Moisaniel Filho Meu primeiro grande mico no rádio

Meu primeiro grande mico no rádio

Por Moisaniel Filho (*)

Meu primeiro grande mico no rádio aconteceu diante de toda uma cidade.

Não foi por falha técnica. Também não foi por nervosismo. Aconteceu por um motivo muito mais simples: eu não entendia absolutamente nada de futebol.

Até hoje, quando me lembro daquele episódio, dou boas risadas. Na época, porém, eu queria que o chão se abrisse debaixo dos meus pés. O mais curioso é que esse vexame aconteceu justamente na primeira transmissão esportiva da história da Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira.

A história começou pouco tempo depois da chegada do novo gerente da emissora, Gilberto Martins, vindo de Brasília. Atento aos anseios da população, ele percebeu que a rádio precisava aproximar-se ainda mais dos ouvintes. E havia um pedido recorrente nas ruas: transmitir os jogos do Campeonato de Futebol de São Gabriel da Cachoeira.

A ideia foi aprovada imediatamente.

Desafio na Amazônia

Nosso colega Luiz dos Santos França, operador de transmissores e apaixonado por futebol, assumiu a narração. Tinha talento, segurança e uma voz que combinava perfeitamente com o esporte. Gilberto Martins ficou responsável pelos comentários, acompanhado por outro integrante da equipe.

Mas havia um enorme desafio.

Naquele tempo, São Gabriel da Cachoeira praticamente não possuía telefonia residencial. A TELAMAZON atendia poucos estabelecimentos comerciais e alguns órgãos públicos. Quem desejava telefonar para Manaus ou qualquer outra cidade precisava ir até a central telefônica, solicitar a ligação e voltar para casa para esperar. Horas depois, um funcionário avisava que a chamada havia sido completada. Só então a pessoa retornava para conversar em uma pequena cabine onde, na prática, quase todos podiam ouvir a conversa.

Era essa a realidade da comunicação na Amazônia daqueles anos. Não havia Internet, celulares e outras ferramentas tecnológicas que surgiriam a partir da década de 90.

Como transmitir um jogo de futebol sem uma linha telefônica (LP) entre o estádio e a rádio?

A solução veio graças à criatividade e ao espírito de equipe.

Linha improvisada

O 1º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC), grande parceiro da Radiobrás, cedeu centenas de metros de fio telefônico. Não eram rolos novos. Eram diversos pedaços reaproveitados.

Nosso colega José Diniz, operador de transmissores e auxiliar técnico, transformou aqueles retalhos em uma única linha, realizando dezenas de emendas cuidadosamente isoladas.

Faltavam os postes.

Foi então que entrou em cena o inesquecível Seu Lucas, vigia da emissora, responsible também pela manutenção do terreno. Homem simples, trabalhador e sempre disposto a ajudar, entrou na mata, cortou diversas estacas de madeira, abriu os buracos e instalou, uma por uma, as bases que sustentariam nossa improvisada linha de transmissão.

Naqueles dias havia ainda uma curiosidade em São Gabriel. Um loteamento espontâneo surgira nas proximidades da rádio. De um lado da estrada, todos chamavam de “Irã”; do outro, “Iraque”. Nossa fiação atravessou justamente o lado conhecido como Irã até chegar aos transmissores da emissora.

Depois de muitos testes, tudo funcionou perfeitamente.

Impedimento polêmico

Chegou o sábado.

A cidade vigilava ansiosa pela primeira transmissão.

Luiz França narrava com emoção. Gilberto comentava os lances. Eu havia sido escalado como repórter de campo.

O problema era que minha experiência com futebol resumia-se às peladas da infância.

Em determinado momento, o árbitro marcou impedimento. Houve reclamação dos jogadores. Gilberto resolveu chamar a reportagem.

— Vamos ouvir nosso repórter de campo. Moisaniel Filho, como você viu esse lance?

Sem imaginar o tamanho da resposta que estava prestes a dar, respondi com toda sinceridade:

— Olha, Gilberto… eu acho que ele não estava tão impedido assim…

Silêncio por alguns segundos.

Depois vieram as risadas.

Aprendi ali que impedimento não admite meio-termo. Ou existe, ou não existe.

Durante muito tempo fui alvo das brincadeiras dos amigos.

— E aí, Moisaniel… hoje o jogador está muito impedido ou só um pouquinho?

Fios partidos

Confesso que passei certa vergonha, mas logo aprendi a rir de mim mesmo.

Na rodada seguinte, outra surpresa.

Durante os testes, o áudio simplesmente não chegava à rádio.

Depois de verificar toda a instalação, descobrimos o problema.

As estacas de madeira haviam sido cortadas ainda verdes. Sob o forte sol da Linha do Equador, secaram rapidamente, entortaram e vergaram. Os fios, muito esticados e cheios de emendas, romperam em vários pontos.

Foi necessário reconstruir praticamente toda a linha de transmissão.

Ainda bem que realizávamos testes antes do início dos jogos.

Essa experiência me ensinou uma das maiores lições da comunicação.

No rádio, nada pode ser confiado apenas ao otimismo. É preciso testar equipamentos, cabos, microfones, energia, transmissão e retorno.

Trabalhamos sempre imaginando tudo o que pode dar errado, justamente para que, quando a luz vermelha acenda, tudo dê certo.

O ouvinte nunca conhece os bastidores. Ele apenas espera que a transmissão aconteça.

Grande lição

Hoje, olhando para trás, percebo que aquela primeira transmissão esportiva representou muito mais do que um jogo de futebol. Foi uma vitória da criatividade sobre as dificuldades, da união sobre a escassez de recursos e da dedicação de uma equipe que acreditava no poder do rádio.

Quanto ao meu famoso “não estava tão impedido assim”…

Esse ficou para sempre na memória.

E talvez tenha sido melhor assim.

Afinal, a comunicação me ensinou que ninguém nasce sabendo tudo. Existem narradores, repórteres esportivos, policiais, políticos, apresentadores, operadores, produtores… Cada área exige conhecimento, técnica e experiência.

Naquele dia eu descobri, da forma mais divertida possível, que boa vontade não substitui preparo.

Mas descobri também algo ainda mais importante: o bom comunicador não é aquele que nunca erra. É aquele que aprende com os próprios erros, ri deles quando o tempo permite e segue em frente, sempre disposto a melhorar.

Se hoje conto essa história com um sorriso no rosto, é porque ela deixou de ser motivo de vergonha para se transformar numa das lembranças mais carinhosas da minha caminhada no rádio.

(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.

Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.

Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.

É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.

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