
O avanço na medicina preventiva e o acesso ampliado a exames rápidos trouxeram um alívio inédito para a saúde pública brasileira, mas a batalha contra a transmissão vertical da sífilis ainda exige vigilância rigorosa. Diante dessa realidade, a Maternidade Dr. Moura Tapajóz (MMT) realizou um treinamento técnico voltado para o manejo da sífilis congênita.
A atividade, liderada pela infectopediatra Tyane Almeida Jardim, teve como foco atualizar médicos e coordenadores de enfermagem da unidade para otimizar os protocolos de atendimento.
A capacitação ganha relevância no cenário nacional após a publicação do Boletim Epidemiológico de Sífilis do Ministério da Saúde. O documento oficial apontou uma redução histórica nos diagnósticos da doença em recém-nascidos pela primeira vez em três anos, caindo de 27.120 ocorrências para 24.443 registros.
Embora a tendência de queda seja positiva, os números absolutos continuam elevados e revelam falhas graves na cobertura e na adesão ao tratamento durante o acompanhamento gestacional.
Prevenção no pré-natal
O combate eficaz à infecção transmitida da gestante para o bebê depende diretamente da agilidade na identificação do patógeno logo no início da gravidez. A rede pública municipal disponibiliza o teste rápido de forma gratuita em suas unidades, permitindo intervenções imediatas.
“Por essa razão, é de extrema importância seguirmos intensificando a testagem para sífilis durante o pré-natal e, em caso de resultado reagente, tratarmos imediatamente as gestantes e suas parcerias sexuais para evitar a transmissão vertical”, ressaltou Núbia Cruz, diretora da MMT.
O procedimento de triagem se destaca pela simplicidade. A coleta de apenas uma gota de sangue da ponta do dedo gera o diagnóstico em poucos minutos. Contudo, a eficiência do teste rápido esbarra em barreiras socioculturais e logísticas, já que o sucesso do tratamento requer a participação ativa das parcerias sexuais, que frequentemente recusam ou negligenciam a medicação, provocando a reinfecção da gestante.
Riscos do diagnóstico tardio
A negligência ou a demora na descoberta da infecção gera impactos severos e muitas vezes irreversíveis para a saúde do recém-nascido. Profissionais de neonatologia alertam que os danos provocados pela bactéria atingem diferentes estágios do desenvolvimento fetal.
- Ocorrência de abortos espontâneos e partos prematuros.
- Malformações congênitas graves, incluindo a perda da visão e da audição.
- Comprometimento do desenvolvimento intelectual da criança.
- Risco elevado de óbito neonatal logo após o nascimento.
“A transmissão vertical, de mãe para filho, pode acontecer durante a gestação ou na hora do parto, mas, quando há o diagnóstico precoce e o tratamento adequado, há uma diminuição significativa dos riscos para o desenvolvimento de sífilis congênita”, avaliou a pediatra neonatologista Sigrid Nascimento, gerente técnica da instituição.
Desafio do abandono terapêutico
Um dos maiores gargalos enfrentados pelas equipes de saúde dentro das maternidades é o abandono do esquema vacinal ou medicamentoso por parte das pacientes antes do término do período recomendado.
Para tentar conter os danos gerados por essa evasão, a maternidade realiza uma triagem compulsória para Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) em todas as mulheres que dão entrada em trabalho de parto.
“Muitas mulheres, por exemplo, já haviam recebido o diagnóstico, mas abandonaram o tratamento na metade, o que, apesar de complicar bastante a situação, não impede que iniciemos o tratamento na mãe e no recém-nascido”, explicou Núbia Cruz.
Esse cenário de interrupção força o sistema de saúde a adotar medidas mais complexas e onerosas após o nascimento. Quando a gestante não cumpre o protocolo terapêutico ideal na atenção básica, o recém-nascido precisa permanecer internado na maternidade para receber medicação injetável e monitoramento clínico contínuo, além de demandar um acompanhamento ambulatorial rigoroso e especializado durante os primeiros meses de vida.
A redução dos índices nacionais é louvável, mas a erradicação da sífilis congênita só será alcançada quando a eficiência do atendimento em ambiente hospitalar for combinada com uma busca ativa e consciente na assistência pré-natal.
Fonte: ASCOM | Marcella Normando/Semsa










