Moisaniel Filho Da falta de cheiro-verde nasceu uma feira

Da falta de cheiro-verde nasceu uma feira

Por Moisaniel Filho (*)

Alô, alô, gente amiga!

Estamos no ar para mais uma viagem pelas ondas da memória.

A história de hoje começa com um peixe, passa por um punhado de cheiro-verde, embarca nas águas do Rio Negro e termina numa rua de São Gabriel da Cachoeira, onde comunitários, agricultores e moradores ajudaram a criar o embrião do que seria uma experiência de feira livre na cidade.

Ajuste a sintonia, acomode-se e venha comigo. Porque, quando a memória entra no ar, nunca sabemos exatamente aonde uma história poderá nos levar.

E esta começou com o Diniz.

O peixe do Diniz

José Diniz está em muitas das minhas aventuras daqueles tempos de São Gabriel da Cachoeira. Pescador dos bons, certo dia ele havia pescado uma enorme piraíba e resolveu me presentear com um belo pedaço do peixe.

Levei aquilo para casa e logo pensei: — Poxa, seria muito bom preparar essa peixada com um cheiro-verde, uma cebolinha, uma chicória…

Hoje pode parecer algo absolutamente simples. Naquele tempo, porém, não era.

Havia períodos em que encontrar verduras, legumes e determinados alimentos em São Gabriel da Cachoeira era uma verdadeira dificuldade.

Parte dos produtos chegava de avião, inclusive em voos que abasteciam estruturas ligadas ao quartel. Havia um armazém ao qual funcionários públicos federais e, em algumas situações, servidores municipais tinham acesso, numa deferência do comando do 1º BEC.

Mas havia épocas em que os suprimentos demoravam a chegar.

E pelo rio a situação também podia ser complicada.

Na vazante mais severa, principalmente em determinados trechos entre Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira, a navegação se tornava difícil e arriscada. As pedras apareciam e exigiam enorme habilidade dos navegadores.

Algumas embarcações não tiveram a mesma sorte.

O naufrágio e o Conjunto Musical Recuperação Marítima

Foi numa dessas histórias que ouvi falar do naufrágio de um barco que transportava, entre outras mercadorias, equipamentos e instrumentos musicais aguardados com grande expectativa em São Gabriel.

Os equipamentos pertenciam a Jacinto, proprietário de um conhecido forró da cidade, localizado no bairro da Praia.

O lugar era conhecido originalmente como Forró da Barra. Mas, como vez ou outra aconteciam algumas confusões entre frequentadores — nada relacionado ao próprio Jacinto e à sua família, pessoas que recordo como muito amáveis e tranquilas —, o espírito brincalhão do povo tratou de rebatizar o lugar.

O Forró da Barra virou, na boca do povo, o “Forró da Bala”.

Quando o barco que transportava os equipamentos naufragou, voluntários mergulharam para tentar salvar o que fosse possível. Parte das mercadorias se perdeu. Alguns equipamentos ficaram inutilizados, mas outros conseguiram ser recuperados.

E foi justamente com parte daquele equipamento resgatado das águas que, segundo a história que ouvi na época, surgiu um grupo musical com um nome que não poderia ser mais apropriado: Conjunto Musical Recuperação Marítima.

Durante algum tempo eu ouvi aquele nome sem compreender sua origem. Depois que me contaram a história do naufrágio, tudo passou a fazer sentido.

Essa pequena passagem ajuda a compreender como eram diferentes as condições de abastecimento e transporte naquela São Gabriel da Cachoeira de tantos anos atrás.

Hoje, felizmente, a realidade é outra. A cidade evoluiu muito. Independentemente das variações do rio, o comércio é abastecido e é possível encontrar uma variedade de produtos que, naquela época, seria difícil imaginar.

Mas voltemos ao nosso peixe.

Uma canoa cheia de cheiro-verde

Naqueles tempos de maior escassez, nós mesmos, colegas da rádio, encontramos uma maneira de garantir alguns mantimentos.

Às vezes comprávamos caixas ou meias caixas de alimentos em conserva e dividíamos entre nós. Miguel Pena, Joaquim, Diniz, Luiz França e outros companheiros participavam dessas estratégias de sobrevivência cotidiana.

O povo, com seu conhecido exagero bem-humorado, dizia que a situação às vezes ficava tão difícil que, se uma lata de sardinha caísse no rio, os cachorros mergulhavam para buscá-la.

Era a maneira divertida de contar uma realidade que, em determinados períodos, era bastante complicada.

E foi nesse cenário que me lembrei de algo.

No caminho para a rádio, eu costumava passar diante de uma casa sem muro — como tantas casas das cidades do interior naquela época. No quintal havia uma velha canoa, já aposentada da navegação, transformada numa espécie de giral.

Dentro dela, protegidas das galinhas, cresciam bonitas cebolinhas e outras ervas.

Quando ganhei o pedaço da piraíba do Diniz e percebi que não tinha tempero verde para preparar o peixe, entreguei algum dinheiro à moça que trabalhava em minha casa e pedi: — Vá até aquela senhora e veja se ela vende um pouco de cheiro-verde, cebolinha e chicória.

Ela foi.

E voltou com os temperos.

A peixada estava garantida.

Passado algum tempo, provavelmente alguns meses, surgiu novamente a necessidade. Entreguei outro valor e pedi que ela fosse à mesma casa comprar mais um pouco.

Dessa vez ela voltou com o cheiro-verde e também com um recado.

A senhora havia dito: — Diga ao seu patrão para nunca mais mandar buscar cheiro-verde aqui. Eu não quero vender. Isso é para o consumo da minha família.

Confesso que fiquei surpreso.

Pensei comigo mesmo: — Meu Deus, como pode?

Com o passar do tempo, entretanto, compreendi melhor aquela atitude. Em períodos de escassez, as pessoas aprendem a proteger aquilo que têm. A senhora provavelmente sabia que sua pequena produção precisava garantir o abastecimento da própria família.

Mas aquela negativa ficou guardada na minha cabeça.

Até que, certo dia, ela encontrou o Projeto Rondon.

Uma conversa na Rádio Nacional

Eu estava na Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira, apresentando um programa na tarde, quando me avisaram que havia professores do Projeto Rondon na recepção querendo um espaço para falar na rádio.

Recebi nos estúdios os professores Fernando e Ademir, integrantes de um grupo vindo de Recife. Eram profissionais e formandos de diferentes áreas, que estavam em São Gabriel realizando atividades de pesquisa e levando informações que pudessem contribuir com a população.

Começamos a conversar.

Em determinado momento, contei a eles a história do cheiro-verde. Eles acharam a situação inusitada e comentaram que também haviam percebido a dificuldade.

Tinham ido ao mercado e praticamente não encontraram produtos.

Expliquei então a questão da sazonalidade, as dificuldades de navegação e os períodos em que o abastecimento da cidade se tornava mais complicado.

Foi quando surgiu uma pergunta: Por que não criar o embrião de uma feira?

Talvez os produtores das comunidades não tivessem grandes quantidades para comercializar. Mas poderiam ter algumas frutas, alguns cachos de banana, meia saca de laranja, três ou quatro melancias.

Pouco para um grande comércio.

Mas muito para quem não encontrava nada.

Aquela conversa saiu do estúdio da rádio e chegou à Prefeitura.

A ideia encontra o prefeito

Marcamos uma reunião com o então prefeito de São Gabriel da Cachoeira, Antônio Evangelista, que havia assumido a administração municipal no lugar de Dagoberto Pinder de Albuquerque.

Apresentamos a ideia.

Evangelista comprou a proposta de imediato.

A logística imaginada aproveitaria justamente aquilo que São Gabriel sempre teve como uma de suas grandes vias de integração: o rio.

Um barco atenderia as comunidades de um lado, outro seguiria em direção às comunidades situadas a montante. Os comunitários seriam transportados até a cidade trazendo aquilo que tivessem disponível para comercializar.

Não importava a quantidade de produtos.

Quem tivesse três melancias, traria três melancias.

Quem tivesse algumas laranjas, traria as laranjas.

Quem tivesse cachos de banana, levaria as bananas.

E assim começou.

A rua virou feira

A Prefeitura definiu um trecho de rua para receber os comunitários.

Lembro-me daquele espaço próximo às casas de famílias conhecidas da cidade, passando pela residência da juíza, do Zé Nogueira, da professora Araci Coimbra e de tantos outros amigos daquela São Gabriel que permanece viva na minha memória.

Os comunitários chegavam.

Muitos simplesmente se sentavam no meio-fio e colocavam diante de si os produtos que haviam trazido das comunidades.

E a rádio fazia aquilo que o rádio sabe fazer tão bem: chamar o povo.

A cidade começou a criar o hábito de ir à feira.

As pessoas chegavam, caminhavam pela rua, encontravam os produtores, compravam frutas, verduras e aquilo que estivesse disponível.

Era uma festa.

Mas havia algo ainda mais interessante acontecendo.

Os comunitários vendiam seus produtos e, agora com dinheiro no bolso, seguiam para o comércio da cidade.

Compravam aquilo de que necessitavam para levar de volta às suas comunidades.

O dinheiro começou a circular.

O produtor vendia.

O morador comprava.

O comerciante também vendia.

A cidade se movimentava.

Terminada a feira e feitas as compras, os comunitários retornavam aos barcos e seguiam de volta para suas localidades.

Era um ciclo simples.

Mas extraordinariamente vivo.

A força das pequenas iniciativas

Guardo essa experiência com enorme carinho.

E, olhando tantos anos depois, não deixa de ser curioso perceber como algumas iniciativas começam.

Não houve um grande estudo econômico.

Não houve uma sofisticada pesquisa de mercado.

Tudo começou porque o Diniz pescou uma piraíba.

Deu-me um pedaço.

Eu quis fazer uma peixada.

A peixada precisava de cheiro-verde.

Uma senhora tinha uma velha canoa cheia de cebolinhas.

Na primeira vez, ela vendeu.

Na segunda, mandou dizer que não venderia mais.

A negativa ficou na minha cabeça.

Algum tempo depois, dois professores do Projeto Rondon, Fernando e Ademir, entraram nos estúdios da Rádio Nacional.

Conversamos.

Uma história encontrou uma ideia.

A ideia encontrou um prefeito disposto a ouvi-la.

O prefeito Antônio Evangelista deu o apoio necessário.

Os barcos buscaram os comunitários.

A rádio chamou a população.

E uma rua virou feira.

Talvez seja assim que muitas coisas importantes começam.

Não necessariamente com grandes projetos, mas com alguém que observa uma pequena dificuldade cotidiana e se pergunta: — Será que não podemos fazer diferente?

Naquela São Gabriel da Cachoeira de tantos anos atrás, uma resposta começou a ser construída entre uma velha canoa transformada em horta, os microfones da Rádio Nacional, os professores do Projeto Rondon, a decisão de um prefeito e os barcos que percorriam o Rio Negro.

E pensar que tudo começou porque faltou cheiro-verde para temperar o pedaço de piraíba que ganhei do Diniz.

E assim vamos chegando ao fim de mais uma história.

Mas não desligue o rádio da memória.

No próximo sábado, estaremos novamente por aqui, no portal O Povo Amazonense, com mais um fragmento dessa longa viagem pelas ondas do rádio, da televisão, da propaganda e da vida.

Porque há histórias que o tempo leva.

E há outras que, quando encontram quem as conte, continuam navegando.

Até o próximo sábado, se Deus quiser.

A gente se encontra na semana que vem, nesta mesma sintonia.

Um abraço deste radialista apaixonado pelas ondas sonoras.

(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.

Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.

Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.

É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.

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