Moisaniel Filho “A lambada que me fez comprar um Jeep… e depois vendê-lo”

“A lambada que me fez comprar um Jeep… e depois vendê-lo”

Por Moisaniel Filho (*)

Alô, alô, meus amigos! Alô, minhas amigas!

Está começando mais um encontro com as nossas Memórias em AM e FM, o espaço onde revivemos histórias marcantes do rádio, da Amazônia e da vida.

Eu sou Moisaniel Filho e convido você a viajar comigo por lembranças que o tempo não conseguiu apagar.

A história de hoje tem um título curioso: “A lambada que me fez comprar um Jeep… e depois vendê-lo.”

Prepare-se, porque essa é uma daquelas histórias em que tudo parecia dar certo… até que a vida resolveu mudar o roteiro.

Então, aumente o volume, acomode-se bem e venha comigo.

Vamos mergulhar de cabeça em mais uma página das Memórias em AM e FM.

Músicas em alta na cidade

No início da década de 1980, São Gabriel da Cachoeira vivia embalada por um ritmo que conquistava corações e salões de dança: a lambada. Ela dominava a programação da Rádio Nacional, animava os forrós do Pernambuco, do Euclides, o tradicional Clube da Viúva e praticamente todas as festas da cidade.

Foi nesse cenário que o gerente da emissora, Gilberto Martins, havia ido à Manaus e, na volta, trouxe um novo disco, colocou para tocar na programação da emissora e rapidamente virou febre entre os ouvintes. Era o LP do guitarrista Oséias, conhecido como Oséias e Sua Guitarra Maravilhosa. Bastaram algumas execuções para que o telefone da rádio começasse a tocar sem parar. Quem não tinha telefone envia cartinha pedindo e oferecendo o novo sucesso. O público queria ouvir aquelas músicas repetidas vezes.

Gilberto então me lançou um desafio:

— “Por que você não traz o Oséias para fazer um show em São Gabriel?” — sugeriu Gilberto Martins.

A ideia parecia ousada para um jovem radialista que ainda dava seus primeiros passos, mas aceitei o desafio.

Aproveitei uma carona em um avião da FAB e fui até Manaus negociar diretamente com o artista.

Encontramo-nos durante um intervalo de uma apresentação no bairro dos Educandos. Conversamos longamente e descobri um músico simples, acessível e animado com a possibilidade de conhecer São Gabriel da Cachoeira. Fiz as contas, vi que a contratação era financeiramente possível e comecei a organizar aquele que seria um dos maiores eventos musicais da cidade.

Consegui alugar o ginásio da Prelazia, organizei a divulgação na Rádio Nacional, contei com o apoio irrestrito de Gilberto Martins e dos colegas locutores, e a expectativa cresceu rapidamente.

Quando Oséias chegou, fizemos questão de levá-lo primeiro aos estúdios da rádio. A entrevista aproximou ainda mais o artista do público, aumentando a ansiedade para a apresentação.

Sucesso e o Jeep amarelo

Na noite do espetáculo, acompanhado pelo conjunto musical Superstar — formado por Damião no baixo, Erivelto (Neguinho) e Nivaldo Gonçalves nas guitarras e Cati na bateria —, Oséias realizou um show memorável.

O sucesso foi absoluto.

Em determinado momento, a pessoa responsável pela bilheteria aproximou-se desesperada:

— “Não tenho mais onde guardar tanto dinheiro!” — alertou a bilheteira.

Foi preciso pedir ajuda ao amigo Cizinho, do Bazar Fortaleza, sempre disposto em ajudar, que trouxe várias caixas de sapato para acomodar toda a arrecadação.

Ao final da festa, saí carregando quatro caixas ou mais cheias de dinheiro.

Na volta para casa, aceitei uma carona do amigo conhecido como Paladino, irmão do saudoso comerciante Quirino. Durante o trajeto, ele perguntou por que eu ainda estava sem automóvel.

Minutos depois, estávamos negociando o jipe amarelo que ele dirigia.

Naquela mesma madrugada, o veículo já estava estacionado na porta da minha casa.

O sucesso do show foi tão grande que, no dia seguinte, o então prefeito Antônio Evangelista propôs que a apresentação fosse repetida no domingo. A Prefeitura patrocinaria o evento para que toda a população pudesse assistir gratuitamente. Com mais esta negociação ganhei um pouco mais de dinheiro. Fiquei radiante.

Voltamos a conversar com a Prelazia, que autorizou a utilização do ginásio logo após a missa das sete da noite.

Foi outro enorme sucesso.

O ginásio ficou completamente lotado. Famílias inteiras compareceram. A cidade viveu um daqueles momentos raros em que praticamente todos compartilhavam a mesma alegria.

Durante semanas, São Gabriel não falava de outro assunto.

Um imprevisto no segundo show

Naturalmente começaram os pedidos para uma nova apresentação.

Dois meses depois, organizei o retorno de Oséias.

Desta vez, o show seria no tradicional Clube da Viúva, em um ambiente perfeito para que todos pudessem dançar.

Recebi o artista no aeroporto, acomodei-o no hotel e deixei tudo preparado para a apresentação daquela noite.

Foi então que surgiu o imprevisto.

Por volta das oito horas da noite, alguém chegou correndo para avisar:

— “O cantor está lá na praia, tocando, bebendo e conversando com o pessoal.” — avisou o interlocutor.

Fui imediatamente ao local.

Encontrou uma roda de admiradores em clima de festa, e Oséias já havia exagerado na bebida.

Conversei com ele com toda a sinceridade possível. Expliquei que aquela exposição antes do espetáculo diminuía a expectativa do público e, principalmente, que ele precisava descansar para o show.

Ele concordou e voltou para o hotel.

Mas já era tarde.

Quando subiu ao palco, a bebida havia comprometido completamente sua apresentação.

A diferença para o primeiro espetáculo era evidente.

Algumas pessoas continuaram dançando e se divertindo, mas outras ficaram profundamente decepcionadas. Houve quem exigisse o dinheiro do ingresso de volta.

Para preservar meu compromisso com o público, devolvi o valor solicitado àqueles que insistiram.

Prejuízo e venda do veículo

Terminada a festa, comecei pagando o conjunto musical, o hotel, a alimentação e o cachê.

Somente então fiz o fechamento geral das contas.

Foi quando descobri que o dinheiro arrecadado não era suficiente para cobrir todos os compromissos. Ainda faltavam: a passagem aérea e todas as demais despesas.

A solução foi dolorosa.

Precisei vender justamente o Jeep que havia comprado graças ao sucesso do primeiro show.

No fim das contas, fiquei sem o dinheiro e sem o carro.

Durante algum tempo, aquela lembrança trouxe mais frustração do que alegria.

Hoje, porém, olho para essa história com serenidade. Ela me ensinou que produzir espetáculos exige muito mais do que entusiasmo. Exige planejamento, responsabilidade e a consciência de que nem tudo depende de nós.

Depois dessa experiência, nunca mais me aventurei a organizar shows.

Quem vive desse ramo conhece bem as alegrias e os dissabores que acompanham cada apresentação.

No meu caso, a lambada me deu um grande sucesso, um Jeep seminovo… e, pouco tempo depois, levou os dois embora.

E, nesse baile da vida, confesso: dessa vez fui eu quem acabou dançando a lambada maravilhoso.

Encerramento

Bem, meus amigos e minhas amigas, por hoje é só!

Espero que vocês tenham gostado da história de hoje e se divertido comigo nessa aventura em que um show me permitiu comprar um Jeep… e outro show, com o mesmo artista, acabou me obrigando a vendê-lo para honrar todos os compromissos: pagar o hotel, a alimentação, as passagens e garantir que tudo terminasse da forma correta.

A vida tem dessas coisas. Às vezes ela nos presenteia com grandes vitórias; outras vezes nos oferece valiosas lições. E, olhando para trás, posso dizer que todas elas valeram a pena.

Muito obrigado pela sua companhia até aqui.

Nosso próximo encontro já tem dia e hora marcados: no próximo sábado, aqui, no canal O Povo Amazonense, com mais uma história das Memórias em AM e FM.

Se você gostou deste episódio, curta, comente e compartilhe com seus amigos. Assim, você nos ajuda a preservar essas histórias do rádio, da Amazônia e de um tempo que merece ser lembrado.

Eu sou Moisaniel Filho.

Um forte abraço fique com Deus e até o nosso próximo sábado!

(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.

Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.

Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.

É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.

1 COMENTÁRIO

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.