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Armínio Fraga vê economia brasileira em situação “desastrosa” e alerta para risco de recessão

Armínio Fraga - Foto: Divulgação

Por Nico Valente

Um dos economistas mais respeitados do Brasil e com reconhecida influência nos principais centros financeiros do mundo, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga fez um dos diagnósticos mais duros sobre a economia brasileira desde o início do terceiro mandato do presidente Lula.

Em entrevista à revista Veja, Fraga classificou o cenário econômico nacional como “desastroso” e afirmou que o País reúne hoje diversos sinais que costumam anteceder períodos de forte desaceleração econômica, incluindo o aumento da inadimplência, dificuldades no mercado de crédito, juros elevados e deterioração das contas públicas.

A avaliação ganha peso pelo histórico do economista. Além de comandar o Banco Central durante o governo Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga é fundador da Gávea Investimentos e mantém amplo reconhecimento internacional. Recentemente, foi convidado por Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, para coordenar um grupo de trabalho responsável por revisar a comunicação da autoridade monetária norte-americana, reforçando sua influência no debate econômico global.

Na entrevista, Fraga afirma que os indicadores de emprego e crescimento observados nos últimos anos não escondem problemas estruturais cada vez mais graves.

Segundo ele, a taxa de investimento permanece insuficiente para sustentar um crescimento de longo prazo e a política fiscal adotada pelo governo agravou as vulnerabilidades da economia.

O economista sustenta que o arcabouço fiscal perdeu credibilidade logo no início de sua implementação e compara a economia brasileira a um paciente com “febre alta”, representada pelos juros elevados exigidos pelo mercado para financiar a dívida pública.

Sinal vermelho aceso

Outro ponto destacado por Armínio Fraga é o aumento das dificuldades no mercado de crédito. Ele lembra que mais de 80 milhões de brasileiros estão inadimplentes e afirma que muitas empresas enfrentam obstáculos para renovar seus financiamentos. Segundo o economista, até mesmo a estratégia do governo de reduzir o prazo médio de sua dívida demonstra o grau de preocupação existente entre investidores.

Para Fraga, esse conjunto de fatores aumenta significativamente o risco de deterioração econômica nos próximos anos.

O ex-presidente do Banco Central também admite trabalhar com a possibilidade de uma recessão em 2027.

Segundo ele, empresas e famílias devem evitar novos endividamentos e preservar liquidez diante do ambiente econômico considerado cada vez mais desafiador.

Na avaliação do economista, o elevado custo do crédito transforma empréstimos em soluções temporárias que podem agravar ainda mais a situação financeira de pessoas e empresas.

Críticas aos gastos públicos

Fraga atribui boa parte das dificuldades ao crescimento contínuo das despesas públicas e diz que o Brasil deixou de realizar reformas estruturais capazes de melhorar a produtividade e controlar o avanço da dívida.

Ele defende uma ampla revisão dos gastos obrigatórios, dos benefícios fiscais e da qualidade do Estado, sustentando que o país precisa recuperar disciplina fiscal para voltar a crescer de forma sustentável.

Ao resumir seu diagnóstico, foi enfático: “O Brasil precisa passar por uma boa peneirada, porque o quadro geral é desastroso. Uma verdadeira vergonha”.

Embora faça críticas contundentes ao governo Lula, Armínio Fraga também responsabiliza o ambiente político pela dificuldade de aprovação das reformas necessárias.

Conforme ele, Executivo e Legislativo precisam assumir conjuntamente a responsabilidade pelo ajuste das contas públicas, enquanto o Judiciário também deve rever privilégios que considera eticamente injustificáveis.

Para o economista, o desafio brasileiro deixou de ser apenas técnico e passou a ser essencialmente político, exigindo capacidade de negociação e compromisso institucional para recolocar a economia em trajetória de crescimento sustentável.

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