
Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)
O rei Charles III não descende de Henrique VIII. A frase é breve, quase um sussurro nos corredores de Westminster, mas nela reside o segredo de toda a arquitetura da monarquia britânica moderna.
Henrique VIII foi o rei que desejou ser eternidade. O soberano das seis esposas, do machado sempre a postos, do reino dividido ao meio para que um divórcio se convertesse em lei. Teve três filhos que viveram o bastante para cingir a coroa, Eduardo, Maria e Elizabeth. Três coroas sob o mesmo teto. Três funerais sem berço depois. Nenhum deles deixou descendência. Quando Elizabeth, a Rainha Virgem, encerrou os olhos em 1603, com o anel ainda no dedo e nenhum herdeiro ao colo, a linha direta de Henrique VIII extinguiu-se como chama ao fim do corredor.
Se o seu sonho era um herdeiro varão que perpetuasse o seu nome pelos séculos, a biologia negou-lhe o pedido. A coroa, porém, teimosa, sobreviveu. E sobreviveu precisamente pelo ramo que ele tentou podar. Para compreender como se vai de Henrique VIII a Charles III, é necessário seguir o fio invisível que une a Inglaterra à Escócia. Morta Elizabeth, o Conselho Privado, temendo guerra civil, necessitava de um protestante com sangue real. Encontrou-o ao norte, nas brumas de Edimburgo, James VI da Escócia, que ao descer para Londres tornou-se James I da Inglaterra e, pela primeira vez, reuniu as duas coroas sobre uma única cabeça, em 1603.
Quem era esse James? Filho de Maria Stuart, a rainha decapitada. Neto de James V. Bisneto de uma mulher quase esquecida pelos manuais ingleses, Margaret Tudor, irmã mais velha de Henrique VIII. É por ela que o sangue corre. Charles III é, portanto, filho de Margaret, não de Henrique. A Casa Windsor liga-se aos Tudor não pela espada do irmão célebre, mas pelo ventre da irmã exilada. Margaret Tudor desposara em 1503 James IV da Escócia, em matrimônio de inverno, arranjado por seu pai, Henrique VII, para selar uma paz frágil.¹ Naquele dia, sob véu pesado e vento do norte, ninguém imaginou que daquele abraço político, daquele sim dito por conveniência, sairia, um século mais tarde, o herdeiro que salvaria o trono inglês.
Assim, a história da monarquia britânica escreve-se como romance de nomes que mudam e de sangue que permanece. As dinastias trocam de sobrenome como quem troca de casaco, Tudor, Stuart, Hanover, Saxe-Coburgo-Gota, Windsor, mas sob o casaco o sangue continua quente e interligado. O ponto de convergência é Henrique VII, o fundador. Tanto Henrique VIII quanto Margaret eram seus filhos. Charles III procede de Henrique VII, sim, mas não daquele filho que quis ser o centro do mundo.
Ironia histórica e a busca frustrada pela sucessão
Por isso os historiadores falam, com certo lirismo, em DNA da sobrevivência. Se Henrique VIII não se perpetuou, Margaret fê-lo em seu lugar. De seu ventre desceu a Casa Stuart e, da Casa Stuart, por meio de Sophia de Hanover, neta de James I, desceu a Casa de Hanover e, de Hanover, a Casa de Saxe-Coburgo-Gota e Windsor.² No corpo de Charles III corre mais sangue de James IV da Escócia do que do lendário Henrique VIII da Inglaterra.
Neste ponto, a história torna-se ironia, e a ironia, lição moral. Henrique VIII celebrizou-se pela busca obstinada de um filho varão. Por essa sede rompeu com Roma em 1534, desafiou o Papado, dissolveu os mosteiros, declarou-se Chefe Supremo da Igreja e entrou seis vezes em uma igreja para dizer “aceito”. Duas de suas rainhas, Ana Bolena e Catarina Howard, foram levadas ao cadafalso, em grande medida, por não lhe darem esse varão. O destino, porém, que aprecia rir dos poderosos, escreveu outro desfecho. Seu herdeiro tão planejado, Eduardo VI, coroado menino aos nove anos, morreu de tuberculose aos quinze, sem tempo de tornar-se homem e sem deixar descendência. Sua filha Maria, filha de Catarina de Aragão, entrou para a história como Bloody Mary, tentou reconduzir a Inglaterra ao catolicismo pela força, reinou cinco anos amargos e partiu sem herdeiros. Sua filha Elizabeth, filha de Ana Bolena, foi talvez a maior de todos, reinou quarenta e quatro anos, venceu a Armada Espanhola e deu nome a uma Era de Ouro, mas optou por não se casar e morreu sem descendência. Em seu testamento de 1547, já enfermo e alquebrado, Henrique VIII ainda tentou apagar a irmã, ao excluir explicitamente a linha de Margaret da sucessão.³ O testamento foi desconsiderado pelo tempo. A coroa coube precisamente aos descendentes de Margaret.
Ao observarmos hoje Charles III, vemos o capítulo mais recente, até aqui, de séculos de engenharia política, de casamentos arranjados à luz de velas e de narrativas tecidas para que o poder pareça eterno. Monarcas modernos não herdam apenas sangue, herdam instituições. Aqui reside o paradoxo final, belo e incisivo, Charles III não possui o DNA de Henrique VIII, mas ocupa o trono que Henrique VIII inventou e ora na igreja que Henrique VIII criou. Nada resume melhor esse paradoxo do que um título que Charles III ainda ostenta no peito e nas moedas, Defensor da Fé.
Origem e metamorfose do título Defensor da Fé
É necessário narrar essa história por inteiro, porque o título é a própria biografia da Inglaterra. Em 1521, Henrique VIII era ainda o príncipe católico da Europa, o jovem rei teólogo que, com auxílio de Thomas More, escreveu contra Martinho Lutero o tratado Assertio Septem Sacramentorum.⁴ O Papa Leão X, impressionado, concedeu-lhe então, por bula, o título honorífico Fidei Defensor. Era um título papal, católico, conferido a um rei que defendia Roma contra a Reforma. Poucos anos depois, o mesmo rei que defendera o Papa rompeu com o Papa por causa de um divórcio. Ao ter negado o pedido de anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, Henrique fez aprovar o Ato de Supremacia, em 1534, e declarou-se Chefe da Igreja da Inglaterra.⁵ O Papa Paulo III retirou-lhe o título e excomungou-o. O Parlamento inglês, em gesto de soberania e de suprema ironia, decidiu, contudo, que o título não pertencia ao Papa para ser retirado, mas à Coroa inglesa para ser conservado. Em 1544, o Parlamento reconfirmou, por lei, que o rei da Inglaterra é e sempre será Defensor da Fé, não mais por concessão papal, mas por direito parlamentar.⁶
Desde então, todo monarca britânico carrega esse título paradoxal. Católico na origem, protestante no uso, teológico na letra e político no espírito. Elizabeth II trouxe-o como F.D. nas moedas durante setenta anos. Charles III, quando ainda príncipe, chegou a sugerir que gostaria de ser reconhecido não apenas como Defensor da Fé, no singular, mas como Defensor das Fés, no plural, em aceno à Inglaterra multicultural contemporânea. Ao ser coroado, manteve o título histórico e jurou, na Coroação, ser protetor da fé protestante e, simultaneamente, garante do espaço para que todas as crenças vivam sob a mesma Coroa.
Que dizem os teólogos anglicanos sobre esse paradoxo? Richard Hooker, o grande teólogo elisabetano que fundamentou a via média anglicana, ensinava que a Igreja da Inglaterra nunca se definiu como criação nova, mas como a Igreja Católica reformada em solo inglês.⁷ Nessa perspectiva, o título de Defensor da Fé não seria vaidade de um rei, mas dever de um povo que permanece católico e reformado ao mesmo tempo. Rowan Williams, ex-Arcebispo de Canterbury, recorda que a Coroa britânica carrega uma teologia do paradoxo, pois o monarca é, a um só tempo, pessoa falível e símbolo da continuidade da fé.⁸ N. T. Wright observa que a ironia de Henrique VIII é providencial, pois a Reforma Inglesa não nasceu de uma tese afixada à porta de uma igreja, mas de um drama conjugal, e, ainda assim, Deus utilizou esse drama para devolver a Escritura ao povo em sua própria língua.⁹ Alister McGrath explica que Fidei Defensor deixou de ser elogio papal para converter-se em compromisso parlamentar.¹⁰ Michael Ramsey afirmava que o monarca britânico, como Governador Supremo, não governa a Igreja como governa o Estado, mas serve à Igreja como seu membro mais visível.¹¹
A fé e o papel da igreja no cenário atual
Como se encontra hoje o cristianismo na Inglaterra que esse rei defende? A resposta exige simplicidade e honestidade. A Inglaterra já não é país de cristandade maciça, mas continua sendo país de matriz cristã. O Censo de 2021 mostrou, pela primeira vez, que menos da metade da população da Inglaterra e do País de Gales se declara cristã, 46,2%, enquanto 37,2% se declara sem religião.¹² A Igreja da Inglaterra, Established Church, ainda se faz presente em cada aldeia com sua torre de pedra, ainda batiza, casa e sepulta, ainda mantém assento na Câmara dos Lordes com vinte e seis bispos, mas, aos domingos, vê suas naves mais vazias.
O anglicanismo, todavia, não desapareceu. Mudou de configuração. A paróquia tradicional retraiu-se, mas cresceram comunidades carismáticas e evangélicas no coração de Londres, como a Holy Trinity Brompton, berço do Curso Alpha. A Igreja Católica, impulsionada pela imigração polonesa, filipina e africana, tornou-se a igreja que mais reúne fiéis praticantes aos domingos. O cristianismo inglês atual é menos branco, menos rural e menos automático, e mais urbano, mais diverso e mais fruto de escolha pessoal.
Por isso, o papel de Charles III como Defensor da Fé adquiriu novo sentido pastoral. Ele já não defende apenas o anglicanismo contra Roma, como Henrique VIII um dia fez, nem o protestantismo contra o catolicismo. Defende, no modelo anglicano, a possibilidade de a fé cristã continuar sendo alma pública da Inglaterra em país secularizado e multirreligioso.
E, para que essa via média não se rompa, torna-se decisiva a figura do Arcebispo de Canterbury. Se o rei é o Governador Supremo, o Arcebispo é o moderador espiritual. Desde Agostinho de Canterbury, em 597, o ocupante da cátedra de Canterbury é reconhecido como primus inter pares, o primeiro entre iguais, de toda a Comunhão Anglicana. Ele não é Papa anglicano. Não governa por decreto. Não possui jurisdição universal. Ele preside pelo afeto, pela escuta e pela moderação. Numa Comunhão de oitenta e cinco milhões de fiéis, quem impede que a corda arrebente é justamente o Arcebispo. Sua função é manter a mesa posta. A moderação de Canterbury é, portanto, instituição teológica. Ela encarna o princípio anglicano de que a verdade não se impõe pelo grito, mas amadurece na oração comum.
Bases teológicas e o fundamento da fé
Chegamos, então, à tese central, hoje, o Anglicanismo é genuinamente bíblico e teológico. Não é, como por vezes se afirma no Brasil, uma igreja sem doutrina. O Anglicanismo clássico sustenta-se sobre três pilares inseparáveis, que Richard Hooker denominou Escritura, Tradição e Razão. A Escritura é a norma final, pois o Artigo VI dos Trinta e Nove Artigos afirma que a Sagrada Escritura contém todas as coisas necessárias para a salvação.¹³ A Tradição é a leitura da Escritura realizada pela Igreja indivisa dos primeiros séculos. Por isso, o Livro de Oração Comum de 1662 permanece repleto de credos, de Padres e de liturgia patrística. E a Razão é o instrumento que Deus nos concedeu para ler a Bíblia com honestidade.
Por essa razão, o Anglicanismo continuante insiste que ser anglicano é ser bíblico de modo ordenado. Bíblico, porque todo o Livro de Oração Comum é composto por cerca de oitenta e cinco por cento de texto bíblico recitado. Teológico, porque não improvisa doutrina, mas haure em Agostinho, em Anselmo, em Hooker, em C. S. Lewis e em N. T. Wright, mantendo a centralidade da graça, da cruz e da ressurreições.
E, por fim, é necessário dizer o que sustenta tudo isso, pois nenhuma coroa salva, nenhum parlamento salva, nenhum arcebispo salva. Quem salva é Jesus Cristo. Ele é o Esposo da Igreja.
O Livro de Oração Comum, no rito do matrimônio, recorda que o casamento humano espelha o mistério entre Cristo e sua Igreja, citando Efésios 5:25-27, Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela.¹⁴ Na tradição anglicana, o Rei não é o esposo da Igreja. O Rei é apenas o membro leigo mais visível. O Esposo é Cristo. O Arcebispo de Canterbury, ao coroar o monarca, entrega-lhe a Bíblia e diz, eis o que há de mais valioso que este mundo pode oferecer. Não entrega um cetro, mas a Escritura, porque a autoridade última não está no cetro, mas no Cordeiro.
Em síntese, Charles III não carrega os genes do homem das seis esposas, mas carrega sua coroa, sua Igreja, seu título papal tornado parlamentar e a estrutura de Estado soberano que Henrique VIII erigiu ao romper com o Papado. O sangue veio da irmã que ele desprezou. O poder veio dele próprio. Um título concedido por um Papa para defender Roma tornou-se, nas mãos de um rei que rompeu com Roma, o selo perene da independência da Inglaterra. Hoje, em uma Inglaterra menos cristã em números, mas ainda profundamente cristã em memória, liturgia e esperança, o Defensor da Fé permanece como aquele que recorda ao país que a fé não é apenas herança de museu, mas casa viva onde ainda se acende luz. E essa casa mantém-se de pé porque, entre o Rei que governa e o povo que crê, existe um Arcebispo que modera, mas acima de ambos existe um Esposo que salva, Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e eternamente.
NOTAS
- ¹ WEIR, Alison. The Lost Tudor Princess: The Life of Margaret Douglas. London: Vintage, 2016.
- ² STARKLEY, David. Crown and Country: The Kings & Queens of England. London: Harper Press, 2010.
- ³ TESTAMENTO DE HENRIQUE VIII, 1547. In: Letters and Papers, Foreign and Domestic, of the Reign of Henry VIII.
- ⁴ HENRY VIII. Assertio Septem Sacramentorum. London, 1521.
- ⁵ ACT OF SUPREMACY, 1534. Statutes of the Realm, 26 Hen. 8. c. 1.
- ⁶ ACT FOR THE RATIFICATION OF THE KING’S STYLE, 1544. 35 Hen. 8. c. 3.
- ⁷ HOOKER, Richard. Of the Laws of Ecclesiastical Polity. Book III, 1594.
- ⁸ WILLIAMS, Rowan. Anglican Identities. London: Darton, Longman and Todd, 2004.
- ⁹ WRIGHT, N. T. The New Testament and the People of God. London: SPCK, 1992.
- ¹⁰ McGRATH, Alister. Reformation Thought: An Introduction. Oxford: Blackwell, 2012.
- ¹¹ RAMSEY, Michael. The Anglican Spirit. London: SPCK, 1991.
- ¹² OFFICE FOR NATIONAL STATISTICS. Census 2021: Religion in England and Wales. London: ONS, 2022.
- ¹³ THIRTY-NINE ARTICLES OF RELIGION, Art. VI. Book of Common Prayer, 1662.
- ¹⁴ THE BOOK OF COMMON PRAYER, The Form of Solemnization of Matrimony. London, 1662. Cf. Ef 5, 25-27; Ap 19, 7-8.
Sobre o autor: Prelado anglicano; especialista em Ciências da Religião.
(*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.





