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Inteligência artificial entra na luta contra a mortalidade materna com ultrassom portátil inovador

A inovação que promete realizar exames de pré-natal sem a presença de médicos - Foto: Divulgação/Philips

A tragédia silenciosa da mortalidade materna ainda assombra a saúde pública global. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que cerca de 700 mulheres morrem todos os dias no planeta em decorrência de complicações na gravidez e no parto. A imensa maioria dessas perdas fatais poderia ser evitada com medidas simples de acompanhamento pré-natal, acompanhadas de exames de ultrassom logo nas semanas iniciais da gestação.

Apesar da importância do diagnóstico precoce, aproximadamente metade da população mundial não tem acesso adequado a exames de imagem. No Brasil, o cenário reflete essa vulnerabilidade, visto que 20% das gestantes não recebem nem mesmo o cuidado mínimo recomendado. Para tentar preencher essa lacuna crítica, surge uma solução inovadora apoiada em Inteligência Artificial (IA).

A proposta busca retirar a exigência do médico especialista no primeiro filtro do atendimento, viabilizando a assistência em localidades desprovidas de infraestrutura médica.

Mudança da empresa

O dispositivo denominado “SmartSweep” foi desenvolvido pela fabricante Philips e tem previsão de lançamento para este ano, após passar por testes em áreas remotas da África e da Ásia. O equipamento teve uma demonstração acompanhada pelo portal UOL no campus da companhia sediado em Eindhoven, na Holanda.

Conhecida no passado por aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos, a Philips vendeu a divisão de televisores em 2010 e a de eletrodomésticos em 2021. Atualmente, a empresa figura como uma das maiores fabricantes globais de equipamentos médicos, produzindo sistemas de ressonância magnética, ultrassons, raio-x e softwares de análise de imagens, mantendo do antigo portfólio apenas os dispositivos de cuidados pessoais, como aparadores de pelo.

Aparelho na mochila

O projeto foi concebido para resolver dois grandes obstáculos do ultrassom tradicional. O primeiro é a falta de mobilidade, pois os aparelhos convencionais são carrinhos pesados, caros e voltados para hospitais, justamente os locais onde as mulheres desassistidas não conseguem chegar. O transporte rápido em mochilas é inviável nesses casos, o que dificulta o deslocamento até vilarejos distantes.

O “SmartSweep” resolve essa barreira ao oferecer uma sonda portátil que cabe em uma bolsa e se conecta por cabo a um tablet Android comum com pelo menos 256 GB de armazenamento. Por realizar o processamento dos dados de forma local, o sistema dispensa a conexão com a internet, o que estende sua utilização a regiões totalmente desconectadas.

Tutor na tela

O segundo gargalo combatido é a dependência de um médico especialista para manusear o aparelho, obstáculo considerado pelos executivos ainda maior que a escassez de equipamentos. Essa limitação é solucionada pela (IA), que atua como um tutor digital no tablet.

Após o operador cadastrar a paciente e inserir informações básicas como nome, data da última menstruação e se o abdômen fetal está acima ou abaixo do fundo do útero, o aplicativo passa a guiar cada movimento da sonda.

Como funciona

A orientação do sistema opera como um direcionamento de rota para o pulso do operador, apresentando passos bem definidos na tela:

  • Uma barra gráfica exibe o progresso e só fica verde quando a sonda está posicionada perpendicularmente à barriga da paciente;
  • Setas indicam a orientação a ser seguida na vertical e na horizontal, mantendo sempre o ângulo exato de noventa graus em relação à pele sem acompanhar a curvatura do abdômen;
  • O aplicativo sinaliza na hora se a sonda for inclinada e pede para o movimento ser refeito.

Com essa orientação automatizada, uma pessoa sem qualquer formação em ultrassonografia consegue realizar uma varredura clinicamente válida após apenas 20 minutos de prática.

Análise sem imagem

Uma característica marcante e sensível da tecnologia é que ela não exibe a imagem do feto na tela ao término da varredura. Em vez da projeção visual, a (IA) compila e interpreta os sinais do bebê para determinar o grau de risco da gestação:;

  • Idade gestacional estimada e a data provável do parto
  • Gestação única ou múltipla, emitindo um alerta de gravidez de risco caso identifique mais de um feto;
  • Atividade cardíaca fetal, realizando diversas tentativas conforme o protocolo médico antes de concluir a ocorrência de perda do bebê;
  • Volume de líquido amniótico, recomendando encaminhamento imediato para um especialista dependendo da quantidade detectada;
  • Apresentação fetal, dado crucial perto do parto para o planejamento de como o bebê vai nascer.

Riscos na triagem

A fabricante ressalta que o “SmartSweep” atua no rastreio preventivo e não na formulação final do diagnóstico. O sistema encaminha para a avaliação diagnóstica apenas as gestantes que apresentarem alterações nos sinais captados, enquanto as demais seguem o pré-natal de rotina sem passar por um exame de imagem aprofundado.

No entanto, sob uma análise crítica da medicina diagnóstica, erros na triagem inicial podem gerar consequências graves, equivalentes a falhas no diagnóstico, com o agravante de que a responsabilidade jurídica se torna mais difícil de ser atribuída posteriormente.

Barreiras e leis

A tecnologia passou por validações práticas na Índia e no Quênia. No mercado indiano, a ausência da exibição de imagem atende à legislação local, que proíbe ultrassom com exibição visual fora de hospital credenciado para combater a seleção fetal de gênero e os abortos seletivos de meninas. Já em países africanos, a Philips negocia modelos que exibem a imagem anatômica lado a lado com o parecer automatizado.

A aceitação do dispositivo também desperta a atenção de mercados desenvolvidos. Conforme declarou Jeroen Maas, diretor da Philips para Tecnologias de Cuidado e Acessibilidade, “o aparelho não desperta interesse somente do Sul Global, tendo executivos norte-americanos apontado os desertos médicos dos Estados Unidos como mercado natural e representantes do Japão citado o uso em resposta a desastres naturais”.

Robôs e médicos

A chegada da ferramenta ocorre em um momento de debate intenso sobre o avanço da automação e o temor de que a tecnologia assuma o lugar de humanos. Embora a inovação afete uma das categorias profissionais com maior escassez no mundo, a empresa argumenta que o aparelho não promete substituir o médico na leitura da imagem.

A proposta busca eliminar a exigência de haver uma pessoa treinada para gerar a imagem, que é o ponto de partida para qualquer diagnóstico. Trata-se de uma aposta clara em automatizar a mão que segura a sonda, sem substituir o cérebro médico que interpreta o resultado final.

Fonte: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2026/10/01/como-ia-ja-e-usada-para-pre-natal-de-gestantes-ate-em-locais-sem-medico.ghtm

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