização da “Copa Evangélica Amazonense”, em parceria com o Instituto para uma Amazônia Melhor Evoluída, o AME.

O contrato, assinado em 2 de setembro, terá vigência de seis meses. O recurso está formalmente destinado à execução do projeto, descrito como campeonato de futebol de caráter desportivo, recreativo e comunitário.

A obra que não quer acabar

Em Nova Olinda do Norte, no Vale do Rio Madeira, obra pública parece ter descoberto o segredo da juventude eterna.

A recuperação do sistema viário da cidade, contratada originalmente em agosto de 2022 por R$ 10,25 milhões, acaba de ganhar a nona prorrogação.

Mais 120 dias foram acrescentados ao prazo. Agora, a previsão é que a obra termine em 17 de novembro de 2026. Começou em 2022, atravessou 2023, 2024, 2025 e já está passeando confortavelmente por 2026.

É tanta prorrogação que daqui a pouco a obra vai precisar de aniversário, bolo e discurso.

Obra dentro da obra

O contrato, prorrogado pela Prefeitura de Nova Olinda, prevê pavimentação em concreto armado, sarjeta e meio-fio, além de serviços de abertura, drenagem e recuperação de ruas e avenidas.

Nada contra dar prazo para uma obra. O problema é quando o prazo parece ter virado uma espécie de obra dentro da obra.

Enquanto isso, os moradores continuam esperando pelo sistema viário prometido. Em Nova Olinda, pelo jeito, o concreto pode até ser armado. O calendário é que parece estar desarmado.

Manacapuru está em chamas

Em Manacapuru, o fogo não esperou autorização, licitação nem ordem de serviço. Avançou pela vegetação às margens da AM-352, chegou perto de casas e ameaçou plantações. Em alguns pontos, segundo moradores, as chamas ficaram a cerca de 100 metros das residências.

Durante a noite, foram os próprios moradores que tentaram conter o incêndio enquanto pediam ajuda ao Corpo de Bombeiros, à Defesa Civil e à Prefeitura, inclusive com carros-pipa.

Cabe uma velha pergunta amazônica: cadê a infraestrutura preventiva?

Falar de meio ambiente em época de incêndio não deveria significar apenas apagar o fogo depois que ele chega perto da casa do cidadão. Significa prevenção, fiscalização, estrutura, acesso, equipamentos e planejamento.

No caso de Manacapuru, a situação fica ainda mais delicada porque a fumaça já castigava a qualidade do ar, com concentração de partículas chegando a 192 microgramas por metro cúbico, nível considerado muito ruim.

Emergência e dispensa de licitação

Manacapuru decretou situação de emergência por 180 dias por causa da estiagem. Até aí, diante da situação enfrentada pelas comunidades ribeirinhas e rurais, a medida parece perfeitamente compreensível.

O problema começa quando aparece a expressão que costuma deixar o contribuinte um pouco mais atento: dispensa de licitação.

O decreto municipal autoriza contratações emergenciais de bens, serviços e obras relacionadas à resposta ao desastre e à recuperação das áreas afetadas, com base no artigo 75, inciso VIII, da Lei 14.133/2021.

A lei permite a contratação direta em situações emergenciais, desde que observadas as condições legais e que haja relação entre o contrato e a situação que justificou a emergência.

Cheque em branco

Emergência não pode significar cheque em branco em Manacapuru.

Lá, a estiagem é real. O isolamento de comunidades é real. A dificuldade de transportar água, alimentos e medicamentos também é real.

Por isso, os gastos emergenciais precisam ser ainda mais transparentes. Quando a licitação é dispensada, a fiscalização não pode entrar de férias junto com ela.

O cidadão precisa saber quanto será gasto, com quem, para fazer o quê e por quê.

Da floresta amazônica ao chip

O minério ilegal da Amazônia pode ter encontrado um caminho bastante sofisticado para sair da floresta e chegar ao mundo da alta tecnologia.

Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal apontam que cassiterita extraída ilegalmente de áreas protegidas teria entrado no mercado formal e alcançado a cadeia de fornecimento de grandes empresas globais de tecnologia.

A cassiterita é matéria-prima do estanho usado na soldagem de microchips, servidores e equipamentos tecnológicos.

Segundo as investigações, a empresa White Solder teria recebido, refinado e dado aparência regular a parte desse minério. A companhia tornou-se ré sob acusação de participar de um esquema que teria movimentado pelo menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025.

Farra imoral

Documentos também apontariam o escoamento ilegal de mais de 525 toneladas de cassiterita apenas entre maio e agosto de 2021.

O caso chegou à cadeia internacional e levou o MPF a notificar multinacionais como Apple, Microsoft e Amazon para apurar possíveis falhas nos mecanismos de controle socioambiental e de direitos humanos.

A presença de uma empresa na cadeia de fornecimento não significa participação direta na extração ilegal.

No fim das contas, a história tem uma ironia amarga: a tecnologia que promete um futuro cada vez mais inteligente pode estar revelando uma cadeia de produção ainda bastante primitiva.

Da floresta destruída ao microchip de última geração: o minério pode mudar de forma. A responsabilidade, não.

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