Trocando em Miúdos Polarização transforma escolas em campos de hostilidades políticas

Polarização transforma escolas em campos de hostilidades políticas

A polarização política que marcou o segundo turno presidencial de 25 de outubro de 2026 ultrapassou o universo dos eleitores adultos e chegou às salas de aula brasileiras.

Conforme reportagem de Claudinei Queiroz, publicada pela Folha de S.Paulo, escolas de diferentes regiões receberam relatos de estudantes hostilizados em razão das preferências políticas atribuídas a eles ou a seus familiares.

Entre os episódios apresentados está o de um estudante de 12 anos, em Foz do Iguaçu, no Paraná, que teria sido cercado e insultado por colegas que o identificavam como apoiador do presidente Lula.

A denúncia foi divulgada pela mãe nas redes sociais e provocou manifestações de outras famílias que relataram situações semelhantes.

Bolsonaristas x petistas

Outro episódio ocorreu no Distrito Federal. Um adolescente de 16 anos, estudante do Centro Educacional 6 do Gama, afirmou ter sofrido perseguição escolar por apoiar Flávio Bolsonaro.

O caso ganhou repercussão política, provocou intervenção de parlamentares e levou à abertura de procedimentos de apuração.

Os relatos mostram que a hostilidade não se restringe a um único campo partidário. Estudantes associados tanto ao PT quanto ao PL tornam-se alvos de constrangimento, dependendo do ambiente escolar.

A situação preocupa porque crianças e adolescentes passam a reproduzir antagonismos construídos no mundo adulto. A escola, que deveria ensinar convivência democrática, corre o risco de se transformar em espaço de exclusão, no qual a identidade política da família passa a determinar a aceitação ou rejeição de um estudante.

Intolerância insuportável

Em São Paulo, episódios relatados por famílias de estudantes revelaram um quadro particularmente preocupante de agressividade verbal e constrangimento político em instituições particulares de ensino.

Na Escola do Futuro, localizada na zona sul da capital, o pai de uma menina de 12 anos relatou que a filha foi cercada por colegas e submetida a pressões por causa de suas posições políticas. Segundo ele, a estudante voltou a sofrer provocações nos dias seguintes e não recebeu o acolhimento esperado da instituição.

O pai também acusou um professor de ter respondido com uma provocação partidária quando a adolescente procurou ajuda. A escola, por sua vez, informou à Folha que interveio no mesmo dia em que recebeu o primeiro relato, conversou com as turmas envolvidas e reafirmou sua política de não tolerar intimidações.

Violência sexual

No tradicional Colégio Bandeirantes, também na zona sul paulistana, outro pai denunciou à Folha uma ameaça de violência sexual dirigida à filha adolescente por causa de seu apoio ao presidente Lula. O relato incluiu ofensas dirigidas a outra estudante, envolvendo características físicas e condição social.

O colégio afirmou ter ouvido os estudantes envolvidos e buscado esclarecer os acontecimentos, promovendo diálogo e recomposição das relações. A família contestou a resposta institucional.

A psicóloga Vera Rocha Resende, ouvida pela Folha, alertou para os efeitos da reprodução de discursos de ódio dos adultos sobre a formação emocional e social das crianças.

O problema, portanto, ultrapassa a preferência por Lula ou Bolsonaro. Diz respeito à capacidade das instituições educacionais de impedir que disputas eleitorais comprometam a segurança, a dignidade e o desenvolvimento de seus estudantes.

Hostilidades na Ufam

A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) tornou-se um dos espaços de maior visibilidade da polarização política no estado durante 2026.

Episódios ocorridos em maio e outubro mostram como disputas partidárias, manifestações estudantis e intervenções de agentes políticos passaram a ocupar o cotidiano da instituição, provocando discussões sobre liberdade de expressão, autonomia universitária e limites da atuação política nos campi.

Em 5 de maio, o vereador de Manaus Ubirajara Rosses, conhecido como coronel Rosses (PL), entrou nas dependências do Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), acompanhado de seguranças e influenciadores digitais, para retirar cartazes de manifestações estudantis.

A iniciativa provocou confronto com estudantes e com o professor de História Luiz Antonio Nascimento de Souza.

A Associação dos Docentes da Ufam (Adua) repudiou o episódio, classificando a atuação do parlamentar como intimidatória e ofensiva à liberdade de expressão.

O Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) também manifestou solidariedade à comunidade acadêmica. A controvérsia motivou articulações para encaminhar o caso à Comissão de Ética da Câmara Municipal de Manaus.

Barulho de lulistas no Coroado

Meses depois do caso envolvendo o coronel Rosses, já no segundo turno da eleição presidencial, a Ufam voltou a registrar intensa mobilização política.

Em 7 de outubro, professores, estudantes e servidores participaram de um ato de apoio à reeleição de Lula, realizado no IFCHS. No dia seguinte, uma caminhada saiu do campus e percorreu vias do bairro Coroado, em Manaus, com críticas à candidatura de Flávio Bolsonaro e defesa do financiamento da educação pública.

Segundo reportagem de A Crítica, lideranças estudantis afirmaram que pretendiam convencer eleitores indecisos e conquistar votos para Lula.

Os participantes também manifestaram preocupação com propostas atribuídas ao adversário relacionadas à organização e ao financiamento das universidades federais.

Diferenciando os acontecimentos

Conforme analistas ouvidos pela coluna, é necessário diferenciar os acontecimentos. As manifestações eleitorais de outubro, isoladamente, representam exercício de participação política, não comprovação de intimidação ou violência.

Já o confronto de maio apresenta elementos mais graves, sobretudo pelas denúncias de intervenção sobre manifestações estudantis.

“A sucessão de episódios revela como o ambiente universitário amazonense passou a refletir antagonismos nacionais. O desafio é assegurar que estudantes, professores e servidores de diferentes orientações políticas possam expressar suas opiniões sem constrangimento, ameaça ou perseguição”, dizem os analistas.

Problemas em Tefé e Tabatinga

A polarização eleitoral produziu denúncias ainda mais graves no interior do Amazonas. Professores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), lotados em unidades de Tefé e Tabatinga, relataram ofensas, intimidações e perseguições político-ideológicas após o segundo turno presidencial de 25 de outubro.

As denúncias foram divulgadas pelo Sindicato dos Docentes da UEA (Sind-UEA) e repercutidas em reportagens publicadas em 29 de outubro.

Segundo a entidade, estudantes estariam entre os principais responsáveis pelos ataques contra professores em razão de divergências políticas relacionadas ao resultado eleitoral.

Estudante ataca professora

Em Tefé, uma estudante do curso de Pedagogia teria publicado mensagens ofensivas no WhatsApp e, posteriormente, dirigido ofensas a uma professora dentro da sala de aula.

O episódio demonstra como conflitos iniciados nas redes sociais podem transbordar para o ambiente acadêmico e comprometer as relações entre docentes e alunos.

Outra denúncia envolve a circulação, em um grupo de mensagens, de uma suposta lista de professores identificados como comunistas. Um docente que teria sido mencionado nesse material relatou intimidações, registrou boletim de ocorrência e procurou assistência sindical.

A divulgação de listas de pessoas identificadas por convicções políticas, quando associada a ameaças, representa um sinal especialmente preocupante de possível perseguição ideológica.

Politiza Amazonas+1

Diante dos relatos, estampados no veículo Politiza Amazonas+1, o Sind-UEA publicou, em 28 de outubro, o informativo Proteção do Docente Contra Ataques Político-Ideológicos.

O documento apresenta orientações para que professores preservem mensagens, áudios e outras evidências, formalizem denúncias e busquem medidas administrativas, cíveis ou criminais, conforme as circunstâncias.

A entidade também cobrou a estruturação de mecanismos institucionais de enfrentamento ao assédio e de proteção contra retaliações.

A gravidade das acusações não pode ser minimizada. Diferentemente das manifestações políticas pacíficas registradas na Ufam, os acontecimentos denunciados em Tefé e Tabatinga envolvem alegações concretas de ataques pessoais e ameaças.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.