
Por Nico Valente
A esta altura da pré-campanha eleitoral, pode-se dizer que a política do Amazonas entrou numa zona de turbulência rara, uma turbulência que altera o humor das alianças, inquieta estruturas tradicionais e obriga veteranos a rever cálculos feitos com excessiva antecedência.
O surgimento da empresária Maria do Carmo Seffair PL, como liderança nas pesquisas da AtlasIntel produziu esse efeito. Em poucos dias, o ambiente político amazonense mudou de temperatura.
O levantamento da AtlasIntel divulgado nesta semana mostrou Maria do Carmo com 38,4% das intenções de voto, contra 27,5% de Omar Aziz. Roberto Cidade apareceu com 13,7% e David Almeida com 11,8%. Em outro cenário estimulado, com apoios políticos nacionalizados, ela sobe para 45%, enquanto Omar alcança 30,1%.
O momento atual
Quase simultaneamente, surgiu a pesquisa do Instituto Census apontando quadro distinto. Nela, Omar Aziz lidera com 40% dos votos válidos, seguido por Maria do Carmo com 25%, David Almeida com 20% e Roberto Cidade com 16%.
A divergência entre os levantamentos não enfraquece a percepção central do momento político amazonense. Pelo contrário. Ela confirma que a disputa entrou em estágio de forte movimentação e revela um eleitorado ainda em processo de consolidação.
O dado politicamente mais relevante talvez não seja quem aparece numericamente à frente em cada pesquisa. O fato realmente novo está no aparecimento de uma candidatura fora da política tradicional ocupando, com velocidade impressionante, o espaço conservador do estado.
Maria do Carmo Seffair transformou-se na novidade eleitoral do Amazonas. E a política brasileira tem demonstrado nos últimos anos enorme capacidade de produzir ascensões rápidas quando um candidato consegue capturar sentimentimentos difusos de mudança, insatisfação e ruptura.
O Amazonas possui um eleitorado conservador numericamente expressivo. O contingente vinha fragmentado, disperso entre lideranças locais, candidaturas de ocasião e alianças pragmáticas. Maria do Carmo conseguiu converter esse campo ideológico em identidade política mais organizada.
O apoio do senador Flávio Bolsonaro fortaleceu essa conexão, e por ora não consta que os recentes eventos do pré-candidato presidencial com a família Vorcaro tenham repercutido negativamente em Maria.
A imagem de empresária ajuda Maria na construção de um discurso associado à gestão e eficiência. Soma-se a isso a ausência de desgaste acumulado pela política tradicional. Em períodos de fadiga do eleitorado, esse elemento comumente tem peso considerável.
Peculiaridades pesam
Existe também um componente emocional evidente na ascensão de Maria. O eleitor frequentemente reage com intensidade quando identifica alguém aparentemente fora dos círculos habituais do poder. Isso ocorreu em diversos estados brasileiros nos últimos ciclos eleitorais e agora parece alcançar o Amazonas.
Mas o Amazonas possui peculiaridades severas para candidaturas emergentes. O estado é geograficamente complexo, politicamente descentralizado e fortemente dependente das estruturas do interior. Manaus impulsiona candidaturas pela comunicação digital e pela força das redes sociais. O interior exige outra engenharia.
Ali contam prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias, bases históricas e presença física contínua. Nesse território, Omar Aziz continua sendo um dos políticos mais estruturados da região Norte.
Omar conhece o interior amazonense como poucos. Sua rede política foi construída ao longo de décadas e permanece ativa. Pesquisa após pesquisa, ele demonstra resiliência eleitoral rara. A experiência administrativa, a articulação regional e a capacidade de composição ainda representam ativos relevantes numa eleição estadual.
O desafio do senador talvez seja outro. Parte do eleitorado passou a associar figuras tradicionais à continuidade de um sistema político que enfrenta crescente desgaste no país. Em vários estados brasileiros, candidaturas identificadas com renovação têm conseguido romper barreiras que antes pareciam intransponíveis.
Ainda assim, subestimar Omar Aziz seria erro elementar de análise. Campanhas majoritárias no Amazonas sofrem mudanças profundas quando entram oficialmente em fase de televisão, alianças formais, mobilização partidária e circulação mais intensa no interior.
Roberto Cidade
Nesse cenário aparece Roberto Cidade. A condição de governador tampão lhe oferece visibilidade institucional imediata. Mas a visibilidade traz junto o desgaste inevitável da máquina pública.
Cidade tenta construir uma imagem administrativa moderada, associada à estabilidade e equilíbrio. O problema é que parte do eleitorado ainda não o percebe como protagonista natural da sucessão.
Seu crescimento dependerá fortemente das alianças nacionais e estaduais. O tabuleiro envolvendo Partido Liberal e União Brasil (UB) tornou-se peça estratégica dessa disputa. A hipótese de aproximação entre os dois grupos interessava diretamente ao entorno político de Cidade. Mas a expansão da candidatura de Maria do Carmo dentro do campo conservador começa a alterar esses cálculos.
Já David Almeida parece enfrentar o momento mais difícil entre os principais concorrentes. A saída da prefeitura de Manaus reduziu sua exposição cotidiana e diminuiu parte da capacidade de influência institucional que possuía.
David continua politicamente competitivo nas periferias e mantém reconhecida habilidade popular. Contudo, a polarização crescente entre o conservadorismo representado por Maria do Carmo e a estrutura tradicional de Omar Aziz comprime seu espaço político.
No fundo, o Amazonas talvez esteja antecipando um fenômeno observado em várias partes do país. O eleitor tornou-se menos previsível, mais volátil e menos fiel às estruturas convencionais. Candidaturas antes consideradas improváveis passaram a ocupar posições centrais com rapidez inesperada.
Segundo turno
A eleição amazonense ainda está longe de qualquer definição. O interior continuará tendo peso decisivo. Alianças podem alterar cenários abruptamente. Máquinas partidárias ainda possuem influência real. Segundo turno transforma completamente percepções e estratégias.
Mas há um fato que já parece consolidado no ambiente político regional. Maria do Carmo Seffair deixou de ser apenas uma aposta periférica e passou a integrar o núcleo principal da disputa pelo governo do Amazonas.
E isso, por si só, já representa uma mudança importante na paisagem política do estado. Se a empresária vai virar um fenômeno eleitoral, só o tempo dirá.
(Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal O Povo Amazonense)










