
Por Moisaniel Filho
Às margens dos rios, lagos e igarapés do interior do Amazonas existe uma riqueza que não pode ser medida apenas pelo que está debaixo da terra. Ela está também nas mãos de quem molda o barro, cultiva a terra, pesca, coleta frutos da floresta e mantém vivos conhecimentos transmitidos de geração em geração de povos tradicionais.
É essa outra riqueza amazônica que a Cooperativa dos Extrativistas Minerais Artesanais Familiar de Novo Aripuanã (COOPERMINA) começa a conhecer mais de perto ao ampliar sua aproximação com as comunidades tradicionais e ribeirinhas da região.
O trabalho faz parte de um compromisso socioambiental mais amplo da cooperativa, que vem mantendo diálogo com órgãos e instituições públicas e, sobretudo, buscando uma relação mais próxima com as populações que vivem na área de sua atuação.
A proposta é conhecer e inventariar essas comunidades: quem são seus moradores, como vivem, de onde retiram seu sustento, quais atividades desenvolvem, quais são suas dificuldades e quais potencialidades podem ser fortalecidas. A partir desse diagnóstico, a COOPERMINA pretende identificar formas possíveis de apoio ao desenvolvimento socioeconômico local, associadas à educação e à responsabilidade ambiental.
O saber que vem da floresta
Entre as atividades encontradas está a produção artesanal de cerâmica. E é justamente na simplicidade da explicação de uma artesã que aparece uma das demonstrações da relação entre conhecimento tradicional e floresta.
Ao explicar como prepara a matéria utilizada na cerâmica, ela conta que emprega a casca do cara-ipê, encontrada em árvores já mortas na várzea. A casca é transformada em cinza e utilizada na preparação da argila. É o que dá a liga à cerâmica.
“Ninguém derruba, não. A gente acha ela morta na várzea”, explica a artesã Roselma Reis.
A pequena frase carrega um significado maior. Revela um conhecimento construído na convivência com a floresta e uma preocupação em retirar dela aquilo de que se necessita sem, nesse caso, derrubar a árvore para obter a matéria-prima.
São conhecimentos como esse que ajudam a contar a história das populações tradicionais do interior amazônico. O artesanato produzido nessas comunidades não representa apenas uma possibilidade de renda. Cada peça pode carregar técnicas, memória familiar e uma maneira própria de compreender e utilizar os recursos disponíveis na natureza.
Vidas construídas às margens do rio

A região reúne ainda histórias de famílias que chegaram ao Amazonas em diferentes momentos e fizeram dali seu lugar definitivo.
Uma delas é a do senhor Ivanildo Bezerra Leão, pernambucano que vive há quase 50 anos na região. Sua trajetória se mistura à de tantos nordestinos que migraram para a Amazônia e aqui permaneceram, formando famílias e incorporando-se ao cotidiano das comunidades.
Da terra, ele retira parte do sustento. Cultiva cana-de-açúcar, da qual produz a tradicional garapa, além de açaí, banana e outros produtos. Ao redor dele, outras famílias sobrevivem da agricultura, da pesca, da coleta de frutos e produtos da floresta e da produção artesanal.
São pequenos produtores, pescadores, artesãos e moradores ribeirinhos que ajudam a movimentar uma economia quase sempre distante dos grandes centros comerciais, mas essencial para a sobrevivência das próprias comunidades.
Conhecer primeiro para poder apoiar
É justamente essa realidade que o levantamento pretende tornar mais conhecida.
A orientação é que qualquer iniciativa futura parta inicialmente da escuta das próprias comunidades. Conhecer suas necessidades, mas também reconhecer aquilo que elas já sabem fazer, seus modos de produção e suas potencialidades.
A intenção da COOPERMINA é não se limitar à organização dos trabalhadores ligados à mineração artesanal. A cooperativa pretende aproximar-se também dos demais segmentos que vivem no entorno, buscando, dentro de suas possibilidades e em articulação com instituições públicas, contribuir para ações de valorização do artesanato, educação socioambiental e fortalecimento de atividades capazes de gerar renda.
O desafio é significativo
O Amazonas é reconhecido mundialmente por suas riquezas naturais, mas parte dessa riqueza nem sempre se transforma em melhoria concreta da qualidade de vida das populações que vivem no interior da floresta.
Por isso, discutir desenvolvimento na Amazônia significa também discutir como utilizar seus recursos naturais de maneira responsável, procurando conciliar atividade econômica, proteção ambiental e melhoria das condições sociais.
Para a COOPERMINA, esse princípio passa a integrar o trabalho que vem sendo desenvolvido na região de Novo Aripuanã: buscar uma mineração artesanal ambientalmente responsável e, paralelamente, olhar para as pessoas que vivem ao redor dela.
Mais do que conhecer números, o levantamento começa a revelar rostos e histórias.

São as mãos que moldam a cerâmica. As mãos que colhem o açaí. Que plantam a banana e a cana. Que puxam a rede de pesca. Mãos indígenas, caboclas, ribeirinhas e de famílias que chegaram de outras regiões e fincaram raízes na Amazônia. A proposta agora é fazer com que essas pessoas sejam vistas, ouvidas e reconhecidas como parte essencial de qualquer projeto que pretenda falar em desenvolvimento sustentável no Rio Madeira.
Porque a maior riqueza daquela região talvez não esteja apenas no que existe sob o solo ou no leito dos rios.
Está também nas pessoas que aprenderam, ao longo de gerações, a viver da Amazônia e com a Amazônia.










