O Brasil da esquina

Onde o Brasil aprendeu a ser Brasil

Por Rev. Prof. Francisco A. C. Pinho (*)

O Brasil não nasceu em discurso de político. Nasceu na rua, no cheiro do pão às cinco da manhã, na conversa do mascate que oferecia tecido e no bater do martelo do sapateiro. Para compreender o que é ser brasileiro, não basta olhar o Palácio. É necessário observar o balcão da padaria, a banca de pano e a oficina de conserto. Foi ali que o país aprendeu a conviver com o diferente.

O pão diário

A padaria, por exemplo, é a extensão da casa portuguesa na rua. No final do século XIX e início do século XX, o imigrante português dominou esse ramo. Eram minhotos e transmontanos, homens do forno a lenha. O pão francês, que de francês tem apenas o nome, transformou-se em nosso relógio. O pão dormido virava torrada. O pão novo, quente na madrugada, despertava a cidade inteira.

Dessa forma, a padaria criou o seu Manuel, o homem da caderneta. Essa caderneta foi o primeiro sistema de crédito do povo. Sem banco e sem burocracia, valia somente a palavra. O conhecido “pendura aí” salvou muitas famílias no fim do mês, e o pão com café com leite tornou-se a oração diária do trabalhador.

Em Manaus, durante o ciclo da borracha, essa realidade foi ainda mais marcante. Famílias de portugueses abriram panificadoras na Avenida Eduardo Ribeiro. O trigo chegava de navio, junto com o bacalhau e o vinho do Porto. Assim, o seu Manuel de Manaus vendia fiado ao seringueiro que descia de Tefé e de Parintins. Em Tefé, essa função era exercida pelo armazém dos Gadanha, onde a palavra valia e a conta permanecia. O antropólogo Gilberto Freyre demonstrou que o português urbanizou o país por meio do comércio. O historiador Sérgio Buarque de Holanda lembrou que ele introduziu a ética do trabalho cotidiano. E Roberto DaMatta explica que a padaria é o ponto onde a casa e a rua se encontram.

A rota dos mascates

Se o português ofereceu o pão, o libanês, o sírio e o judeu ofereceram a roupa. Esse grupo chegou entre 1880 e 1930, fugindo de guerras e perseguições. Vieram sem terra e sem dominar o idioma, mas com grande experiência em comércio.

No início, eram mascates. Caminhavam a pé, no lombo de burro e depois de barco, com uma caixa repleta de tecido, linha, zíper e perfume. O libanês era chamado de “turco” porque possuía passaporte do Império Turco-Otomano. Por isso, chegava onde o Estado não chegava.

Manaus foi a capital deles na Amazônia. Os judeus oriundos do Marrocos desembarcaram por volta de 1810, bem antes da borracha, e fundaram em 1828 o primeiro cemitério israelita do Brasil. Eram os Benchimol, Benzecry e Levy, regatões que comercializavam pelos rios. Posteriormente vieram os libaneses, Fares, Simão, Daher e Assayag, que se estabeleceram na Rua Marechal Deodoro, na Rua dos Barés e na Avenida Eduardo Ribeiro. O comércio do Centro lhes pertencia.

Em Tefé, aliás, o mascate era figura muito conhecida. Subia de Parintins pelo Rio Solimões, de batelão, e levava tecido para Dona Raymunda Paredes costurar “para fora” e anil para Dona Nilza quarar roupa na grama. Em uma época em que vestuário passava de pai para filho, eles baratearam o ato de vestir. Vestiram a lavadeira, o seringueiro e a professora. Além disso, ensinaram a pechinchar. No tempo da Casa-Grande, preço não se discutia. O mascate demonstrou que preço se conversa. Pechinchar, no fundo, é uma forma de dizer: “eu o respeito, vamos negociar?”.

Por essa razão, o historiador Boris Fausto afirma que o mascate foi o primeiro a integrar o país, do interior ao litoral. O professor Michel Sleiman, da Universidade de São Paulo (USP), recorda que judeus e árabes, que se confrontavam no exterior, aqui se tornaram vizinhos de balcão na 25 de Março e na Saara. O economista Jacques Marcovitch registra que o crediário nasceu ali, na confiança. E a pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) Márcia Benchimol Barros evidencia que, sem o regatão judeu e o mascate libanês, a Amazônia não teria se vestido.

As oficinas de Tefé

Da banca de tecido para a bancada de sapato, a narrativa segue o mesmo fio, mas com uma distinção fundamental que precisa ser registrada com fidelidade histórica. A imigração italiana brought o apuro manual e a noção de fábrica. O calçado, que hoje parece banal, já foi emblema de liberdade. Entre 1870 e 1920, mais de um milhão de italianos vieram para o Brasil, oriundos do Vêneto e da Calábria. Não permaneceram apenas na lavoura cafeeira. Abriram oficinas. O sapateiro começou pequeno, o ciabattino, com martelo, sovela e fôrma de madeira. Depois, a oficina converteu-se em fábrica e gerou polos como Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, e Franca, em São Paulo.

Tefé, contudo, jamais possuiu oficina italiana. É necessário afirmá-lo com clareza para não criar uma história inexistente. Na Tefé antiga, os profissionais não foram formados em oficinas italianas. Foram formados nas oficinas das escolas dos padres espiritanos. Eram os padres da Congregação do Espírito Santo que mantinham o Seminário São José e as escolas de ofícios, onde se aprendia marcenaria, carpintaria, mecânica e sapataria. E os docentes, por sua vez, foram formados nos educandários das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria. Foram as irmãs que alfabetizaram e prepararam gerações de professoras no interior do Amazonas.

Portanto, se em Manaus e no Sul o sapateiro de origem italiana calçou o povo, em Tefé quem calçou o povo foi o aluno dos espiritanos e das irmãs. O calçado que chegava pelo armazém dos Gadanha — Vulcabrás, Conga e botina vinda de Franca, via Manaus — era consertado e engraxado na oficina modesta do ex-aluno dos padres. O menino da trouxa — Assis do Emiliano, que auxiliava a mãe, Dona Raymunda, e Zeromar, que auxiliava a mãe, Dona Nilza — andava descalço durante a semana, mas comparecia de sapato engraxado à missa de domingo. Era a dignidade de uma infância pobre, porém honesta e decente. Esse calçado calçou Dona Nilza, Dona Raymunda e Dona Nazaré dos Padres, lavadeira e cozinheira dos padres no Seminário São José, onde residia o Bispo Prelado.

Em um país egresso de quase quatro séculos de escravidão, o sapato possuía valor imenso, pois ao escravizado era vedado usá-lo. Andar descalço era sinal de cativeiro. Logo, adquirir a primeira botina significava reconquistar a liberdade. Em Manaus, as sapatarias da Rua da Instalação calçaram a cidade e, no porto da borracha, o estivador que usava calçado já era reconhecido como homem livre.

Nesse sentido, a historiadora Lilia Schwarcz relata que anúncios de escravizados fugidos informavam “anda descalço”. O antropólogo Darcy Ribeiro lembra que o italiano foi o primeiro mestre de ofício do brasileiro. O economista Celso Furtado enxerga na fabricação de calçados o início da indústria nacional. E o sociólogo José de Souza Martins sintetiza: o calçado conferiu ao pobre o direito de circular na rua como cidadão. Em Tefé, esse direito foi assegurado pelos padres espiritanos e pelas irmãs franciscanas, não por italianos.

O povo no balcão

Em síntese, narrar o Brasil por esse ângulo é retirar a história das mãos dos detentores do power e dos gabinetes e restituí-la a quem trabalha diariamente. Como observa o sociólogo Jessé Souza, o país não se explica apenas pela elite, mas pelo povo do balcão. A música autêntica do Brasil não é hino oficial. É o estalo da casca do pão, o pregão do vendedor — “chega, freguês!” — e o bater do martelo na oficina dos padres.

Trata-se, portanto, de uma história inscrita não em cartório de luxo, mas em caderneta de padaria, em caderno de contas do Gadanha e no quadro-negro das irmãs. O português ensinou a repartir o pão. O libanês e o judeu ensinaram a negociar. O italiano ensinou o Sul e o Sudeste a caminhar com firmeza. E, em Tefé, foram os espiritanos e as franciscanas que ensinaram o povo a trabalhar com as mãos e a ensinar com o coração.

Dessa maneira, Manaus sintetiza tudo: traçado português, comércio libanês e judaico, oficina italiana. Tefé é o espelho menor, mas com identidade própria: Gadanha como português, mascate do Lago como libanês e oficina e escola dos padres e das irmãs como formadora de uma geração inteira.

No fim, a Nação não mora no Palácio.

Mora na padaria da Eduardo Ribeiro. Na loja da Marechal Deodoro. Na sapataria do Centro. No armazém dos Gadanha. Na placa manuscrita “Lava-se para fora” de Dona Raymunda e na cozinha de Dona Nazaré dos Padres.

 (*) é jornalista, professor Emérito de Língua Portuguesa, natural de Tefé-AM.

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