
Por Moisaniel Filho
“Um amigo fiel é uma poderosa proteção; quem o encontrou, encontrou um tesouro.” (Eclesiástico 6:14)
Ao longo da vida conhecemos muitas pessoas. Algumas passam rapidamente, outras permanecem na lembrança. Há, porém, aquelas que deixam marcas tão profundas que se tornam parte da nossa própria história. Quando leio essa passagem das Escrituras, imediatamente me lembro de um homem que tive o privilégio de conhecer: Sérgio Moacir Fraga.
O encontro
Conheci o Sérgio em Rondônia, na segunda metade da década de 1980. Carioca, de sotaque forte e bem-humorado, transmitia a impressão de ser um brincalhão incorrigível. À primeira vista, confesso, imaginei que talvez não levasse a vida com a seriedade que uma grande empresa exigia.
Não demorou muito para perceber que eu estava completamente enganado.
Por trás daquele jeito descontraído existia um profissional extremamente competente, disciplinado e exigente. Sérgio havia estudado na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, tornando-se oficial do Exército Brasileiro e chegando ao posto de capitão. Mais tarde formou-se em Administração de Empresas, embora seu verdadeiro sonho fosse outro: trabalhar com mecânica. Assim que concluiu a faculdade, realizou esse desejo montando uma oficina mecânica no Rio de Janeiro.
O destino
Mas a vida costuma conduzir nossos caminhos para destinos que jamais imaginamos.
Convidado pelo amigo de infância Rômulo Furtado, mudou-se para Rondônia para assumir a direção de um grupo de comunicação que começava a crescer. Algum tempo depois, eu também passaria a integrar aquela equipe.
Foi ali que nasceu uma amizade construída no respeito.
O profissional

Sérgio era perfeccionista. Certa vez, durante a implantação da emissora de televisão em Cacoal, o prédio sofria constantes alagamentos. Propus construir uma barreira para impedir a entrada da água.
Ele respondeu imediatamente:
— Você não vai favelizar a minha obra.
Era uma frase típica dele.
Insisti. Expliquei que não pretendia descaracterizar o projeto, mas preservá-lo.
Ele autorizou.
A obra foi executada e o problema desapareceu definitivamente.
Quando viu o resultado, reconheceu com grandeza:
— Você somou ao projeto. Não diminuiu o que havia sido feito.
Naquele dia percebi que estava diante de um homem suficientemente seguro para reconhecer o mérito dos outros.
O crescimento
Anos mais tarde, voltei a Manaus por razões familiares. Depois retornei a Rondônia, onde reassumi funções importantes no Grupo Rondovisão. Em pouco tempo passei a responder pelas áreas comercial, operacional e de programação, enquanto Sérgio permanecia na superintendência.
Vivemos um período extraordinário.
Organizamos processos, implantamos fluxogramas, redistribuímos equipamentos entre as emissoras, recuperamos estruturas físicas, aumentamos a produtividade e a empresa voltou a crescer. Pela primeira vez em muitos anos, os investidores voltaram a receber resultados consistentes, antigos compromissos começaram a ser pagos, novos equipamentos foram adquiridos e o grupo reencontrou seu equilíbrio.
A ruptura
Infelizmente, mudanças na estrutura da família proprietária alteraram completamente aquele cenário.
Novas pessoas passaram a exercer influência na administração e, em meio a divergências profissionais, deixei a empresa de forma abrupta.
Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.
Além da despedida inesperada, ainda enfrentei uma longa disputa para receber meus direitos trabalhistas. Passei quase um ano aguardando uma solução. Quando percebi que não haveria entendimento, procurei a advogada Maísa Barbosa, profissional competente apresentada pelo próprio Sérgio.
Não tive alternativa senão recorrer à Justiça.
Foi a primeira vez que precisei mover uma ação contra uma empresa onde havia trabalhado. Espero que também seja a última.
O mais difícil não era o processo.
Era saber que, do outro lado, estava uma empresa pertencente a pessoas pelas quais eu nutria respeito e admiração.
A surpresa
Mas Deus reservava uma surpresa que jamais esquecerei.
No dia da audiência em Porto Velho, Sérgio e sua esposa, Lucinha, abriram as portas de sua casa para me receber.
Mais do que isso.
Quando chegou o momento decisivo, quem aceitou ser minha testemunha foi justamente o meu antigo superintendente.
Ele colocou sua própria posição em risco para dizer apenas a verdade.
Não fez isso por amizade cega.
Fez porque entendia que a justiça precisava prevalecer.
Naquele instante compreendi definitivamente quem era Sérgio Moacir Fraga.
A honra
Era um homem de honra.
Um homem que jamais negociava seus princípios.
Um homem cuja palavra possuía o mesmo peso de sua assinatura.
Poucas vezes encontrei alguém com tamanha firmeza de caráter. Sua formação militar certamente contribuiu para isso, mas suas maiores qualidades não estavam na farda que um dia vestiu. Estavam na honestidade, na lealdade, na dignidade e na coragem de permanecer ao lado daquilo que considerava correto, mesmo quando isso lhe custava sacrifícios.
A gratidão
Neste mês de julho, quando lembramos a data de seu aniversário, meu coração se enche de gratidão.
Agradeço a Deus por ter colocado o Sérgio em meu caminho.
Lembro-me também das palavras de Khalil Gibran, quando escreveu que o amigo é a resposta às nossas necessidades e que a amizade não existe para preencher vazios, mas para celebrar a vida e o espírito.
É exatamente isso que este texto pretende fazer.
Celebrar a vida de Sérgio Moacir Fraga.
Celebrar sua memória.
Celebrar o privilégio de ter convivido com um homem cuja grandeza não estava apenas na competência profissional, mas, sobretudo, na integridade de seu caráter.
Homens assim são raros.
E quando Deus nos permite encontrar um deles pelo caminho, compreendemos, enfim, o verdadeiro significado da passagem bíblica:
“Um amigo fiel é uma poderosa proteção; quem o encontrou, encontrou um tesouro.”







