
Por Rodolfo Takahashi (*)
O crédito sempre foi apresentado como uma ferramenta de inclusão, um mecanismo capaz de antecipar o consumo, viabilizar sonhos e oferecer fôlego financeiro em momentos de necessidade. No Brasil, no entanto, o avanço do acesso ao crédito para trabalhadores revela uma realidade mais complexa: ao mesmo tempo em que cria oportunidades, também expõe fragilidades estruturais na renda das famílias.
Os números ajudam a dimensionar esse panorama. Hoje, cerca de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, o maior patamar em mais de uma década, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Ao mesmo tempo, o comprometimento da renda com dívidas já chega a quase 30% dos ganhos mensais, segundo dados do Banco Central. Em outras palavras, uma parcela significativa do salário do trabalhador já nasce comprometida antes mesmo de chegar ao bolso.
A expansão do acesso e suas contradições
Esse fenômeno não ocorre por acaso. O crédito, especialmente nas últimas décadas, tornou-se mais acessível, impulsionado por avanços tecnológicos, expansão de empresas de tecnologia financeira (fintechs) e políticas de incentivo ao consumo. Em muitos casos, isso representou um ganho real para famílias que antes estavam à margem do sistema financeiro. O crédito consignado, por exemplo, permitiu acesso a taxas mais baixas e maior previsibilidade de pagamento.
No entanto, o mesmo movimento que promove inclusão também escancara desigualdades. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Confederação Nacional do Comércio, mostram que trabalhadores de menor renda concentram maior participação em linhas de crédito mais caras e sem garantia, como cartão de crédito e cheque especial. Isso significa que, justamente para quem mais precisa, o crédito frequentemente chega com custo elevado e maior risco de inadimplência.
Do planejamento à sobrevivência
O resultado é um ciclo difícil de romper. Atualmente, de acordo com a Serasa, o Brasil soma mais de 80 milhões de pessoas inadimplentes, refletindo não apenas o acesso ao crédito, mas também a dificuldade de gestão financeira e a pressão do custo de vida. Em muitos lares, o crédito deixou de ser ferramenta de planejamento e passou a ser mecanismo de sobrevivência.
Esse ponto é central: o crédito não pode substituir a renda. Quando o trabalhador depende de empréstimos para cobrir despesas básicas, como alimentação, transporte ou moradia, estamos diante de um desequilíbrio estrutural. O problema não está no crédito em si, mas na forma como ele é utilizado dentro de um contexto de renda limitada e instável.
O equilíbrio necessário
Ainda assim, seria um erro tratar o crédito apenas como vilão. Em sua essência, ele continua sendo um instrumento poderoso de mobilidade social. O acesso responsável ao crédito pode viabilizar educação, empreendedorismo e aquisição de bens duráveis, fatores que impactam diretamente na qualidade de vida das famílias.
O desafio, portanto, está no equilíbrio. Isso passa por três pilares fundamentais: educação financeira, regulação adequada e desenvolvimento de produtos mais justos. A educação financeira é crucial para que o trabalhador compreenda o custo real do dinheiro e faça escolhas mais conscientes. Já a regulação tem papel essencial na limitação de práticas abusivas e na promoção da transparência.
Por fim, é necessário avançar na oferta de crédito mais sustentável, especialmente para as camadas de menor renda. Modelos baseados em dados, histórico positivo e análise mais sofisticada de risco têm potencial para reduzir juros e ampliar o acesso de forma mais saudável.
O Brasil vive um momento emblemático. Nunca houve tanto acesso ao crédito e, ao mesmo tempo, nunca se discutiu tanto o endividamento das famílias. Essa contradição revela que o crédito, isoladamente, não resolve desigualdades. Ele é parte da solução, mas não substitui políticas de geração de renda, estabilidade econômica e proteção social.
No fim das contas, o impacto do crédito na vida das famílias brasileiras depende menos da sua disponibilidade e mais da forma como ele é inserido na dinâmica econômica do país. Quando bem utilizado, ele impulsiona. Quando mal estruturado, aprisiona. E essa diferença faz toda a diferença no orçamento e no futuro de milhões de trabalhadores.
(*) CEO da Gooroo Crédito










