
Com incentivos fiscais, produção praticamente contratada e vantagem logística, empreendimento de US$ 2,5 bilhões pode fortalecer a economia do Amazonas e reduzir a dependência brasileira de potássio importado
Sancionado na última sexta-feira, 28 de agosto, o “Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes”, Profert, criou uma nova janela de oportunidade para empreendimentos voltados à produção nacional de fertilizantes. O programa prevê até R$ 10 bilhões em créditos fiscais de tributos federais para novas plantas do setor, além de mecanismos de apoio do BNDES.
Para a Brazil Potash, a medida chega em boa hora. Segundo o presidente da companhia, Matt Simpson, a combinação dos benefícios do Profert com os incentivos existentes na Zona Franca de Manaus poderá representar uma economia de até US$ 190 milhões para o “Projeto Autazes”.
O incentivo tributário, no entanto, não resolve sozinho a equação financeira. O empreendimento tem investimento estimado em US$ 2,5 bilhões e ainda precisa levantar entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões em recursos próprios para estruturar o financiamento da construção.
Esse é hoje o principal desafio do projeto. A empresa trabalha com uma composição que reúne dívida, capital de investidores, incentivos fiscais e contratos relacionados à infraestrutura. Existe, porém, um argumento que pode pesar a favor da captação. A maior parte da produção projetada já encontra compradores.
Brazil Potash prevê uma produção inicial de 2,2 milhões de toneladas de potássio por ano, volume equivalente a aproximadamente 17% do consumo brasileiro. Mesmo antes do início das obras principais, 91% dessa produção já foi comprometida por meio de contratos de longo prazo no modelo take or pay.
Os acordos foram firmados com a Amaggi, a suíça Keytrade e a Kimia, com contratos que variam entre dez e 17 anos. Os compradores assumem o compromisso de adquirir volumes mínimos da produção, a preços de mercado.
Esse tipo de contrato representa um sinal importante para os financiadores. Não se trata de um projeto que pretende construir uma mina e somente depois procurar mercado para sua produção. Existe demanda contratada para praticamente toda a produção inicial prevista.
Insumo estratégico para o Brasil
Potássio não é luxo para a agricultura brasileira. É insumo estratégico. O Brasil é um dos maiores produtores agrícolas do mundo, mas ainda depende fortemente de importações para atender à demanda por fertilizantes. A dependência expõe produtores e consumidores brasileiros às oscilações do mercado internacional e aos efeitos de guerras, sanções e crises logísticas.
Mais da metade da oferta mundial de potássio está concentrada em países submetidos a sanções ou envolvidos em conflitos, especialmente Rússia e Belarus.
O efeito sobre os preços pode ser brutal. Em episódios recentes de tensão internacional, a tonelada do produto chegou a saltar de cerca de US$ 280 para US$ 1.200.
Produzir parte desse insumo dentro do próprio país não significa necessariamente oferecer potássio mais barato ao agricultor. A proposta da Brazil Potash é trabalhar com preços de mercado. O ganho estratégico está em outro ponto.
A produção nacional pode funcionar como um amortecedor diante de choques internacionais, reduzindo a exposição brasileira às interrupções de fornecimento e às oscilações provocadas por acontecimentos que ocorrem milhares de quilômetros longe das lavouras brasileiras.
Vantagem logística
Outro ponto que reforça a viabilidade econômica do “Projeto Autazes” é a logística.
Segundo Matt Simpson, o transporte do potássio produzido no Amazonas até produtores de Mato Grosso poderá custar aproximadamente US$ 53 por tonelada. O valor seria menos da metade dos mais de US$ 100 por tonelada estimados para o produto importado que chega aos portos de Santos e Paranaguá e depois precisa seguir de caminhão até o Centro-Oeste.
A estratégia prevê aproveitar uma estrutura logística que já movimenta parte importante da produção agrícola brasileira.
Barcaças que descem os rios amazônicos carregadas de soja, milho e algodão podem retornar parcialmente vazias. O projeto pretende utilizar essa capacidade de retorno para transportar o potássio em direção aos grandes polos agrícolas.
É uma equação que interessa ao Amazonas e ao agronegócio brasileiro. De um lado, uma nova atividade econômica de grande porte no Estado. De outro, uma alternativa logística para levar um insumo estratégico até uma das regiões agrícolas mais importantes do país.

BNDES pode ajudar
Participação de instituições financeiras ligadas ao governo brasileiro também pode ser decisiva para a próxima fase.
A Brazil Potash espera ampliar o diálogo com organismos como o BNDES. Para a companhia, mais importante do que o tamanho de eventual participação pública é o efeito de confiança que ela pode produzir entre investidores internacionais.
Um projeto dessa dimensão precisa convencer o mercado de que terá segurança financeira, institucional e operacional para atravessar o longo período entre a construção e o início da produção.
A presença de instituições públicas de fomento pode ajudar justamente nesse ponto.
A expectativa da empresa é iniciar a produção comercial no final de 2030. O cronograma, naturalmente, dependerá da velocidade de captação dos recursos e da conclusão das etapas necessárias para a implantação do empreendimento.
Licenciamento avança
Na área socioambiental, uma das principais pendências apontadas pela empresa está relacionada à linha de transmissão de 165 quilômetros que deverá conectar o projeto à subestação de Silves, no Amazonas.
Outro ponto relevante ocorreu neste mês, quando o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, rejeitou pedido que buscava suspender decisões de instâncias inferiores que haviam dado aval socioambiental ao “Projeto Autazes”.
A empresa sustenta que o empreendimento não está localizado em terra indígena, argumento que foi considerado no debate judicial sobre a implantação da mina.
O caminho até a operação ainda exige etapas importantes, incluindo a licença de operação e a concessão de lavra após a construção. A própria companhia reconhece que esses procedimentos precisam ser cumpridos.
Mudar a economia do Amazonas
“Projeto Autazes” não deve ser analisado apenas como uma mina de potássio. Trata-se de uma oportunidade de inserir o Amazonas em uma cadeia prodututiva diretamente ligada ao agronegócio brasileiro, gerar investimentos bilionários, movimentar serviços e infraestrutura e criar uma nova atividade econômica de grande escala no interior do Estado.
Para o Brasil, representa a possibilidade de produzir internamente uma parcela relevante de um insumo considerado estratégico.
Para o Amazonas, significa transformar uma riqueza mineral em atividade econômica permanente, com potencial de estimular infraestrutura, empregos, arrecadação e novos negócios.
O dinheiro para tirar o empreendimento do papel ainda precisa ser estruturado. Essa é uma realidade que não pode ser ignorada.
Mas o cenário também mostra que o “Projeto Autazes” já não depende apenas de uma promessa de futuro. Existem incentivos fiscais em discussão, produção praticamente contratada, uma vantagem logística relevante, demanda interna assegurada e uma nova política federal voltada justamente para fortalecer a indústria nacional de fertilizantes.
Se conseguir vencer a etapa financeira, Autazes poderá deixar de ser apenas um projeto bilionário no papel para se transformar em uma peça importante da segurança alimentar e econômica do Brasil.
E, para um país que produz comida para o mundo inteiro, depender menos do potássio que vem de fora não é apenas uma questão de mineração. É uma questão de soberania, dizem especialistas.










