
Por Carlos Rodrigues (*)
Ao estudar as diferenças entre Allan Kardec e Jean-Baptiste Roustaing, compreende-se que existem duas formas bastante distintas de enxergar o Espiritismo, sobretudo no que diz respeito a Jesus e aos evangelhos.
Kardec se destaca como um pensador racional, cuidadoso e criterioso. Ele construiu a doutrina espírita com base na observação, na lógica e na universalidade dos ensinamentos recebidos dos espíritos. Para ele, Jesus era um espírito puro que, ainda assim, habitou um corpo humano verdadeiro, nasceu de forma natural e viveu como homem entre os homens. Kardec sempre evitou o misticismo e buscou manter o Espiritismo dentro de uma linha filosófica, moral e científica.
Roustaing, por sua vez, trouxe uma visão mais mística e espiritualizada. Em sua obra “Os Quatro Evangelhos”, recebida pela médium Émilie Collignon, ele defendia que Jesus possuía um corpo fluídico, distinto da matéria tal como a conhecemos. Essa interpretação gerou uma profunda divisão dentro do movimento espírita, pois muitos entenderam que ela se afastava do pensamento original de Kardec, dando origem, ao longo do tempo, a dois grupos mais visíveis, os espíritas identificados com a linha kardecista e os chamados roustainguistas, que acolhiam também as ideias de Roustaing.
A trajetória histórica
Na história do Espiritismo brasileiro, a Federação Espírita Brasileira (FEB) exerceu grande influência nessa aproximação com Roustaing por meio de Bezerra de Menezes. Admirador de “Os Quatro Evangelhos”, ele contribuiu decisivamente para a difusão dessas ideias dentro da instituição.
Por essa razão, afirma-se com frequência que a FEB carregou uma forte influência roustainguista, especialmente entre o final do século XIX e boa parte do século XX, período em que nomes como Leopoldo Cirne e Wantuil de Freitas ajudaram a manter essa obra em posição de destaque na estrutura da entidade.
Chico Xavier, embora jamais tenha se declarado oficialmente roustainguista, demonstrou enorme respeito por Kardec ao longo de toda a sua trajetória. Em determinados momentos, porém, manifestou simpatia por interpretações mais espiritualizadas acerca de Jesus, o que se explica, em parte, pela sua convivência com dirigentes da FEB e pela atmosfera do Espiritismo brasileiro de sua época. Ainda assim, Chico evitava polêmicas doutrinárias e sempre pregou união, humildade e a vivência do evangelho.
Divergências de pensamento
Divaldo Pereira Franco, por outro lado, seguiu uma linha mais próxima do estudo psicológico, filosófico e moral do Espiritismo, revelando identificação mais clara com Kardec do que com Roustaing, embora também buscasse evitar divisões e conflitos dentro do movimento.
Em contrapartida a essa influência roustainguista, muitos estudiosos espíritas sempre defenderam um retorno mais rigoroso às obras básicas de Kardec, argumentando que Roustaing introduziu conceitos excessivamente místicos e não confirmados pelo método investigativo que o codificador adotou.
Em síntese, a distinção fundamental entre as duas correntes pode ser assim formulada, Kardec apresenta um Espiritismo mais racional, investigativo e universal, ao passo que Roustaing propõe uma leitura mais mística, simbólica e espiritualizada de Jesus e dos evangelhos. Esse debate, longe de estar encerrado, permanece vivo e relevante dentro do movimento espírita brasileiro até os dias de hoje.

(*) é funcionário público, coordenador da casa espírita Casa de Barro.










