
Por Moisaniel Filho (*)
Quem viveu em São Gabriel da Cachoeira nos anos 1980 certamente se lembra de que a turma da Rádio Nacional era, acima de tudo, uma família. Trabalhávamos muito, mas também sabíamos transformar qualquer situação em motivo de alegria.
Entre os personagens inesquecíveis daquela época estava Adolfo, técnico da Radiobrás. Além de excelente profissional, era apaixonado por cães de raça. Foi dele que comprei uma cadela chamada Luna, registrada no Kennel Club de Brasília, pouco antes de sua volta para a capital.
Adolfo tinha como grande parceiro o Diniz, nosso auxiliar técnico. Corajoso como poucos, era ele quem subia a torre de aproximadamente oitenta metros da emissora para trocar a lâmpada de sinalização instalada no topo. Só de olhar já dava um frio na barra. Enquanto nós gritávamos desesperados para que voltasse para dentro da estrutura da torre, ele descia sorrindo, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Mas, se havia uma característica marcante do Diniz, era sua paixão pelos escambos. Em São Gabriel, trocar objetos fazia parte da cultura local. Carro virava porco, moto virava outro bem qualquer, e ninguém estranhava. Tudo dependia de uma boa conversa.
Foi assim que nasceu uma das histórias mais divertidas da cidade.

Depois de algumas cervejas, Diniz e Adolfo resolveram negociar um pequeno quiosque de madeira que havia sido construído ao lado da casa de Adolfo. O terreno era bastante inclinado e, por isso, cada perna do quiosque tinha um tamanho diferente, acompanhando a topografia do local.
Negócio fechado.
No dia seguinte, organizou-se uma verdadeira operação de guerra para transportar a construção. Serramos os pés, conseguimos colocá-la sobre um caminhão e seguimos para a casa do Diniz, em frente aos Correios de São Gabriel.
Foi então que começou o espetáculo.
Ao tentar instalar o quiosque num terreno plano, descobrimos que ele simplesmente não queria ficar em pé. Cortava-se uma perna, aumentava-se um calço, mudava-se de posição… nada resolvia. Parecia que quanto mais tentávamos acertar, mais torto ele ficava.
Ali estavam reunidos os “engenheiros” mais criativos de São Gabriel. Brincávamos dizendo que nem mesmo os engenheiros da NASA conseguiriam colocar aquele quiosque no prumo. Foi uma missão hercúlea… e completamente inglória.

Ideia do boteco
Apesar da aparência desajeitada, surgiu uma ideia melhor ainda: transformar o quiosque num pequeno boteco. Colocar algumas mesas, música ao vivo e fazer dali um ponto de encontro dos amigos.
Faltava apenas escolher o nome.
Em meio às brincadeiras, alguém — creio que o capitão médico Jarbas, com a ajuda do sempre bem-humorado capitão Aureliano — olhou para aquela construção torta e decretou:
— Já sei! O nome disso aqui vai ser Skulaxo!
E não poderia haver nome mais apropriado e escrito assim mesmo!
Fiquei encarregado de pintar a placa. Inspirei-me numa ilustração que existia na capa de um velho disco usado como trilha na rádio: desenhei uma bota de bico arrebitado, uma lata cilíndrica de conserva aberta e um gato. A placa ficou tão irreverente quanto o próprio boteco.
Nascia, assim, o famoso Skulaxo.
Em pouco tempo, tornou-se o principal ponto de encontro das noites de sexta-feira em São Gabriel da Cachoeira. Ali se reunia gente de todas as profissões e classes sociais. A boa música ficava por conta de Erivelto Coimbra, o nosso querido Neguinho, acompanhado por Damião, Nivaldo Gonçalves e, se a memória não me trai, também pelo baterista Kati.
Ninguém tocava por dinheiro. O cachê era quase simbólico. Tocavam pelo prazer de estar entre amigos, de fazer música e de dar vida às noites daquela pequena cidade amazônica.
Hoje, quando recordamos aqueles tempos, percebemos que o Skulaxo nunca foi apenas um boteco de madeira torto. Foi um lugar onde a amizade era mais importante que a aparência, onde as gargalhadas valiam mais do que qualquer decoração sofisticada e onde aprendemos que, muitas vezes, são justamente as imperfeições que tornam uma história inesquecível.
O Skulaxo entrou para a memória afetiva de São Gabriel da Cachoeira. E, felizmente, também para a minha.
(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.
Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.
Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.
É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.







