
A confirmação da atuação do fenômeno climático El Niño pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) acendeu um sinal de alerta para o setor logístico brasileiro.
As previsões indicam que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico poderá reduzir significativamente os níveis dos rios da Região Norte, comprometendo a navegação e o escoamento de cargas pelo chamado Arco Norte, corredor estratégico para exportações brasileiras.
Segundo a NOAA, há 63% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade considerada “muito forte” nos próximos meses, provocando temperaturas mais elevadas e redução das chuvas em grande parte da Amazônia.
Estudo divulgado pelo banco Santander aponta que o nível do Rio Tapajós poderá ficar, em média, 0,9 metro abaixo do normal durante períodos de El Niño, dificultando a movimentação de embarcações responsáveis pelo transporte de soja, milho, fertilizantes e combustíveis.
O Arco Norte é um complexo logístico formado por portos, hidrovias, rodovias e ferrovias que vem ganhando protagonismo no comércio exterior brasileiro.
Os estados que compõem esse corredor estratégico são Amazonas, Pará, Rondônia, Amapá e Maranhão. Entre os principais terminais do Arco Norte estão Manaus, Itacoatiara, Porto Velho, Santarém, Itaituba (distrito de Miritituba), Barcarena e São Luís (Porto do Itaqui).
A rota é fundamental para o escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste, especialmente de Mato Grosso, reduzindo distâncias e custos em comparação aos portos do Sul e Sudeste.

Amazonas pode sofrer impactos diretos
Embora o estudo do Santander destaque os riscos na hidrovia do Tapajós, especialistas alertam que o Amazonas também poderá enfrentar consequências significativas caso o El Niño provoque uma nova estiagem severa na região.
- Redução da navegabilidade: A queda do nível dos rios Amazonas, Madeira, Solimões e seus afluentes pode limitar o tráfego de embarcações de grande porte, exigindo redução de carga ou interrupções temporárias em alguns trechos.
- Aumento dos custos logísticos: Com menor capacidade de transporte hidroviário, empresas podem ser obrigadas a recorrer ao modal rodoviário ou realizar operações de transbordo adicionais, elevando os custos do frete.
- Risco de desabastecimento: O Amazonas depende fortemente das hidrovias para o transporte de combustíveis, alimentos, medicamentos e insumos industriais. Em cenários extremos de seca, municípios do interior podem enfrentar dificuldades de abastecimento.
PIM e Itacoatiara
O Polo Industrial de Manaus depende da chegada regular de matérias-primas e componentes. Restrições na navegação podem atrasar entregas, elevar custos operacionais e afetar a competitividade das indústrias instaladas na capital amazonense.
O terminal graneleiro de Itacoatiara, um dos mais importantes do Norte do país, também pode sofrer restrições operacionais caso a estiagem afete as condições de navegação na calha do Rio Amazonas.
Apesar dos riscos climáticos, o transporte por hidrovias continua ganhando espaço na logística nacional. Dados do setor apontam que a participação das hidrovias no escoamento da soja cresceu de 9% para 13,5% entre 2023 e 2025, tornando-se o modal com maior expansão no período.
Somente nos dois primeiros meses de 2026, a hidrovia do Tapajós movimentou 2,38 milhões de toneladas de cargas. Desse total, 86% corresponderam ao transporte de soja e milho.
Especialistas defendem que a expansão da intermodalidade — integrando rodovias, ferrovias e hidrovias — é fundamental para garantir maior eficiência logística. No entanto, alertam que eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes na Amazônia, exigem investimentos em infraestrutura, dragagem, monitoramento hidrológico e planejamento de longo prazo.
Alerta para o Norte
A possibilidade de um El Niño forte reacende preocupações semelhantes às registradas durante as grandes secas amazônicas dos últimos anos.
Para o Amazonas, onde os rios funcionam como verdadeiras estradas naturais, a redução das chuvas não representa apenas um problema ambiental, mas uma ameaça direta à economia, ao abastecimento e à integração regional.
Se as previsões se confirmarem, o desafio será manter o fluxo de cargas e passageiros em uma região cuja dinâmica econômica depende, em grande parte, da força e da navegabilidade dos seus rios.










