Moisaniel Filho “Arruma a mala. Você é o novo gerente em Tabatinga!”

“Arruma a mala. Você é o novo gerente em Tabatinga!”

Por Moisaniel Filho (*)

Depois daquele turbulento encerramento das eleições em São Gabriel da Cachoeira, quando tivemos que deixar a cidade às pressas, juntamente com os companheiros que eu havia levado para trabalhar comigo na campanha — Alcimar, Nica e Mirinho —, voltei para Manaus sem saber exatamente qual seria o próximo capítulo da minha vida.

Passei pouco mais de uma semana na capital aguardando um contato de José Gutenberg Alves, que havia me dito que encontraria uma nova missão para mim em alguma das emissoras da Rádio Nacional espalhadas pela Amazônia.

Naquela época, confesso, eu alimentava um sonho: Fernando de Noronha. Havia uma espécie de magia em torno daquele lugar. A beleza, o isolamento do continente, o mar, a ideia de viver e trabalhar numa ilha tão especial… Tudo aquilo mexia com a imaginação de qualquer um. Mas Fernando de Noronha não seria o meu destino.

Embarque imediato

Quando Gutenberg finalmente entrou em contato comigo, não houve reunião, preparação nem tempo para pensar muito. Foi praticamente uma ordem de embarque:

“Te arruma. Cadê tua mala? Bota umas roupas aí porque nós estamos indo agora para o aeroporto”, disse Gutenberg.

Perguntei:

“Para onde?”

E ele respondeu com a maior naturalidade:

“Tabatinga. Você é o novo gerente da Rádio Nacional de Tabatinga.”

Meu Deus! Era uma emoção atrás da outra. Ainda tentei argumentar:

“Mas e as minhas coisas? Meus objetos?”

Gutenberg, como sempre, já tinha a solução:

“Não te preocupa com isso. Depois eu mando tudo e você recebe lá. Pega umas roupas e vamos embora.”

Escolhi as melhores roupas que tinha, coloquei numa valise e fomos para o aeroporto.

Gutenberg era apenas alguns anos mais velho que eu, mas já ocupava uma posição de enorme responsabilidade na Radiobrás, à frente das emissoras da empresa na região. Mais do que o cargo, porém, impressionava-me sua personalidade. Foi uma das pessoas mais simpáticas, inteligentes e articuladas que conheci em toda a minha vida no rádio. Parecia não existir problema que Gutenberg não pudesse resolver. Para tudo havia uma saída. Para tudo aparecia uma solução. E ainda conseguia transformar as dificuldades em alguma coisa mais leve, quase numa festa.

Eu confiava nele. Se Gutenberg dizia “vamos”, eu ia.

Lembranças do voo

Embarcamos em um daqueles turbo-hélices que operavam as rotas amazônicas naquele período, aeronaves que ficaram marcadas na minha memória. E eu não entrava naquele avião completamente tranquilo. Carregava comigo lembranças de episódios anteriores envolvendo aeronaves daquele tipo e histórias da aviação regional que me impressionaram profundamente. Algumas delas também me remetiam à Paraense Transportes Aéreos, companhia na qual meu pai havia trabalhado em Belém do Pará.

Havia ainda uma lembrança particularmente triste ligada a Tabatinga. Eu estava trabalhando na operação da Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira quando chegou uma edição extraordinária do noticiário informando sobre a queda de uma aeronave nas proximidades do aeroporto de Tabatinga. A notícia teve enorme repercussão. Durante muito tempo aquele episódio permaneceu na memória dos moradores e era contado e recontado por quem havia vivido aqueles dias.

Por isso, confesso que aquele voo carregava para mim uma sensação diferente. Mas seguimos viagem. Saímos de Manaus durante a tarde, fizemos escala em Eirunepé e finalmente chegamos a Tabatinga sem qualquer intercorrência. Começava ali outra etapa da minha vida.

Primeira impressão

Gutenberg já conhecia muita gente na cidade. Conhecia as emissoras, as equipes e tinha uma facilidade extraordinária para se relacionar. Fomos muito bem recebidos. Ficamos inicialmente em um hotel localizado na General Mallet, quase na esquina com a Avenida da Amizade.

Tabatinga era muito diferente daquela que existe hoje. Pouquíssimas vias possuíam pavimentação adequada. A Avenida da Amizade era o grande eixo da cidade e fazia a ligação em direção à fronteira com Letícia, na Colômbia. A General Mallet concentrava boa parte do movimento e do comércio.

E aquele comércio era impressionante. A presença dos colombianos movimentava intensamente a economia local. Eles atravessavam a fronteira para fazer compras em Tabatinga e contribuíam significativamente para o movimento das lojas e para a renda de muita gente. Era uma fronteira que, no cotidiano, quase desaparecia. Brasil e Colômbia se encontravam nas ruas, nas lojas, nas amizades, nos costumes, na comida, na música e até na maneira de falar e de se vestir.

Depois das primeiras apresentações às autoridades e a algumas pessoas da cidade, chegou o momento de conhecer a emissora que eu passaria a dirigir. E aí veio o primeiro susto.

Os cinco quilamas

A estrutura física da Rádio Nacional era boa. As emissoras da Radiobrás seguiam praticamente um mesmo padrão de construção e organização. Portanto, não foi o prédio que me assustou. Foi o caminho.

Para chegar à rádio era preciso enfrentar alguns quilômetros de uma estrada que, durante boa parte do tempo, se transformava num verdadeiro lamaçal. E eu dizia:

“Isso aqui não tem cinco quilômetros. Tem cinco quilamas!”

Era barro para todo lado. Tabatinga é uma região de chuvas intensas, e aquela estrada, praticamente deserta em vários trechos, tornava a viagem até a emissora uma pequena aventura diária. Existia inclusive o costume de não permanecer na rádio até muito tarde. Por volta das quatro horas da tarde, quando possível, o pessoal procurava iniciar o retorno. Além da dificuldade da estrada, havia o fato de ela ser erma e de anoitecer rapidamente.

Depois que me familiarizei com a cidade, resolvi comprar uma motocicleta. Era uma Yamaha 125 pertencente ao Carlos Alberto Salles, discotecário da emissora. Gostei da moto e fiz negócio. Só havia um problema: ela definitivamente não havia sido feita para os meus “quilamas”.

A lama se acumulava entre o pneu e o paralama até chegar ao ponto de travar a roda. Vez por outra eu precisava parar no meio do caminho para retirar o barro. Em uma dessas situações, tentando vencer a lama, terminei provocando um problema no motor. Mandei consertar a motocicleta, mas pouco tempo depois resolvi passá-la adiante.

Acabei conseguindo uma Honda 250, mais possante e muito mais adequada àquele terreno. Os pneus mais apropriados enfrentavam melhor a estrada — embora jogassem lama para todos os lados.

As botas indispensáveis

Havia outro equipamento fundamental para quem trabalhava na Rádio Nacional de Tabatinga: a bota Sete Léguas. Praticamente todo mundo usava. As mulheres tinham suas botas mais claras; nós usávamos aquelas mais grosseiras e resistentes.

Na emissora, deixávamos os sapatos limpos. Em casa, outro par. Para atravessar a estrada, era Sete Léguas.

Eu tinha o hábito de trabalhar com roupa social. Usava calças de tecido — cinza, azul-marinho, preta, marrom — e camisas de manga curta, geralmente de algodão, seguindo aquele estilo bastante comum entre executivos da época. A solução era simples: colocava a barra da calça para dentro da bota e enfrentava o caminho. Não havia elegância que sobrevivesse à lama de Tabatinga.

Gutenberg, vendo aquela situação, tratou tudo com o bom humor habitual:

“Olha, esse é o problema. Mas você vai gostar da cidade. A equipe é boa”, afirmava Gutenberg.

E estava certo.

Equipe na Amazônia

A Rádio Nacional de Tabatinga possuía um quadro de profissionais muito bom. Lembro-me de Carlos Alberto Salles e, posteriormente, da chegada de Ivan Pedrosa, com quem construí uma amizade que atravessou os anos. Havia também Chiquinho, Sabazinho, Flim, Fernanda, nossa auxiliar administrativa, Marquinhos, na área técnica, além de outros companheiros.

Entre os locutores estavam Valdemir Lima e Rui Pacífico. Que vozes! Ambos possuíam vozes belíssimas e eram excelentes comunicadores. Era um privilégio contar com dois profissionais daquele nível numa emissora situada tão distante dos grandes centros. Havia ainda colegas que atuavam na operação e em outras funções essenciais ao funcionamento da rádio.

Apesar de toda aquela lama do lado de fora, dentro da emissora tudo permanecia organizado e limpo. Os funcionários chegavam com suas botas, deixavam-nas do lado de fora e colocavam sandálias ou sapatos limpos para trabalhar. Era uma demonstração do zelo que todos tinham pela rádio e também do padrão exigido pela direção da empresa.

Depois de me apresentar às pessoas, mostrar os caminhos e garantir que estava tudo encaminhado, Gutenberg retornou a Manaus. E eu fiquei. Agora era comigo.

Pombal e vizinhança

Inicialmente consegui um pequeno apartamento na Avenida da Amizade. Era tão pequeno que o pessoal chamava o conjunto de “Pombal”. Para chegar até lá, atravessávamos pequenas pontes de madeira, necessárias porque a quantidade de chuva fazia a água se acumular em vários pontos.

Mais tarde consegui uma casa em outra área da cidade. Foi então que fiquei vizinho de Viana, um protético que também trabalhava como enfermeiro no hospital de Tabatinga. Viana era uma pessoa extraordinária. Quando eu não tinha o que fazer, acabava em sua casa. Ficávamos horas conversando enquanto ele trabalhava em suas próteses. Era casado com Bidinha, uma mulher alegre, festiva, que gostava dos bailes e da movimentação da cidade.

Viana, por sua vez, tinha uma paixão quase religiosa pelo Fluminense. De tanto ouvi-lo falar do time, resolvi rebatizá-lo: Fluviana. E não fiquei apenas no apelido. Nas horas vagas, fiz para ele uma placa de madeira, trabalhada com pirógrafo, com o novo nome: FLUVIANA.

Futebol no rádio

A amizade com Viana acabaria se misturando também à minha atividade profissional. Eu trazia de São Gabriel da Cachoeira a experiência com transmissões esportivas e, algum tempo depois, introduzimos as transmissões de futebol na programação da Rádio Nacional de Tabatinga.

Era uma forma de aproximar ainda mais a emissora da população. Afinal, rádio na Amazônia nunca foi apenas transmissor, estúdio e microfone. Rádio era — e continua sendo — convivência. Era conhecer as pessoas. Era participar da cidade. Era estar onde o povo estava.

Alma de fronteira

Pouco a pouco comecei a compreender que Tabatinga não podia ser entendida isoladamente. A fronteira fazia parte de sua identidade. A convivência com Letícia era permanente e a presença colombiana estava em praticamente tudo.

Muitas pessoas de Tabatinga transitavam naturalmente entre o português e o castelhano. A influência aparecia também na maneira de vestir, na culinária e, principalmente, na música. Nas festas predominavam ritmos como cumbia, salsa e merengue.

Para mim aquilo exigia adaptação. Eu vinha de São Gabriel da Cachoeira acostumado com a lambada. E aí começou outro desafio da minha temporada tabatinguense: aprender a dançar. Tentei. Tentei durante os mais de dois anos em que vivi por lá. Mas nunca aprendi direito a dançar salsa. Também nunca consegui dominar a cumbia.

Então desenvolvi uma técnica própria. Misturava cumbia com lambada e seguia em frente. Pelo menos parecia funcionar!

Festas de fim de semana

Tabatinga era uma cidade extraordinariamente animada. Quando chegava o fim de semana, era difícil permanecer em casa. Sexta, sábado e domingo havia festas, clubes, sedes, encontros e bailes por toda parte.

E ainda existia Letícia. Do outro lado da fronteira havia uma vida noturna muito movimentada, com estabelecimentos conhecidos e lojas que atraíam brasileiros pela variedade de produtos importados. Perfumes, relógios, joias e bebidas faziam parte daquele universo comercial. Lembro-me de ter comprado em Letícia um relógio Mido Ocean Star, que naquela época representava um verdadeiro luxo.

Quando alguém sabia que viajaríamos para Manaus, logo apareciam as encomendas. Um queria perfume Azzaro. Outro pedia alguma bebida. Outro queria algum produto importado que encontrávamos com facilidade na fronteira.

Era outro mundo. Até as viagens de avião guardavam características que hoje parecem pertencer a uma época distante. Mal o avião decolava e já se ouvia a sineta chamando os comissários para iniciar o serviço de bordo. E começava o atendimento aos passageiros. Eram outros tempos.

Além da gestão

Havia ainda uma orientação que Gutenberg sempre fazia questão de reforçar: o gerente de uma Rádio Nacional no interior não deveria viver fechado dentro da emissora. Precisava conhecer a comunidade. Aceitar os convites. Conversar com as pessoas. Participar da vida social. Representar a rádio.

E eu fiz exatamente isso. Era levado de um lugar para outro. Conhecia gente. Participativa dos encontros. Frequentava as festas para as quais era convidado e, pouco a pouco, deixei de ser simplesmente “o novo gerente que veio de São Gabriel”. Tabatinga me acolheu. E eu passei a gostar profundamente daquela cidade.

Quando cheguei, encontrei lama, distância, uma estrada difícil e uma emissora praticamente isolada. Depois descobri outra coisa. Descobri uma cidade vibrante, musical, comercial, multicultural e profundamente alegre. Uma cidade onde português e castelhano se encontravam na mesma conversa; onde Brasil e Colômbia praticamente se davam as mãos; onde salsa, merengue, cumbia e até a minha improvisada lambada podiam dividir o mesmo salão.

Passei mais de dois anos em Tabatinga. Tempo suficiente para viver histórias que não caberiam neste relato. Porque esta é apenas a chegada. Ainda há muito a contar sobre a Rádio Nacional, sobre as transmissões esportivas, sobre os amigos, as festas, as viagens, as situações inesperadas e os personagens que encontrei naquele pedaço tão singular da Amazônia. São histórias para outros capítulos.

Mas uma coisa posso dizer desde já: entre todas as cidades que conheci no Amazonas, poucas me pareceram tão pujantes, alegres e vibrantes quanto a Tabatinga daqueles tempos. Era pequena, é verdade. Mas pequena apenas no tamanho. Na alegria, na intensidade e nas histórias que produzia todos os dias, Tabatinga era um verdadeiro furacão. E eu acabara de desembarcar bem no meio dele.

(*) é jornalista, radialista, publicitário, professor universitário, palestrante e especialista em Marketing Estratégico e Gestão Ambiental. Atua há mais de quatro décadas nos setores de rádio, televisão, jornal, gestão pública, educação e desenvolvimento socioambiental na Amazônia.

Criador do Projeto Socioambiental Consciência Limpa, da Rede Amazônica, dedicou-se à promoção da educação ambiental e da cidadania. É também formador de profissionais de rádio, ministrando cursos e palestras nas áreas de comunicação, radiodifusão e oratória.

Ao longo da carreira, exerceu funções de direção, gestão e comunicação em veículos de imprensa, instituições públicas e organizações da sociedade civil, sempre pautado pelo compromisso com a ética, a informação de qualidade e o desenvolvimento sustentável.

É autor de projetos, artigos e obras voltadas à comunicação, à memória do rádio e às questões socioambientais da Amazônia e atualmente articulista do Portal O Povo Amazonense.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.