
Em um momento marcante para a cultura religiosa da capital amazonense, as divindades Jagun e Iyalode, pertencentes ao culto de Egbé, foram vestidas e dançaram lado a lado com o público. O acontecimento inédito em Manaus ocorreu durante o tradicional Osé da Ilé Àṣẹ Ayédùn, casa de axé situada no bairro Planalto, na zona Centro-Oeste da cidade.
A cerimônia aberta ao público representou um marco para o Culto Tradicional Yorùbá e deu sequência a uma série de ritos inéditos realizados pela instituição ao longo de 2026.
A filosofia yorùbá compreende o culto a Egbé como um pilar de fortalecimento da convivência social, da coletividade e da busca por harmonia entre o plano visível e o invisível. A tradição reconhece duas instâncias espirituais conectadas.
- Egbé Aiyé: Sociedade formada pelas pessoas que vivem e atuam no mundo físico.
- Egbé Òrun: Grupo composto pelos aliados espirituais que habitam a dimensão invisível.
A integração entre essas duas dimensões busca superar adversidades físicas, mentais, emocionais e espirituais que comprometem o bem-estar individual e coletivo da comunidade.
Equilíbrio entre dois mundos
Na celebração no bairro Planalto, Jagun e Iyalode expressaram a complementaridade entre as energias masculina e feminina. Jagun carrega a ligação com a alegria, o lúdico, as brincadeiras e as transformações da vida, da infância à senioridade. Já Iyalode representa a maturidade e ocupa a posição simbólica de mais alta liderança feminina na sociedade yorùbá. A atuação conjunta reforça a relevância do equilíbrio para a existência humana.
“Jagun, a energia masculina, traz a alegria, a brincadeira, a diversão e representa através de seus atos as fases da vida, infância, juventude, senioridade. Iyalode, tal qual um título na filosofia yoruba, é a dama que ocupa o cargo mais alto da sociedade. Ela representa em complemento às brincadeiras de Jagun a maturidade. Ambos nos lembram que o mais importante na vida é encontrar equilíbrio”, explicou a Iyalorixá Ayédùn, sacerdotisa responsável pela casa.
Vestimentas sagradas e rituais
O ritual destacou-se pela forma singular de manifestação das divindades. No culto a Egbé Òrun, a presença divina não ocorre por meio do transe dos devotos, pois as próprias vestimentas sagradas são consideradas assentamentos vivos dotados de força espiritual própria.
- Confecção tradicional: As roupas são produzidas na Nigéria por pessoas que preservam essas técnicas de geração em geração.
- O papel do Elegun: As peças são vestidas por um Elegun, devoto devidamente preparado e autorizado por rituais para essa função.
- Preservação da força: O traje cobre o corpo de forma integral sem deixar marcas humanas visíveis, concentrando a energia no assentamento vivo e não na pessoa que o veste.
O rito contou com procedimentos litúrgicos voltados para promover a transformação espiritual dos fiéis. A realização dessas celebrações cabe à liderança sacerdotal, conforme o axé da casa e as necessidades da comunidade, visando apaziguar energias negativas e renovar os laços de fé.
“Quando vestida pelo elegun, a roupa passa por procedimentos litúrgicos para que a energia que ela emana alcance cura onde as pessoas presentes nem sabem que precisam. A força está no assentamento vivo e não em quem a veste”, afirmou a sacerdotisa.
Resistência ancestral no Norte
A cerimônia de Jagun e Iyalode ocorreu pouco mais de um mês após outro feito histórico na Ilé Àṣẹ Ayédùn. Em setembro de 2026, o espaço recebeu a manifestação de Egungun, divindade associada à ancestralidade masculina no Culto Tradicional Yorùbá. Na ocasião, a casa promoveu uma programação rica em conhecimento com palestra, exposição fotográfica com registros realizados na Nigéria e a presença de autoridades religiosas especializadas.
Para a Iyalorixá Ayédùn, trazer essas vivências para Manaus supera o campo religioso, atuando diretamente no combate ao preconceito e ao apagamento da população negra na região Norte.
“Por séculos, o Norte enfrentou um duplo esquecimento, o preconceito contra os cultos de matriz africana e a invisibilização da presença negra na região. Ver Egungun e Egbé, que são sociedades espirituais que trabalham a ancestralidade, na Ilé Àṣẹ Ayédùn é um manifesto vivo. É dizer que o Norte não é a margem, mas o centro da resistência”, ressaltou a líder religiosa.
A sacerdotisa reforçou ainda a dimensão coletiva de sua missão no comando do espaço espiritual.
“Minha responsabilidade não é individual, é coletiva. Na filosofia que sigo, liderar significa abrir caminhos para que nossa comunidade acerte as contas com a própria história”, enfatizou a Iyalorixá Ayédùn.
Reconhecimento e preservação cultural
Fundada em 2020, a Ilé Àṣẹ Ayédùn dedica-se à preservação e à prática do Culto Tradicional Yorùbá em Manaus. Além dos rituais periódicos, a instituição atua no ensino de saberes ancestrais e no fortalecimento comunitário. O espaço é vinculado à Casa Cultural Ayédùn, iniciativa voltada à promoção da arte e da cultura de matriz africana. Em 2026, a Casa Cultural conquistou a certificação de “Ponto de Cultura” concedida pelo Ministério da Cultura no âmbito da “Política Nacional Cultura Viva”.
As solenidades dedicadas a Egungun e Egbé consolidam a presença dessas tradições na região e enriquecem a diversidade cultural do país.
“Nós, da Ilé Àṣẹ Ayédùn, cultuamos a força de quem veio antes e utilizamos desta força para sermos pessoas melhores e consequentemente membros melhores em uma sociedade que precisa decolonizar”, finalizou a sacerdotisa.
ASCOM: Luiggi Bacelar










