
Saber a quem recorrer para solicitar melhorias, como participar ativamente da construção de políticas públicas e de que forma acompanhar decisões que afetam diretamente a comunidade ainda representa um desafio em muitos territórios da Amazônia. Para transformar essa realidade, jovens e adultos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Juma, localizada em Novo Aripuanã, no Amazonas, participaram de uma formação especial. O encontro buscou aproximar esses conhecimentos da vida cotidiana de quem habita a região e fortalecer a participação comunitária na defesa dos direitos coletivos.
A Oficina de Introdução à Incidência Política ocorreu entre os dias 22 e 25 de setembro, reunindo 27 participantes com idades entre 13 e 77 anos, vindos de oito comunidades ribeirinhas da RDS do Juma. As atividades contaram com 44% de presença feminina e foram sediadas no Núcleo de Inovação e Educação para o Desenvolvimento Sustentável (NIEDS) Samuel Benchimol, situado na comunidade Boa Frente.
A iniciativa integra o projeto “Formando Líderes para uma Amazônia Viva”, desenvolvido pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (SEMA-AM) e com recursos financeiros fornecidos pela Mitsubishi Corporation Foundation for the Americas (MCFA).
Encontro entre gerações
Ao longo dos quatro dias de imersão, os participantes debateram temas centrais para o fortalecimento comunitário. Os conceitos trabalhados foram diretamente relacionados às situações vivenciadas pelos moradores no contexto da reserva e no ambiente escolar, abrangendo os tópicos a seguir:
- Autodeterminação e direitos socioambientais de povos e comunidades tradicionais
- Participação social efetiva
- Acesso amplo à informação e à justiça social
- Consultas públicas transparentes
- Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI)
- Salvaguardas socioambientais na região
- Estratégias de incidência política
Exercícios de liderança
A metodologia combinou debates orientados, leitura e discussão de textos e atividades de aprendizado em grupo. Nas etapas práticas, os comunitários simularam uma Assembleia Geral, elaboraram uma minuta do Protocolo Autônomo de Consulta e construíram uma estratégia de advocacy. Essas dinâmicas aproximaram os conteúdos teóricos das estruturas organizacionais e das formas de participação que já funcionam no próprio território.
Para Samuel Mendes, de 14 anos, morador da comunidade Boa Frente, o aprendizado abriu novos caminhos para encaminhar as demandas locais.
“A incidência política vai me ajudar a saber para quem eu posso pedir as coisas para melhorar a minha comunidade ou como fazer uma carta para solicitar essas coisas. Eu vejo que os cursos ajudam a preparar as pessoas para conseguir fazer coisas no futuro”, afirmou o jovem estudante.
Trajetória e impacto
A coordenadora do projeto, Juliane Menezes, explicou que os treinamentos foram planejados para integrar diferentes gerações, ampliando a capacidade de compreensão e atuação nas decisões sobre o território, sobretudo na área de preservação ambiental. O projeto foi iniciado em 2025 com o propósito de desenvolver e fortalecer jovens e lideranças locais, utilizando uma metodologia que contempla uma série de formações focadas no desenvolvimento sustentável e socioeconômico regional.
Desde o início dos trabalhos, as ações têm alcançado crianças, adolescentes, jovens, adultos e integrantes da Associação dos Moradores Agroextrativistas da RDS do Juma (AMARJUMA). O conjunto de atividades inclui iniciativas de educação ambiental, educomunicação, monitoramento socioambiental, produção de mudas, práticas ecológicas e fortalecimento de lideranças. Até o momento, sete iniciativas já beneficiaram cerca de 160 pessoas em 26 comunidades da reserva.
Vozes da comunidade
A moradora da comunidade Nova Olinda, Lidígia Pereira da Silva, de 59 anos, ressaltou que conhecer os próprios direitos é indispensável para proteger o lugar onde vivem.
“A gente está aprendendo sobre os nossos direitos, o direito de nós termos o nosso território e defendermos ele. Eu acho muito importante esse aprendizado, porque nós estamos conhecendo aquilo que não conhecíamos antes”, declarou a comunitária.
Ao conectar conceitos como participação social, direitos e incidência política à realidade local, a formação visa transformar informação em capacidade de ação prática. A expectativa é que os participantes utilizem o aprendizado para consolidar a organização comunitária, ampliar o diálogo com o poder público e ocupar com segurança os espaços de tomada de decisão que impactam diretamente os seus territórios.
Sobre a FAS
A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. Sua missão é contribuir para a conservação do bioma, a melhoria da qualidade de vida das populações amazônicas e a valorização da floresta em pé e de sua biodiversidade.
Sobre a MCFA
Fundada em 1991, a missão da Fundação Mitsubishi Corporation para as Américas (MCFA) é contribuir para a construção de uma sociedade inclusiva, empoderando a próxima geração e conservando o meio ambiente, por meio do enfrentamento de questões ambientais e sociais nas Américas. Desde sua criação, a MCFA já apoiou mais de 100 projetos em 15 países nas Américas.
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