Juscelino Taketomi Bola de cristal não ganha Copa! Por isso, pra frente, Brasil!

Bola de cristal não ganha Copa! Por isso, pra frente, Brasil!

Por Juscelino Taketomi

Não tenho nada contra economistas alemães. Muito menos contra modelos matemáticos sofisticados, gráficos coloridos, algoritmos cheios de variáveis e planilhas capazes de fazer inveja a qualquer banco de investimentos. O problema começa quando alguém resolve transformar estatística em bola de cristal.

É esse o caso do economista alemão Joachim Klement, alçado à condição de “guru das Copas” depois de acertar os campeões mundiais desde 2014. Agora, embalado pela fama, ele resolveu decretar, ainda em maio, que o Brasil cairá diante do Japão nas oitavas de final da Copa de 2026.

Afirmo que uma coisa é construir um modelo capaz de indicar tendências. Outra, completamente diferente, é vender a ideia de que o futebol pode ser reduzido a uma equação.

O próprio Klement admite isso. Segundo ele, seu modelo, que leva em conta variáveis socioeconômicas, como população, clima, tradição futebolística, e os pontos do ranking da FIFA para medir a força dos elencos, consegue explicar cerca de 55% da variação dos resultados de uma Copa do Mundo. Eu, que não falo economês, digo que 45% dependem daquilo que ele chama de sorte.

Ora, quase metade! Se quase metade do resultado foge ao alcance da matemática, então estamos falando do elemento que faz do futebol o esporte mais apaixonante do planeta: o imprevisível.

Afinal, se existisse um algoritmo infalível, não haveria zebra, nem emoção, nem prorrogação, nem disputa por pênaltis. Bastaria ligar um computador e entregar a taça.

Aliás, o próprio “guru” Joachim Klement já vem acumulando alguns tropeços nesta Copa.

Ele previa Coreia do Sul e República Tcheca classificadas no Grupo A. Passaram México e África do Sul. Colocou o Catar como segundo colocado do Grupo B. O Catar foi embora sem vencer uma partida.

Ele apostou na Turquia como vice-líder do Grupo D. Caiu antes da rodada final. No Grupo I, cravou Senegal. Quem avançou foi a Noruega.

Ainda há previsões ameaçadas no Grupo H, onde Espanha e Uruguai sequer têm presença garantida entre os dois primeiros. Ou seja, a matemática já levou alguns dribles.

É verdade que ele acertou até aqui duas projeções envolvendo o Brasil: a Seleção liderou seu grupo e enfrentará o Japão nas oitavas. Falta a terceira: a eliminação brasileira.

Mas acertar o cruzamento não significa acertar o placar. Também houve quem previsse o Titanic “inafundável”.

O futebol não respeita currículo acadêmico, tampouco reverencia modelos estatísticos. Respeita quem joga melhor durante noventa minutos, ou cento e vinte, se for preciso.

O Japão merece todo o respeito. Vive um excelente momento, derrotou grandes seleções nos últimos anos e evoluiu enormemente. Será um adversário duro, organizado e competitivo.

Mas daí a tratar a eliminação do Brasil como se fosse um evento praticamente inevitável vai uma distância enorme. Ainda mais porque o próprio autor da previsão reconhece que quase metade do resultado escapa ao seu modelo.

Se fosse tão simples assim, Carlo Ancelotti poderia ficar no hotel enquanto um software escalaria o time. Mas não é assim que a coisa funciona.

Como filho de pai japonês, confesso que essa partida terá um ingrediente especial para mim. Tenho enorme respeito pela terra dos meus ancestrais, pela cultura japonesa, pela disciplina de seu povo e pela belíssima história construída pelo futebol nipônico. Porém, meu coração veste verde e amarelo. Sem a menor dúvida.

Na segunda-feira, dia 29, quero ver Vini Júnior fazendo aquilo que nenhum algoritmo consegue antecipar: improvisar, driblar, desequilibrar e desmontar qualquer previsão estatística.

Que os samurais façam um grande jogo. Mas que embarquem de volta para a Terra do Sol Nascente carregando apenas a experiência de terem enfrentado uma Seleção Brasileira inspirada.

Copa do Mundo nunca foi decidida em planilhas. Foi decidida dentro de campo. E, enquanto houver bola rolando, não existe economista, algoritmo ou “guru” capaz de decretar o destino de uma camisa que já conquistou cinco estrelas.

Pra frente, Brasil. Hexa neles!

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