
Por Moisaniel Filho (*)
Como radialista apaixonado que sou, relembro como algumas histórias ficam gravadas na memória não pelo que aconteceu durante uma entrevista, mas pelo que podemos aprender depois dela.
Olá, meus amigos do canal “Fragmentos de Memórias em AM e FM”. Tudo bem com vocês?
Muito obrigado por acompanharem os relatos que venho compartilhando sobre minha trajetória no rádio: os causos, os desafios, as situações engraçadas, os erros e os acertos que marcaram minha caminhada.
Antes de começar esta história, faço apenas um esclarecimento. Em alguns relatos citarei nomes e, eventualmente, apelidos pelos quais determinadas pessoas eram conhecidas nas cidades onde vivi. Não há qualquer intenção de ofender, constranger ou diminuir ninguém. Pelo contrário. Todos os nomes aqui mencionados fazem parte da minha história e são lembrados com respeito e gratidão.
Início nos anos oitenta

Voltemos ao início da década de 1980.
Naquele tempo, eu trabalhava na Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira e exercia praticamente todas as funções possíveis. Era repórter, operador de áudio, operador de transmissores e ainda fazia reportagens externas. Costumo dizer que era um verdadeiro “Severino”: fazia de tudo um pouco.
Hoje percebo o quanto isso contribuiu para minha formação profissional. Toda missão que surgia eu aceitaba. Às vezes com medo, às vezes inseguro, mas sempre disposto a aprender.
Desafio ao vivo
Numa manhã, chegaram à emissora duas personalidades importantes, acompanhadas pelo então prefeito Antônio Evangelista. Eram o artista plástico Inácio Evangelista e o advogado criminalista Dr. Roberto Alexandre, que visitavam a cidade para lançar um livro.
Nosso gerente era o saudoso Reginaldo Araújo.
Ao vê-los chegar, ele organizou uma entrevista ao vivo e decidiu dividir as conversas:
— Eu entrevisto o Inácio. Você entrevista o Dr. Roberto Alexandre.
Confesso que senti um frio na barriga.
O Dr. Roberto era um advogado muito respeitado e conhecido pela firmeza com que defendia seus clientes. Sua capacidade de argumentação impressionava qualquer pessoa.
O livro que lançava tratava do famoso “Caso Café”, um episódio que, naquela época, ocupava espaço nos jornais e despertava grande interesse em todo o Amazonas. O Dr. Roberto havia atuado na defesa do acusado.
A pergunta direta
Peguei rapidamente o livro, folheei algumas páginas e formulei uma pergunta de improviso.
Desde muito jovem eu era apaixonado por histórias policiais, investigação criminal e literatura. Lia tudo o que encontrava pela frente. Quando não havia livros em casa, recorria aos sebos para trocar exemplares. Lia romances, revistas, histórias em quadrinhos, bulas de remédio… qualquer texto servia para alimentar minha curiosidade.
Sem televisão em casa, o rádio e os livros eram meus grandes companheiros.
Foi dessa bagagem que nasceu a pergunta:
— Doutor Roberto, qual é o principal objetivo deste livro? Apenas divulgar um fato? Obter retorno financeiro com a publicação? Ou provocar uma reflexão da sociedade sobre uma possível injustiça?
Bastou abrir o microfone.
O Dr. Roberto respondeu com enorme entusiasmo. Argumentava com firmeza, gesticulava, batia levemente na mesa enquanto explicava que jamais escrevera aquele livro pensando em dinheiro. Seu verdadeiro objetivo era provocar uma reflexão sobre a Justiça e sobre a forma como determinados fatos eram julgados pela sociedade.
Enquanto isso, ao meu lado, o Reginaldo conduzia tranquilamente uma conversa sobre arte e pintura com Inácio Evangelista.
Quando a entrevista terminou, o Reginaldo me chamou discretamente:
— Rapaz… o que foi que tu fizeste? Como é que faz uma pergunta dessas para um advogado daquele? Devia ter sido mais manso…
Respondi apenas:
— Fiz a pergunta que achei correta.
Refletindo a escolha
Depois fiquei pensando se ele não tinha razão.
Talvez tivesse sido melhor inverter as entrevistas.
Meu pai era artista plástico, falava inglês e espanhol, expôs seus quadros na Biblioteca Pública de Manaus e chegou a receber convite para expor na França. Também era radiotelegrafista de voo e apaixonado pela cultura.
Naturalmente, cresci cercado pela arte. Sempre gostei de pintura a óleo sobre tela utilizando espátula. Talvez conversar com Inácio Evangelista tivesse sido muito mais confortável para mim.
Mas o destino escolheu outro caminho.
Recebi justamente a entrevista que mais me intimidava e, ao final, ainda saí convencido de que talvez tivesse cometido um erro.
Durante muito tempo carreguei essa dúvida.
O reencontro inesperado
Algum tempo depois, o Dr. Roberto Alexandre voltou a São Gabriel da Cachoeira para lançar seu segundo livro. Aproveitei a oportunidade para procurá-lo:
— Doutor, quero lhe pedir desculpas, caso eu tenha sido grosseiro naquela entrevista. Minha intenção nunca foi desrespeitá-lo.
Ele sorriu e respondeu:
— “Moiza”, eu gostei muito da pergunta que você fez. Você foi direto, objetivo e assertivo. Você me deu a oportunidade de construir uma resposta, de explicar o assunto e, ao mesmo tempo, mostrar a minha indignação. Foi uma pergunta sem rodeios, diferente de muitas outras feitas por quem tem receio de me desagradar.
Aquelas palavras me marcaram profundamente.
Homenagem no livro

Algum tempo depois recebi outra demonstração de carinho.
O Dr. Roberto contou que eu havia me tornado personagem de seu livro “Culpado ou Inocente”. Na obra, ele também prestava homenagens a importantes personalidades de São Gabriel da Cachoeira, entre elas o prefeito Antônio Evangelista e o senhor Luizinho, ao lado de dona Nevinha, proprietários de um dos restaurantes mais tradicionais da cidade.
Senti-me profundamente honrado.
Em determinado trecho do livro, o autor recriou um diálogo entre nós durante uma de suas passagens por São Gabriel da Cachoeira. Ver meu nome registrado em uma obra escrita por um dos mais respeitados advogados criminalistas do Amazonas foi uma emoção difícil de colocar em palavras.
Uma valiosa lição
Aquela experiência me deixou uma lição que nunca mais esqueci.
Muitas vezes, o medo nasce apenas daquilo que imaginamos. Criamos obstáculos que, na realidade, não existem.
Naquele dia, a falta de experiência me levou a fazer uma pergunta simples, direta e objetiva. E foi justamente essa simplicidade que abriu espaço para uma conversa franca, respeitosa e enriquecedora.
Aprendi que objetividade não significa grosseria.
É possível ser firme sem perder a delicadeza, falar com clareza sem abrir mão do respeito e exercer a coragem sem abandonar a ternura no trato com as pessoas.
Essa talvez tenha sido uma das mais valiosas lições que o rádio me ensinou.
(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.
Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.
Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.
É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.





