Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho Dostoiévski nas Urnas do Brasil: De que lado estaria?

Dostoiévski nas Urnas do Brasil: De que lado estaria?

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)

Se Fiódor Dostoiévski fosse escolher — por voto ou por indicação — um presidente para o Brasil que vai às urnas neste domingo, não começaria pelo plano econômico. Começaria pelo exame de consciência, pois Dostoiévski não era analista político, era anatomista da alma.

E a pergunta que faria a cada candidato seria incômoda, quase confessional. Este homem crê que o ser humano é apenas um estômago a ser saciado ou uma alma a ser salva? Este homem justifica roubar em nome do povo? Justifica matar em nome da ordem? Reconhece o mal dentro de si ou projeta todo o mal no adversário para se absolver?

Para compreender a resposta, é preciso lembrar que, para o autor de Os Irmãos Karamázov, o eixo moral está na frase do Stárietz Zóssima: “Cada um é responsável por todos e por tudo”. Sem essa responsabilidade universal, não há política, há apenas gerenciamento de ressentimento. Como demonstra Joseph Frank, seu maior biógrafo, foi na experiência da Sibéria que Dostoiévski operou sua conversão, ao descobrir que a liberdade sem Cristo torna-se tirania sobre o outro.

Os dois messianismos

Por essa razão, odiaria com igual intensidade os dois messianismos que hoje nos cercam no Brasil. O primeiro é o messianismo do Palácio de Cristal, descrito em Memórias do Subsolo, que promete uma sociedade perfeitamente racional, higiênica e confortável, em troca da alma. É o Brasil da tecnocracia de terno, que acredita que planilha resolve pecado. Como já alertava Nikolai Berdyaev, o homem do subsolo prefere o sofrimento livre à felicidade obrigatória, e, por isso, Dostoiévski jamais se associaria a quem oferece bem-estar em troca da consciência.

Ademais, há um segundo messianismo, talvez ainda mais perigoso, que é o do shigalovismo, exposto em Os Demônios, quando Shigalov sentencia: “Partindo da liberdade ilimitada, chego ao despotismo ilimitado”. Trata-se da revolução permanente que quer destruir Igreja, família e tradição em nome de uma humanidade futura e abstrata que nunca chega, mas que, no presente, justifica tudo, inclusive a mentira, o roubo e a violência. É o que Hannah Arendt, leitora atenta de Dostoiévski, chamaria depois de totalitarismo, quando a ideologia se torna mais importante que a pessoa.

Nesse sentido, como observa Mikhail Bakhtin em Problemas da Poética de Dostoiévski, o russo inventou o romance polifônico, em que nenhuma voz tem o direito de calar a outra, de modo que todo sistema que cala a voz contrária, seja em nome da ordem, seja em nome do progresso, é antidostoievskiano por essência.

O Estado como propriedade

É justamente aqui que o Brasil de 2026 se encontra com a Rússia de 1870, pois o país precisa exorcizar a velha politicagem sindicalista e patrimonialista, e, nesse ponto, o diagnóstico de Dostoiévski nos é profundamente atual. Ele reconheceria imediatamente essa velha politicagem, que descreveu na Rússia como chinovnismo, a burocracia que privatiza o Estado e o utiliza como extensão da própria casa, e que o sociólogo Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, denominou, entre nós, de estamento, ou seja, o grupo que se apodera da máquina pública para se perpetuar no poder, o patrimonialismo que rouba de gravata e depois discursa em nome dos pobres.

Além disso, há o caudilhismo sindicalista que Dostoiévski denunciou em Os Demônios, encarnado em Piotr Verkhovenski, o líder que não quer libertar o povo, mas tutelá-lo para sempre, que não quer cidadãos, quer massa de manobra, que troca liberdade por dependência e chama isso de justiça social. Como aponta René Girard, toda sociedade em crise precisa eleger um bode expiatório para linchar e, assim, sentir-se pura, e, por isso, o Brasil, muitas vezes, não quer justiça, quer sacrifício. Do mesmo modo, Augusto Del Noce lembra que a modernidade trocou a categoria de pecado pela de alienação, mas, para Dostoiévski, o problema não é que o homem está alienado, é que o homem pecou e precisa arrepender-se.

A política sem consciência

Por consequência, vozes suplementares ajudam a adensar esse crivo, pois Luiz Felipe Pondé recorda que Dostoiévski nos ensina que o homem prefere a liberdade infeliz à felicidade administrada por um Estado babá, Gustavo Corção advertia que, sem interioridade, toda política vira idolatria, e Olavo de Carvalho, em sua leitura de Os Demônios, assinalava que o revolucionário não quer mudar o mundo para melhor, quer mudar o mundo para poder mandar nele.

Diante disso, chega de caudilhismo e chega de populismos, porque Dostoiévski não se associaria a nenhum populista, nem ao populista de direita, que promete ordem sem justiça, nem ao populista de esquerda, que promete justiça sem ordem, pois ambos precisam dizer “bandido bom é bandido morto”, apenas mudando quem é o bandido da vez.

O povo ou a massa

Portanto, por exclusão trágica, associar-se-ia ao lado que ainda admite limites inegociáveis e que devolve o poder ao seu dono legítimo, pois o dono do poder é o povo, não o sindicato, não o partido, não o quartel, não a corporação, mas o povo que quer apenas o que Dostoiévski denominava vida viva, poder abrir a porta de casa, voltar do trabalho, criar os filhos sem medo e sem ser roubado duas vezes, pelo crime que assalta na rua e pelo crime que assalta o país de gravata.

Em síntese psicoteológica, Dostoiévski nos diria neste domingo: não procurem um pai, não procurem um salvador, não procurem um caudilho; procurem um servidor que ainda preserve a consciência da tragédia contra o otimismo barato, a defesa da pessoa contra o sistema que coisifica e a liberdade como cruz, não como slogan, a liberdade que implica ter a coragem de dizer “eu pequei” e, por isso mesmo, “eu posso ser perdoado”.

Pois, quando uma nação perde a capacidade de se arrepender, já não precisa de presidente, precisa de exorcista.

(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.

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