
Por Moisaniel Filho (*)
São Gabriel da Cachoeira sempre foi uma cidade rica em personagens inesquecíveis. Pessoas simples, autênticas e cheias de histórias que, de tão marcantes, acabaram fazendo parte da memória coletiva de quem viveu por lá. Lembro-me do Surucucu, que atravessava ruas de olhos fechados, Maria do Pezão, soldado Placrácio, Jeriqueiro e tantos outros, cujos nomes verdadeiros eu nunca soube ao certo.
Hoje quero recordar um desses personagens: o inesquecível Coronel Chico Maneta.

Era assim que ele próprio gostava de se apresentar.
Morava no tradicional bairro da Praia e já era um senhor de idade. Chamava a atenção por uma característica física muito marcante: faltava-lhe um dos braços. Mas quem imaginasse encontrar um homem fragilizado se enganava completamente.
Antes mesmo de falar dele, vale a pena falar do lugar onde vivia.
Sua casa ocupava um dos pontos mais privilegiados de São Gabriel da Cachoeira. Da porta de sua residência, a paisagem parecia um cartão-postal.
À frente corria o majestoso Rio Negro, com suas águas escuras contrastando com as praias de areia branca, fina e brilhante como açúcar cristal. Ao fundo, a floresta amazônica abraçava as pedras e as águas revoltas da cachoeira que deu nome à cidade.
Olhando para a esquerda, via-se a famosa Bela Adormecida, conjunto de montanhas cujo contorno lembra uma mulher repousando sobre a floresta. À direita, avistava-se a ilha que divide o Rio Negro em dois braços, formando um dos cenários mais belos da região.
Ali perto também estavam o tradicional Hotel do Edmilson e, na diagonal, o Clube Palhoça, ponto de encontro dos sargentos e subtenentes que serviam na guarnição militar da cidade.
Ao lado da casa do Coronel Chico Maneta morava o senhor Borges, pai do Luiz — meu colega de trabalho na Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira —, além da Marlene, Marli, Gercina, Cacareco e Chico. Era uma vizinhança onde praticamente todos se conheciam e cultivavam relações de amizade.

Na própria casa, o Coronel Chico Maneta mantinha um pequeno comércio. Sobre as prateleiras, algumas mercadorias e, quase sempre, algumas garrafas de cachaça, que acabavam reunindo amigos para longas conversas.
O braço que lhe restava parecia reunir a força dos dois.
Mais de uma vez o vi levantar sozinho um botijão de gás cheio e carregá-lo com impressionante facilidade. Quando apertava a mão de alguém, era preciso preparo, porque sua força era realmente extraordinária.
Normalmente era um homem calado. Mas bastava tomar algumas doses de cachaça para revelar um lado divertido, irreverente e extremamente bem-humorado.
Nunca esquecerei o velho charuto sempre preso ao canto da boca.
Quando me encontrava, aproximava-se, dava uma leve cutucada com o toco do braço e perguntava:
— Moisaniel, você conhece o Chuna?
Eu respondia:
— Que Chuna?
Então ele abria um sorriso e dizia com o maior orgulho:
— O Chuna… meu filho! O Chuna é intelectuaaaal!
Alongava tanto a palavra que era impossível não rir junto com ele.
Outra marca registrada era sua admiração pela minha colega de rádio, Mercedes Alves.
Sempre que me via, fazia praticamente a mesma pergunta:
— Moisaniel… cadê a Mercedes Alves?
Era uma figura extraordinária.
Havia também muitas histórias que circulavam pela cidade a seu respeito. Uma delas contava que, depois de uma confusão provocada pela bebida, teria sido levado à presença da juíza da comarca.
Nunca soube se o episódio aconteceu exatamente daquela forma, mas era uma história repetida por muita gente.
Segundo esse relato, a juíza perguntou:
— O senhor sabe com quem está falando?
Sem perder a pose, ele respondeu:
— E a senhora sabe com quem está falando? Está falando com o Coronel Chico Maneta, o homem mais ruim que a morte de matar jumento!
Era bem o seu estilo.
Outra expressão inesquecível aparecia sempre que desconfiava de alguma coisa:
— Araque… isso é de araque!
Era impossível conviver com o Coronel Chico Maneta sem colecionar boas lembranças.
Por trás do jeito irreverente existia um homem trabalhador, conhecido e respeitado por todos. Sua limitação física jamais diminuiu sua disposição para o trabalho nem sua alegria de viver.
Hoje, ao recordar sua figura, não desejo apenas contar uma história engraçada.
Quero prestar homenagem a um personagem que ajudou a construir a identidade de São Gabriel da Cachoeira.
As cidades também são feitas dessas pessoas simples que, sem ocupar cargos importantes nem aparecer nos livros de História, acabam se tornando inesquecíveis para quem teve o privilégio de conhecê-las.
O Coronel Chico Maneta foi uma delas.
Enquanto houver alguém para contar essas histórias, ele continuará caminhando pelas ruas do bairro da Praia, contemplando as águas escuras do Rio Negro, a Bela Adormecida, a cachoeira que deu nome à cidade e recebendo os amigos com um charuto no canto da boca, uma boa conversa e seu jeito irreverente de encarar a vida.
Assim permanecem vivos os verdadeiros personagens de São Gabriel da Cachoeira: não apenas nas fotografias antigas, mas, sobretudo, na memória e no coração daqueles que tiveram a felicidade de conhecê-los.
(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.
Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.
Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.
É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.





