
Por Juscelino Taketomi
Era agosto de 1991 quando, de repente, o Amazonas foi tomado não por uma crise econômica, nem por uma epidemia, nem por um golpe de Estado, mas por uma invasão reptiliana digna de filme americano de segunda sessão. Era jacaré saindo pelo ladrão.
Segundo as autoridades da época, havia nada menos que dois milhões de jacarés no município de Nhamundá. Dois milhões. Número tão respeitável que, se cada jacaré resolvesse votar, elegia senador, deputado e talvez até miss simpatia da “Festa do Peixe-Liso”.
O alarme começou depois de uma reportagem exibida no “Fantástico”, da Rede Globo, mostrando moradores assustados com ataques de jacarés-açus na região do Baixo Amazonas. O prefeito de Nhamundá, Mário Paulain, engrossou o caldo afirmando que a população dos bichos havia explodido depois da proibição da caça. O cálculo era monumental: dois milhões de exemplares circulando pela região.
E foi aí que entrou em cena o velho líder Gilberto Mestrinho, uma das raposas mais felpudas da política baré.
Mestrinho nunca foi homem de conversa morna. Governador raiz, daqueles que falavam como quem dava ordem em porto de lenha, comprou a tese imediatamente. Pediu licença ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para promover o abate seletivo dos jacarés e disparou que, se o órgão ambiental não resolvesse o problema, o governo assumiria a bronca. Houve ameaça até de usar a Polícia Militar na operação.
Estava declarada a “Guerra do Jacaré”. Naquele instante, o jacaré deixou de ser réptil e virou questão de segurança nacional.
O deputado federal Euler Ribeiro entrou no front com uma frase impactante, que gerou comentários mil na época: “Entre o caboclo e o jacaré, que mutila e mata, estarei sempre ao lado do caboclo”, afirmou Euler Ribeiro. E o Amazonas, que nunca teve muita dificuldade para transformar tragédia em galhofa e galhofa em épico regional, mergulhou numa espécie de faroeste ecológico.
Tinha político querendo exterminar jacaré. Tinha ambientalista querendo salvar jacaré. Tinha jornalista contando jacaré. E tinha caboclo querendo apenas pescar em paz sem virar almoço de bicho encouraçado.
Mas havia um detalhe explosivo naquele caldo de tucupi político. O Brasil estava às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a famosa “ECO-92”, que transformaria o país na capital mundial do debate ambiental.
Chefes de Estado, ambientalistas, cientistas, organizações não governamentais (ONGs) e jornalistas do planeta inteiro preparavam as malas para desembarcar no Rio de Janeiro. A Amazônia virara obsessão global. O mundo queria saber quem destruía a floresta, quem defendia a floresta e quem lucrava com a floresta.
Foi nesse ambiente que Gilberto Mestrinho ganhou projeção nacional e internacional como uma das vozes mais barulhentas da Amazônia nos bastidores da Conferência.
Enquanto diplomatas falavam em biodiversidade com ar-condicionado central, Mestrinho aparecia como o antiembaixador do ambientalismo romântico. Era o homem que dizia, em linguagem de porto e beira-rio, aquilo que muitos líderes amazônicos pensavam: que havia gente demais querendo mandar na Amazônia sem nunca ter tomado banho de igarapé.
A história dos jacarés acabou virando símbolo perfeito daquele choque. O mundo inteiro discutia preservação ambiental enquanto, no Amazonas, se cogitava mobilizar a Polícia Militar para enfrentar jacaré-açu.
A imprensa nacional caiu em cima. Foi quando um jornalista perguntou ao governador do Pará, Jader Barbalho, se do lado paraense do rio também existia aquela multidão de jacarés assassinos.
Jader respondeu que nunca ouvira falar em ataques semelhantes na cidade de Faro, exatamente em frente a Nhamundá.
Ao ser confrontado com a contradição, Gilberto Mestrinho produziu uma das explicações mais extraordinárias da zoologia política brasileira. Disse o governador que o jacaré era inteligente. Muito inteligente. Tão inteligente que aprendera os hábitos alimentares dos amazonenses e dos paraenses. No Amazonas, explicou Mestrinho, ninguém comia jacaré. Já no Pará, jacaré entrava na panela sem pedir licença.
Por isso, os bichos paravam em Nhamundá e não atravessavam para Faro. Tinham medo de virar jantar. Nunca a teoria evolucionista de Charles Darwin chegou tão perto do humor involuntário. Mas por trás da anedota havia uma questão séria. A Amazônia vivia um momento de choque entre dois discursos extremos: de um lado, o preservacionismo absoluto e do outro, a visão de que floresta boa era floresta domesticada pela necessidade humana.
No meio disso estava o caboclo amazônico, sempre ele, abandonado entre a retórica ambiental e a sobrevivência diária. O problema é que, passados os anos, descobriu-se que a famosa “invasão de dois milhões de jacarés” provavelmente estava muito longe da realidade.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), como o biólogo William Magnusson e o pesquisador Ronis da Silveira, mostraram posteriormente que os jacarés possuem dinâmica populacional muito mais complexa do que o imaginário político permitia compreender.
Silveira passou anos estudando jacarés no Parque Nacional de Anavilhanas e revelou algo que o palanque não queria ouvir: jacaré não é máquina de matar nem aspirador de peixe. Em análises feitas em 212 animais, o conteúdo somado dos estômagos não chegava a meio quilo de alimento. O mito de que cada jacaré devorava dois ou três quilos de peixe por dia não se sustentava cientificamente.
Mais ainda: os estudos mostraram que os jacarés têm metabolismo lento, passam períodos longos sem comer, exercem papel ecológico importante e raramente atacam seres humanos sem circunstâncias específicas.
Ou seja: o jacaré não era o demônio pantaneiro pintado nos discursos inflamados da época. Mas também não era ursinho de pelúcia ecológico. E aí mora a grande lição dessa velha guerra amazônica. O homem não pode destruir a floresta em nome do medo, do lucro ou da política. Mas também não se pode exigir que populações ribeirinhas convivam abandonadas com riscos reais sem qualquer política pública séria de manejo ambiental, monitoramento e proteção.
Nem o homem deve matar jacaré. Nem o jacaré deve devorar o homem.
Entre o extremismo ecológico e a brutalidade predatória existe um negócio chamado equilíbrio, palavra pouco usada em tempos de palanque, rede social e fanatismo ambiental de ambos os lados. A Amazônia precisa menos de guerra e mais de inteligência.
Mestrinho tinha razão numa única coisa: o jacaré sobrevive desde o tempo dos dinossauros porque aprendeu a se adaptar. Resta saber se nós aprenderemos também a conviver com a natureza sem destruí-la, mas tendo-a como parceira em nossos propósitos de desenvolvimento.










