
A briga pública entre a apresentadora Luana Piovani e o surfista Pedro Scooby evidencia os riscos de usar a internet para tratar de problemas familiares. A confusão começou após os gêmeos Bem e Liz, de 10 anos, retornarem das férias com o pai no Brasil.
Por meio das redes sociais, a mãe reclamou que a menina estava com piolhos, enquanto o menino apresentava ferimentos e picadas de insetos nas pernas.
A queixa colocou os filhos, frutos de um relacionamento de oito anos, no centro de uma discussão diante de milhares de seguidores e demonstrou os prejuízos emocionais de expor a criação compartilhada no ambiente digital.
O peso da disputa
Para compreender os efeitos dessa exposição, a psicóloga Cláudia Melo analisa como os desentendimentos entre os responsáveis atingem diretamente o desenvolvimento infantojuvenil. A especialista alerta que os filhos não são meros espectadores da briga, pois vivenciam a tensão de forma profunda no cotidiano.
“Dependendo da idade, pode sentir medo, ansiedade, insegurança, raiva e até culpa, como tivesse responsabilidade pelo o que está acontecendo”, explicou Cláudia Melo.
A situação agrava o chamado conflito de lealdade, um dilema doloroso durante a infância. A criança passa a questionar se demonstrar afeto por um genitor significa magoar ou trair o outro responsável.
“Nenhuma criança deveria precisar escolher emocionalmente entre duas pessoas que ama”, ressaltou a psicóloga ao lembrar que o vínculo da criança com o pai e a mãe precisa ser preservado independentemente do fim da conjugalidade.
Assunto de adulto
As divergências sobre os métodos de criação devem permanecer restritas ao universo adulto. A tentativa de usar os filhos como intermediários para mandar recados ou investigar a rotina na outra casa gera uma carga emocional indevida e afeta o desenvolvimento saudável.
“A criança não deve ser mensageira, mediadora, testemunha ou fonte de informação sobre a vida do outro. Frases como fala para o seu pai, pergunta para sua mãe ou me conta o que acontece na casa dele colocam o filho em uma função que não é dele”, defendeu a especialista.
O fim do casamento, oficializado por Scooby e Piovani em 2019, não anula as responsabilidades parentais. O ex-casal precisa estabelecer acordos claros, comunicação objetiva e limites previsíveis em prol do bem-estar dos gêmeos. Quando os adultos deixam de focar em quem tem razão e passam a priorizar as necessidades do filho, o cenário de disputa perde a força e alivia a pressão sobre as crianças.
O tribunal da internet
A principal diferença no caso de figuras públicas é a proporção que o embate ganha ao sair do espaço privado. As publicações nas plataformas digitais atraem comentários, julgamentos e compartilhamentos que criam uma memória virtual permanente.
Esse ambiente afeta o convívio social das crianças, que podem sofrer constrangimentos na escola e diante dos amigos ao verem uma intimidade revelada sem o próprio consentimento.
A superexposição familiar retira o direito à privacidade de indivíduos em plena fase de formação. Diante do impulso de publicar queixas virtuais, os pais precisam avaliar o peso e as consequências dessas atitudes em longo prazo.
“Antes de publicar algo sobre o outro genitor ou responsável, talvez seja importante fazer uma pergunta muito simples de como meu filho se sentiria lendo isso hoje ou daqui a alguns anos”, concluiu Cláudia Melo.










