Juscelino Taketomi A medalha dourada de Rio Preto da Eva

A medalha dourada de Rio Preto da Eva

Foto: Divulgação

Por Juscelino Taketomi

Às vezes o Brasil ainda nos devolve esperança em pequenas cenas que passam quase despercebidas no meio do barulho nacional.

Enquanto o país discute escândalos, algoritmos, polarização e guerras políticas intermináveis, quatro crianças de 13 anos atravessaram oceanos carregando apenas aquilo que nenhum governo deveria negar a um povo: educação.

Na última terça-feira (26), no plenário Ruy Araújo, da Assembleia Legislativa do Amazonas, houve algo raro na política brasileira. Houve emoção verdadeira.

O deputado estadual Dr. George Lins e a deputada Alessandra Campêlo homenagearam Tabita Paixão, Sara Rihanna, Eskenaz Yamara e Luan Serrão, alunos da Escola Municipal Alegria de Saber, de Rio Preto da Eva, vencedores da medalha de ouro na Grande Finale da Olimpíada Internacional de Matemática, realizada na França.

Deputado estadual Dr. George Lins – Foto: Divulgação

Quem viu o evento pôde medir o tamanho histórico da imagem que marcou o plenário do Legislativo Estadual. Não eram filhos da elite dos grandes centros. Não vieram de escolas bilíngues de mensalidades impossíveis. Não desembarcaram de colégios blindados por privilégios. Vieram do interior do Amazonas. Vieram da escola pública. Vieram da floresta. E vieram carregando ouro no peito.

Há alguma coisa profundamente bonita nisso. Bonita porque educação, quando funciona de verdade, produz exatamente esse milagre: pega crianças aparentemente comuns e as devolve ao mundo como possibilidade.

Ao usar a tribuna da Aleam, a prefeita Maria do Socorro Nogueira, professora de origem, pareceu falar não apenas como gestora pública, mas como alguém que compreende o valor quase sagrado da sala de aula. Sua emoção tinha o peso de quem sabe que educação séria não nasce de discursos. Nasce de continuidade, planejamento e compromisso cotidiano.

Ao lado de Maria do Socorro, a gestora Edileide Gomes Conceição carregava aquele brilho que só professores conhecem: o orgulho de ver um sonho coletivo ultrapassar fronteiras. E vejam que palavra linda: fronteira.

É que, durante séculos, o Amazonas foi tratado apenas como fronteira geográfica. Agora começa a mostrar que pode ser também fronteira de inteligência, ciência e futuro.

O mais importante talvez seja perceber como tudo começou, como bem explicou Dr. George Lins em discurso: um professor acreditando num projeto de matemática. Uma diretora dizendo “vamos tentar”. Uma escola pública abrindo espaço para o impossível. Uma prefeitura entendendo que educação não é gasto, mas destino.

E então aconteceu o milagre brasileiro que quase nunca vira manchete nacional: o esforço deu resultado.

Num país que assinou a Lei Áurea libertando oficialmente milhares de negros da escravidão, mas não do abandono educacional, histórias como essa carregam significado ainda maior. O Brasil aboliu correntes. Mas nunca conseguiu abolir completamente a indigência educacional.

Milhões de brasileiros ainda atravessam a vida sem acesso pleno ao conhecimento, condenados não pela falta de inteligência, mas pela ausência de oportunidade. Por isso, a medalha dos meninos e meninas riopretenses vale mais do que ouro olímpico.

A medalha é um lembrete. Lembra que o interior do Amazonas não é sinônimo de atraso. Lembra que escola pública não precisa ser depósito de sonhos quebrados. Lembra que criança pobre não nasceu para herdar resignação. Lembra que talento existe em qualquer lugar onde exista uma chance e gente como Maria do Socorro e Edileide Gomes.

Isso mostra que o país precisa olhar mais para exemplos assim e menos para a eterna fábrica nacional de escândalos.

Enquanto muita gente poderosa discute o Brasil em gabinetes refrigerados, professores anônimos continuam mudando destinos em salas quentes do interior amazônico. E justamente ali, numa escola chamada Alegria de Saber, entre rios, floresta e esperanças, certamente está escondida a parte mais bonita do futuro brasileiro.

Parabéns, Rio Preto da Eva!

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