Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho A alma cabocla da Amazônia e do Brasil

A alma cabocla da Amazônia e do Brasil

Do preconceito à lei, a luta do caboclo para sair da invisibilidade e ocupar o centro da identidade nacional

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)

O reconhecimento da caboclitude resgata a essência da identidade amazônica e brasileira. É um gesto de justiça histórica que devolve valor aos saberes tradicionais e à trajetória do nosso povo. Falar de caboclitude não é falar de folclore regional. É falar do Brasil profundo, da raiz que sustenta o país.

A caboclitude é, antes de tudo, identidade legítima. Ser caboclo é viver a união entre os povos indígenas e as outras matrizes que formaram o Brasil. É o encontro do indígena com o branco português, com o negro africano e com o nordestino que migrou nos ciclos da borracha. O Movimento Nação Mestiça, criado em Manaus em 2001 e formalizado em 2006, define bem esse lugar: defender a etnia mestiça brasileira, nascida do processo espontâneo de miscigenação, e reconhecer o mestiço como herdeiro de todos os povos que o formaram. O caboclo não é quase índio nem quase branco. É uma síntese nova, com fala própria, com modo próprio de viver e de estar no mundo.

Modo de existir

Mais que identidade, a caboclitude é um modo de existir. Ela define como a pessoa se relaciona com a natureza, com os rios e com a floresta. Para o caboclo, o rio não é paisagem, é rua, é alimento, é calendário e é destino. A floresta não é apenas recurso econômico, é casa, farmácia, templo e biblioteca. Enquanto o modelo urbano separa o ser humano da natureza, a vivência cabocla integra. É o ser do rio, o ser da mata. Essa filosofia de pertencimento é o que o mundo atual, em crise climática, tenta reaprender com a Amazônia.

Esse modo de viver guarda uma sabedoria antiga que a ciência passa a reconhecer com respeito. São conhecimentos sobre plantas medicinais, sobre o manejo do açaí, do pirarucu, da andiroba e do guaraná, sobre a lua e a maré que orientam a pesca e a roça. São os mitos que organizam a vida na Amazônia, como o Curupira, guardião da floresta, a Iara, protetora dos rios, e o Boto, que traduz códigos morais da comunidade. O que a cidade chama de lenda, a várzea trata como norma de cuidado ambiental. O que a universidade chama de etnobotânica, o caboclo chama de ensinamento de avó.

Origem da palavra

A própria origem da palavra mostra sua profundidade. Segundo o Dicionário Aurélio, caboclo vem do tupi kari’boka, que significa procedente do branco. O tupinólogo Eduardo de Almeida Navarro explica que o termo vem de kuriboka, que primeiro nomeou o filho de indígena com africana, depois o filho de mãe indígena e pai branco e, mais tarde, o mestiço de caboclos e brancos. Câmara Cascudo registra ainda a forma caboco. A palavra já nasce mestiça, já nasce ponte. Desde Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru, que naufragou em 1509 na Bahia e, ao se unir a Catarina Paraguaçu, deu origem a extensa descendência cabocla, com destaque para Madalena Caramuru, considerada a primeira mulher brasileira alfabetizada, a caboclitude está na certidão de nascimento do Brasil.

Esse ponto se conecta à dissertação “O Amazônida Hinterlandino: uma análise discursiva”, defendida em 2019 no Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), por este autor, sob orientação da Profa. Dra. Selda Vale da Costa. A pesquisa buscou compreender como os homens e as mulheres do interior da Amazônia aparecem em produções textuais, tanto como formações discursivas próprias quanto como discursos produzidos sobre eles.

O problema da pesquisa foi direto: quais representações e efeitos de sentido podem ser percebidos na produção discursiva sobre o amazônida do interior? O corpus analisado foram obras de Therezinha de Jesus Pinto Fraxe e Gláucio Campos Gomes de Matos, professores da UFAM, com base na Análise do Discurso de linha francesa, com apoio em Moscovici, Pêcheux, Jodelet, Orlandi, Coracini e na Antropologia Linguística.

Ciência e discurso

A conclusão é central para este artigo. As representações encontradas trazem marcas de um discurso externo, exógeno, que há séculos fala sobre a Amazônia sem ouvir a Amazônia. Mas também mostram a capacidade do amazônida de produzir um contradiscurso, uma formação discursiva original, nascida do encontro entre a memória social e novas possibilidades de ser e de pensar. O amazônida hinterlandino, indiodescendente, caboclo, ribeirinho, não é o Jeca Tatu, não é o preguiçoso da rede, não é o prisioneiro da natureza que assiste passivo ao avanço das máquinas. Esse é o discurso colonial. O discurso que nasce do lugar revela outro perfil: conhecimento do território, ética da resistência e prática da sustentabilidade. É uma memória viva, atualizada a cada dia, mas preservada na essência, com marcas de referência, afirmação, resistência e autenticidade.

Contra essa riqueza ergueu-se o peso do preconceito. O uso pejorativo de termos como cabloquice ou caboquice vem do preconceito urbano e colonial para diminuir o modo de vida caboclo. É a arrogância do asfalto que se julga superior à beira do rio. Pesquisadores já mostraram que o termo carrega sentidos racistas e segregadores, mas também vem sendo ressignificado como marcador positivo da identidade mestiça amazônica. A antropologia clássica, por não enquadrar o caboclo no modelo do bom selvagem, tratou-o como invisível ou como desvio. Essa invisibilidade sociopolítica dificulta seu reconhecimento como herdeiro legítimo da floresta onde vive.

Esse silenciamento tenta transformar, pela zombaria, simplicidade em ignorância, serenidade em preguiça e economia do suficiente em atraso. É uma violência simbólica que desvaloriza uma cultura rica para impor um único modelo de progresso. Riram do chapéu de palha e não entenderam sua tecnologia. Zombaram do falar cantado e não perceberam sua poesia. Chamaram de isolado quem, na verdade, estava preservado.

Memória em lei

Por isso, é urgente uma virada cultural. É preciso rejeitar o deboche e reconhecer no caboclo um sujeito de direitos, de história e de saber. Essa virada tem data, lei e luta. A história oficial apagou o caboclo dos censos. Ele apareceu como categoria nos censos de 1872 e 1890, ao lado de branco, preto e pardo, mas foi excluído a partir de 1891. O indígena só retornou ao censo em 1991. Diante dessa exclusão, a reação partiu da Amazônia. Ainda em 1967, o então deputado Athiê Coury propôs a criação da data nacional do caboclo.

O Movimento Nação Mestiça transformou memória em lei. Conquistou a Lei 934, de 6 de janeiro de 2006, em Manaus, que institui o Dia do Mestiço, reconhecido como grupo étnico-racial-cultural, e a Lei Ordinária 3044, de 21 de março de 2006, no Estado do Amazonas, que institui o Dia do Mestiço e homenageia Álvaro Maia, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro como defensores do mestiço como identidade nacional. Por demanda do movimento, comemoram-se o Dia do Caboclo em 24 de junho e o Dia do Mestiço em 27 de junho, com festival em Manaus, Autazes, Careiro da Várzea e Iranduba, com mês do mestiço, seminários e feiras de cultura.

O Nação Mestiça também alerta para a mestiçofobia, que é o ódio a mestiços e à miscigenação. Ao longo da história, houve leis que proibiram casamentos inter-raciais e políticas de desmestiçagem que obrigaram mestiços a serem classificados em uma única raça para apagar sua identidade. Defender a integração étnica é, portanto, uma forma direta de combater o racismo.

Projeto de nação

O Brasil precisa se entender como plural e multicultural. Não somos uma cultura única transmitida pela televisão, mas um mosaico de identidades que se complementam. O samba do Rio, o frevo de Pernambuco, o chimarrão do Sul e o carimbó caboclo são igualmente Brasil. Dar visibilidade às vozes da Amazônia fortalece a democracia e a soberania cultural. Um país que não conhece sua Amazônia não defende sua Amazônia. Quem não conhece o caboclo entrega a floresta ao grileiro e ao garimpo ilegal. Compreender o caboclo é entender o Brasil profundo, que resiste e produz sentido longe dos grandes centros. É no interior das ilhas, dos furos e dos igapós que mora uma lição de sustentabilidade que o mundo tenta decifrar.

A miscigenação, nesse contexto, não é apenas dado biológico. É fator de segurança socioemocional. O caboclo, por ser ponte entre vários povos, desenvolve resiliência afetiva, capacidade de adaptação e de mediação. Ele não precisa negar uma parte de si para afirmar outra. Essa identidade integrada é um antídoto contra o ódio identitário e contra a intolerância que divide o Brasil urbano. O amazônida hinterlandino nos ensina isso em sua prática discursiva: ele resiste ao que já foi dito sobre ele, afirma seu modo de ser com referência e autenticidade. O caboclo prova, na vida diária, que a mistura não enfraquece. Ela fortalece. O Brasil não deu errado na mistura, deu certo. Precisamos apenas parar de ter vergonha do que somos.

Resgatar a caboclitude não é nostalgia. É projeto de nação. É trazer para o centro da narrativa brasileira quem sempre esteve no centro do território, mas à margem da história oficial. É dizer, com orgulho e sem pedido de desculpas: “sou caboclo, sou mestiço, sou Amazônia, sou Brasil”.

Como nos lembra Darcy Ribeiro, um dos grandes defensores do mestiço: “O povo brasileiro, mestiço na carne e na alma, jamais poderá ser o que não é, porque só sendo o que é poderá ser fecundo e criador.”

(*) é professor Emérito de Língua Portuguesa.

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