Moisaniel Filho A nossa honra é a nossa maior defesa

A nossa honra é a nossa maior defesa

Memórias em AM e FM — Fragmentos de uma vida contada pelas ondas do rádio

Por Moisaniel Barbosa Filho (*)

Alô, alô, meus amigos, minhas amigas!

É um prazer estar novamente com vocês em nosso encontro de sábado viajando pelos fragmentos das minhas Memórias em AM e FM.

A história de hoje me leva de volta a 1984, quando tive a oportunidade de acompanhar o então prefeito de São Gabriel da Cachoeira, Antônio Evangelista, em uma inesquecível viagem de barco até San Carlos de Río Negro, na Venezuela, onde ele receberia uma homenagem pelo seu desempenho como administrador de um município situado na região de fronteira.

Naquela época, eu era funcionário da Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira e, graças à compreensão do gerente Gilberto Martins, também prestava serviços como assessor de comunicação da Prefeitura. Foi assim que, a pedido do prefeito e com autorização da direção da emissora, embarquei naquela que se tornaria uma das viagens marcantes da minha juventude profissional.

Subindo o Rio Negro rumo à Venezuela

Partimos de São Gabriel da Cachoeira no barco da Prefeitura. Seguiam o prefeito, sua comitiva, trabalhadores, a equipe de operação da embarcação e este jovem radialista que procurava observar, anotar e guardar tudo o que encontrava pelo caminho.

Subimos o Rio Negro e passamos pela região de Cucuí, próxima à fronteira.

Nosso destino era San Carlos de Río Negro, no estado Amazonas venezuelano.

Aqui vale uma breve localização para o leitor: Puerto Ayacucho é a capital do estado Amazonas da Venezuela e está situada às margens do rio Orinoco. San Carlos de Río Negro, por sua vez, pertence ao mesmo estado, mas é a capital do município de Río Negro e está localizada às margens do próprio Rio Negro, diante de San Felipe, na Colômbia.

É uma região fascinante da Amazônia internacional, onde Brasil, Venezuela e Colômbia estabelecem relações humanas que, muitas vezes, fazem as fronteiras parecerem apenas linhas desenhadas nos mapas.

Fogos para receber os brasileiros

Antes de chegarmos ao destino, pernoitamos em uma comunidade venezuelana.

Uma voadeira seguia à frente da nossa embarcação e, quando os moradores souberam que a comitiva do prefeito de São Gabriel estava chegando, foram para a margem nos receber.

Quando nosso barco apareceu, houve salva de fogos, alegria, abraços e cumprimentos.

E ali tive uma surpresa que, para um jovem radialista, tinha um significado muito especial.

Algumas daquelas pessoas já me conheciam, não pelo rosto, mas pela voz. Elas ouviam o Boa Noite Rio Negro, programa que eu apresentava na Rádio Nacional.

Imaginem o que significava, naquela época, descobrir que a nossa voz atravessava aquela imensidão de água e floresta e chegava a comunidades de outro país.

Naquela noite, nossos anfitriões organizaram uma pequena festa. Houve comida, bebida, música brasileira e venezuelana, dança, conversas e muita confraternização.

Na manhã seguinte, depois do café oferecido pelos moradores, retomamos a viagem.

A homenagem ao prefeito Antônio Evangelista

Quando chegamos a San Carlos de Río Negro, a recepção foi ainda maior.

Autoridades e famílias locais receberam a comitiva brasileira, e tivemos contato também com uma tradicional família da região, que nos acolheu para um almoço.

À noite aconteceu a solenidade na qual o prefeito Antônio Evangelista recebeu a homenagem que motivara aquela viagem. Depois, houve uma bonita confraternização.

Evangelista demonstrava grande interesse pelas riquezas naturais daquela imensa região amazônica. Recordo-me de que, durante a viagem, chegou a comentar sobre a possibilidade de também existirem reservas petrolíferas na região de São Gabriel da Cachoeira.

Era uma impressão pessoal do prefeito diante das riquezas naturais e das potencialidades econômicas que enxergávamos naquela região, e assim deve ser entendida, como uma lembrança daquela conversa, e não como uma afirmação de caráter técnico ou geológico.

Respeito a Simón Bolívar

Entre tantas lembranças, uma cena aparentemente simples ficou gravada na minha memória.

Um integrante da nossa comitiva tentou atravessar, sem camisa, uma praça onde havia um busto de Simón Bolívar.

Um integrante da guarda imediatamente apitou, mandou que ele parasse e determinou que vestisse a camisa antes de passar diante do monumento.

Aquilo nos chamou muito a atenção.

Era uma demonstração do respeito que aquelas pessoas dedicavam aos seus símbolos e personagens históricos.

O rádio não conhecia fronteiras

No retorno, passamos também por San Felipe, do lado colombiano, onde conhecemos um comerciante chamado Cotinito.

Mais uma vez, o rádio estava à nossa espera.

Cotinito era ouvinte da Rádio Nacional e, por meio da emissora, acompanhava notícias e recados de pessoas que estavam em São Gabriel da Cachoeira.

Recebeu-nos com enorme carinho. Ofereceu presentes ao prefeito e também a mim. Entre as lembranças que ganhei estava um sapato bastante diferente, com um curioso solado transparente.

Mas o maior presente daquela viagem não foi material.

“A nossa honra é a nossa defesa”

Em uma das localidades por onde passamos, um militar venezuelano quis me oferecer uma lembrança.

Disse que não tinha nada para me presentear. Então, retirou da própria farda um emblema e colocou-o em minhas mãos.

Ao entregá-lo, pronunciou uma frase que nunca mais esqueci:

“A nossa honra é a nossa defesa.”

Eu era jovem, mas aquelas palavras ficaram comigo.

Mais de quatro décadas depois, continuam fazendo sentido.

Quando penso nelas, lembro-me também de Sócrates. No diálogo Críton, de Platão, Sócrates está preso e condenado à morte. Seu amigo Críton procura convencê-lo a fugir e lhe apresenta meios para isso. Sócrates, porém, recusa a fuga, sustentando sua decisão em princípios relacionados à justiça, às leis e à coerência com aquilo que havia defendido durante a vida.

Essa história sempre me leva à mesma reflexão: há coisas das quais um homem não deveria abrir mão, sua consciência, seu caráter e sua honra.

Talvez aquele militar venezuelano jamais tenha imaginado que, ao retirar um pequeno emblema da própria farda para presentear um jovem radialista brasileiro, estaria também lhe entregando uma reflexão para toda a vida.

A nossa honra é, de fato, a nossa maior defesa.

De volta a São Gabriel

Voltamos para São Gabriel da Cachoeira levando histórias, amizades e experiências.

Eu retornei também com muitas anotações. Fiz meu relatório e, naturalmente, nos programas seguintes mandei muitos “alôs” para as pessoas que havia conhecido durante a viagem.

Era o rádio cumprindo uma de suas funções mais bonitas na Amazônia: aproximar pessoas separadas por enormes distâncias e fazer com que as fronteiras parecessem menores.

Guardo minha gratidão a Gilberto Martins, que me permitiu conciliar o trabalho na Rádio Nacional com a assessoria de comunicação da Prefeitura, e ao prefeito Antônio Evangelista, que confiou naquele jovem radialista e me convidou para acompanhá-lo.

Foi apenas uma viagem de barco entre São Gabriel da Cachoeira e a Venezuela?

Para quem olha de fora, talvez. Para mim, foi rádio, juventude, fronteira, amizade, conhecimento e aprendizado.

E, mais de quarenta anos depois, uma frase continua atravessando o tempo:

“A nossa honra é a nossa maior defesa.”

Meus amigos, ficamos por aqui com mais um fragmento das nossas Memórias em AM e FM. No próximo sábado estaremos juntos novamente, viajando pelas lembranças de uma vida que, durante tantos anos, foi sendo contada pelas ondas do rádio.

Se você gostou desta história, deixe seu joinha, compartilhe e comente. A participação de vocês fortalece nossa vontade de continuar trazendo essas memórias de volta.

Um forte abraço e até o próximo encontro, aqui neste mesmo canal.

(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.

Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.

Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.

É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.