Saúde Transtornos alimentares afetam milhões de pessoas e sinais muitas vezes passam despercebidos

Transtornos alimentares afetam milhões de pessoas e sinais muitas vezes passam despercebidos

Foto: Magnifi

A relação com a comida e com o próprio corpo pode se transformar em um sofrimento invisível para milhões de pessoas. O prato de refeição, que deveria representar nutrição e bem-estar, muitas vezes vira o centro de uma batalha psicológica complexa. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que mais de 70 milhões de pessoas vivem com algum transtorno alimentar no mundo. No Brasil, as estimativas indicam que cerca de 11 milhões de indivíduos enfrentam esse tipo de distúrbio.

Para jogar luz sobre o tema, este dia 2 de junho marca o Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares. A data, criada em 2015 pela Academy for Eating Disorders, busca quebrar preconceitos, divulgar informações com base científica e alertar as famílias sobre a necessidade do diagnóstico precoce.

Ciclos de sofrimento

A ciência médica classifica os transtornos alimentares como doenças psiquiátricas graves e multifatoriais, que envolvem componentes biológicos, psicológicos e pressões socioculturais. Eles se caracterizam por modificações severas e persistentes no comportamento alimentar, prejudicando a saúde física, o controle emocional e o convívio social.

Os tipos mais diagnosticados nas clínicas médicas apresentam características específicas:

  • Anorexia nervosa: Caracteriza-se pela restrição alimentar extrema, medo severo de engordar e uma forte distorção da imagem corporal. O paciente se enxerga com excesso de peso mesmo estando perigosamente abaixo do limite saudável. Este distúrbio possui a maior taxa de mortalidade entre as doenças psiquiátricas.
  • Bulimia nervosa: Apresenta episódios frequentes de compulsão alimentar, onde a pessoa consome grandes quantidades de comida em curto período com sensação de perda de controle. Logo após, utiliza métodos compensatórios prejudiciais para evitar o ganho de peso, como vômitos induzidos, laxantes ou exercícios físicos exagerados.
  • Compulsão alimentar: O Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) também envolve o consumo exagerado e descontrolado de alimentos, mas sem as condutas compensatórias da bulimia. O quadro costuma resultar em ganho de peso expressivo e vem acompanhado por sentimentos intensos de culpa e vergonha.

Tratamento sem restrições

A superação dessas condições exige uma intervenção terapêutica longa e feita por uma equipe multidisciplinar, reunindo médicos psiquiatras, psicólogos e nutricionistas. O foco principal é reestruturar a percepção do paciente com o espelho e com a alimentação, eliminando dietas restritivas que costumam funcionar como gatilhos para as crises.

A nutricionista e responsável técnica da Clínica-Escola de Nutrição da UNINORTE, Manuela Marinho, destacou a necessidade de um atendimento humanizado e sensível. A profissional explicou que o acompanhamento especializado é fundamental não apenas para garantir a adequação nutricional, mas para ajudar o paciente a reconstruir uma relação saudável e sem culpa com a alimentação.

“O transtorno alimentar exige muita sensibilidade e um olhar integral sobre o paciente. Na Clínica-Escola de Nutrição, entendemos que cada indivíduo é único. O acompanhamento especializado é fundamental não apenas para garantir a adequação nutricional, mas para ajudar o paciente a reconstruir uma relação saudável e sem culpa com a alimentação. Precisamos desmistificar a comida como inimiga e trabalhar, junto com a equipe de psicologia e psiquiatria, para resgatar a qualidade de vida e a saúde física e mental dessas pessoas”, afirmou Manuela.

Pilares do cuidado

O processo de reabilitação estruturado pelos profissionais de saúde se apoia em 5 frentes essenciais para garantir que o paciente receba o suporte necessário em todas as fases da recuperação.

  1. Avaliação médica: Consulta com psiquiatra para o diagnóstico preciso e prescrição de medicamentos quando houver associação com quadros de ansiedade ou depressão.
  2. Suporte psicoterápico: Sessões de psicologia focadas em identificar, acolher e modificar os gatilhos emocionais e os padrões de pensamento disfuncionais.
  3. Reeducação nutricional: Atendimento focado em restabelecer o equilíbrio de nutrientes de forma gradual, sem proibições de grupos alimentares.
  4. Atividade física orientada: Direcionamento de exercícios físicos com foco exclusivo na saúde e no bem-estar, desvinculando a prática de metas estéticas.
  5. Rede de afeto: Engajamento ativo de familiares e amigos mais próximos para evitar o isolamento social do paciente e fortalecer o ambiente de acolhimento.

A prevenção contra esses distúrbios representa um esforço coletivo. O desafio envolve construir ambientes familiares e sociais que valorizem a diversidade de corpos, desestimulando a busca por padrões de beleza irreais que ganham força nas redes sociais. Evitar comentários sobre a forma física alheia e manter a atenção a sinais como o isolamento, mudanças bruscas na rotina e fixação por contagem de calorias são atitudes essenciais para salvar vidas.

ASCOM: Daly Ruiz (DRT 0001114)

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